Plano de aula (debate) sobre melhoramento genético

Temas: melhoramento genético; análise de argumentos; aplicação de teoria ética e política.  

Duração: Dois períodos de aula de 80 minutos

Objetivos:

  • Os estudantes irão identificar argumentos a favor e contra ao melhoramento genético;
  • Os estudantes irão apreciar a complexidade da distinção entre melhoramento e tratamento;
  • Os alunos irão avaliar os argumentos;
  • Os alunos irão desenvolver suas próprias conclusões sobre a questão do melhoramento genético;
  • Os alunos irão aplicar a teoria ética e política a um debate contemporâneo.


Atividade

Dia 1: Melhoria versus Tratamento

Antes da aula, escreva em lados opostos do quadro dois conceitos. Um é “melhoramento” e o outro “tratamento.”  

  1. Explique aos alunos que uma das distinções feitas por aqueles que se ocupam em refletir sobre melhoramento genético é entre tratamento e melhoramento. O tratamento geralmente pode ser compreendido como restaurar trazer a saúde da pessoa de volta a seu estado típico, enquanto o melhoramento significa aprimorar um corpo que já se encontra saudável. A atividade abaixo se destina a ilustrar algumas das dificuldades potenciais dessa distinção e os alunos também poderão explorar o que essa distinção pode significar para o debate sobre o melhoramento genético.
  2. Leia as seguintes atividades (veja abaixo) em voz alta e instrua os alunos que, para cada atividade, eles devem decidir se é ou não um melhoramento ou um tratamento. Peça para que os alunos se desloquem na sala e fiquem do lado que “melhoramento” ou “tratamento” estiverem escritos no quadro, conforme suas respostas. Discuta cada uma das respostas selecionadas. Enfatize que eles não estão decidindo se aprovam a atividade, mas se eles acham que é um tratamento ou melhoramento.
  • Tomar vitaminas;
  • Tomar hormônios de crescimento humano;
  • Vacinação contra doenças;
  • Adicionar proteína de soro de leite a um shake de café da manhã;
  • Tomar viagra para um problema médico;
  • Tomar Viagra de forma recreativa;
  • Manipulação de genes ligados à memória para melhorar a memória;
  • Um atleta vai à Europa procurar tratamento não aprovado no Brasil para se recuperar de uma lesão mais rapidamente;
  • Cirurgia ocular com laser
  • Tomar Ritalina ou Adderall para o transtorno de hiperatividade com déficit de atenção (TDAH);
  • Beber bebidas energéticas para permanecer acordado enquanto estuda;
  • Tomar terapia de reposição hormonal para retardar os efeitos do envelhecimento;
  • Remover uma marca de nascença;
  • Branquear seus dentes;
  • Alterar geneticamente a altura de uma criança que está bem abaixo da norma, mas não possui qualquer problema médico;
  • Melhorar geneticamente a musculatura de alguém com esclerose múltipla (EM);
  • Melhorar geneticamente a musculatura de uma pessoa na medida em que ela envelhece;
  • Aumentar geneticamente a musculatura de um atleta talentoso que possua habilidades, mas não o físico necessário para seu o esporte que deseja;
  • Alterar geneticamente um embrião para melhorar as capacidades musicais da futura criança;
  • Alterar geneticamente um embrião para resistir aos vírus do resfriado e da gripe;
  • Aumentar o QI de alguém de 120 para 130 através de algum avanço científico;
  • Aumentar o QI de alguém que era um gênio para que volte a ter o mesmo QI que tinha antes de sofrer um acidente de carro;
  1. Inevitavelmente, na discussão sobre se uma atividade é considerada tratamento ou melhoramento, a ideia de fazer com que alguém retorne ao seu estado normal irá surgir.  

Pergunte aos alunos: O que significa ser normal? O que é um estado normal?  O uso generalizado do melhoramento genético alteraria o que nós consideramos normal?  

  1. Apresente os seguintes cenários e pergunte aos alunos quais seriam suas reações.
  • Considere um atleta que não é abençoado com grandes dons naturais, mas é capaz, através do esforço e da determinação, para se destacar em seu esporte.
  • Considere um atleta que é bonito de assistir simplesmente porque ele ou ela naturalmente se destaca em um esporte.
  • Ambos os atletas exibem seus dons com graça e sem esforço.
  • Agora, imagine que descobrimos que ambos os jogadores usaram drogas que aumentam o desempenho. A ação de qual atleta nos incomodaria mais? Deveríamos pensar que o ideal atlético do esforço e da dádiva foi desafiado? Discuta com os alunos o que sua resposta a esses cenários nos fala sobre o que eles (e a sociedade como um todo) atribuem valor.

Os alunos normalmente começarão com o argumento de que as drogas que melhoram o desempenho dão a um atleta uma vantagem injusta. Mas Sandel observa que o que realmente valorizamos em atletas é excelência e é o caso que alguns atletas são melhor dotados geneticamente do que outros sem nenhum esforço próprio; eles simplesmente nasceram com esses presentes. Os alunos devem então ser desafiados a pensar porque diferenças genéticas geradas pelo melhoramento produzem injustiça, mas diferenças genéticas naturais não.

  1. Agora, peça aos alunos que pensam e responda aos seguintes cenários hipotéticos:
  • Imagine que tem dezessete anos de idade e está no ensino médio. Você é um músico realizado e ganhou uma bolsa para uma universidade prestigiada por causa de suas habilidades acadêmicas e musicais. Você então descobre que seus pais projetaram você geneticamente quando ainda era um embrião, para melhorar seu QI e promover habilidades musicais. Tanto seu gosto como seu talento para música são fruto desse melhoramento. Como você se sentiria em relação a isso?
  • Agora imagine um aluno de ensino médio em seu último ano de escola que deseja desesperadamente estudar ciências na faculdade. Porém ele nunca foi muito bom nessa matéria e suas notas não são boas o suficiente para entrar em uma faculdade de sua escolha. Você descobre então que seus pais poderiam ter alterado seu código genético para de tal forma que você seria excelente em ciência. Eles poderiam ter feito isso em uma idade em que começou a demonstrar interesse por ciência (suponha que isso seja possível um dia). Você ficaria chateado por eles não terem feito isso por você? Você gostaria de receber um tratamento genético com a idade atual?
  • Imagine que você optou pelo tratamento. Você foi para uma faculdade de prestígio e conquistou um PhD. Você é agora um biólogo molecular de sucesso e está ganhando um monte de dinheiro. Você acha que seria menos capaz de ter empatia por uma pessoa na sua circunstância e que decidiu não fazer o tratamento e agora tem dificuldade de encontrar um emprego?
  1. Neste ponto, peça aos alunos que façam um brainstorm e anotem alguns benefícios potenciais da engenharia genética. Em seguida, peça aos alunos para pensarem em alguns dos problemas potenciais de melhorias genéticas. Eles não devem assumir uma posição ainda, estão apenas considerando alguns argumentos que podem ser apresentados. Discuta as respostas dos alunos de maneira geral.  

Como tema de casa, peça aos alunos que leiam o conto de Nathaniel Hawthorne, “A marca de Nascimento”. A história pode ser encontrada online em: http://www.lem.seed.pr.gov.br/arquivos/File/livrosliteraturaingles/birthmark.pdf


Dia 2: Analisando os Argumentos

  1. Comece a aula com uma discussão sobre o conto de Hawthorne “A Marca de Nascimento”. (Veja o link abaixo, na seção Materiais Suplementares deste plano de aula, para uma discussão de Albert Whitaker sobre a história e o papel que desempenhou na Comissão presidencial de bioética). Divida os alunos em pequenos grupos de quatro ou cinco e peça para que discutam as questões abaixo.  Eles também podem adicionar perguntas e Insights nesta lista. Uma vez que os grupos tiveram bastante tempo para discutir uma história, peça aos grupos para compartilhar alguns de seus pensamentos com uma classe.
  • Aylmer é um bom cientista? De que maneiras? O que os volumes da biblioteca científica de Aylmer sugerem?
  • Aylmer é uma boa pessoa?
  • O que uma história diz sobre nosso impulso para o domínio/perfeição?
  • Parte da ciência parece explicar e fornecer entendimento e outra parte parece estar preocupada com a alteração e melhoria. O que essa história conta sobre a relação entre a natureza e o cientista?
  • Todos nós lutamos em um ponto ou outro com o que a loteria genética nos negou; que insights a história nos fornece?
  1. Mantenha os estudantes em pequenos grupos de quatro ou cinco alunos, e forneça à metade dos grupos uma breve descrição de argumentos a favor do melhoramento genético e à outra metade uma breve descrição dos argumentos contra. Um breve resumo de alguns argumentos e contra-argumentos encontrados em Sandel e Kamm (links para seus artigos podem ser encontrados na seção Materiais suplementares deste plano de aula) está incluído abaixo. Nesses grupos, os alunos devem discutir cada um dos argumentos para certificar-se de que os compreendem completamente. Eles devem então discutir o quão forte pensam que o argumento é e pensar sobre possíveis contra-argumentos.

Argumentos contra:

  1. O aprimoramento genético viola o direito à autonomia: ao escolher o código genético da criança com antecedência, os pais negam a ela o direito a um futuro aberto. Isso irá direcionar as crianças à escolhas particulares (Sandel).

Crítica: Mas isso equivocadamente implica que na ausência de um projetista, as crianças são livres para escolher suas características para si. Mas nenhum de nós escolhe sua herança genética (Sandel). Quer seja o pai ou a natureza, de qualquer forma a criança não tem liberdade. As crianças estão à mercê de seus pais ou a loteria genética.

  1. O aprimoramento genético criaria duas classes de seres humanos: aqueles com acesso a tecnologias de melhoria e aqueles que devem se contentar com suas capacidades naturais (Sandel).

Crítica: Mas isso não mostra o que há de errado com o aprimoramento propriamente dito. É o efeito de uma injusta distribuição de melhoramentos. Se a injusta distribuição pudesse ser resolvida, nós ainda seríamos deixados com o debate sobre se o melhoramento genético é moralmente aceitável (Sandel).

  1. O aprimoramento genético mina o esforço e afeta a agência humana (Sandel). E se eu recebo um A no meu teste de cálculo, foi por causa do meu esforço e trabalho duro ou resultado do que meus pais forneceram? Parabenizo-me ou agradeço ao médico?
  1. O aprimoramento genético cria um desejo de domínio que não reconhece o caráter de dádiva das capacidades e realizações humanas (Sandel).

Crítica: Mas suponha que um cientista trabalhe para encontrar a cura para a cegueira. Vamos supor também que ele é motivado por um desejo de domínio. Isso torna seus esforços inadmissíveis? Presumivelmente não. Os bons resultados parecem superar a intenção. Nós podemos julgar o caráter do cientista como falho, mas ainda considerar que seu objetivo (cegueira cura) é admissível (Kamm).

  1. O aprimoramento genético desfigura a relação entre pais e filhos, e priva os pais da humildade e simpatia de que uma abertura para o inesperado gera (Sandel). Os pais podem perder a ideia de amor incondicional, afirmando o ser da criança, e se concentrar demais em transformar seu filho, buscando perfeição (Sandel).

Crítica: Mas se é bom contratar tutores, pagar as aulas de preparação o SAT e contratar instrutores pessoais para os seus filhos, por que o melhoramento genético é diferente?

  1. Começaremos a ver nossos talentos como realizações pelas quais somos responsáveis em vez de presentes pelos aos quais devemos ser gratos. Isso transformaria a paisagem moral de três maneiras fundamentais (Sandel).

Crítica: À medida que os pais adquirem a capacidade de controlar vários aspectos do código genético dos filhos, começariam a perder a humildade de aceitar as crianças tal como elas nascem. Essa humildade age como um controle sobre o impulso de controlar as crianças (Sandel).

Crítica: O aprimoramento genético resultaria em uma explosão de responsabilidade. Nós começaremos a atribuir cada vez menos responsabilidade ao acaso e mais à escolha. Isso abre a porta para culpar alguns por não escolher se melhorar de alguma forma. Suportaremos um fardo maior pelos talentos que temos ou não (Sandel).

Crítica: A melhoria genética corroerá a solidariedade. Quanto mais o acaso tiver um papel em nossos talentos e dons, mais razão temos de compartilhar nosso destino com outros, como forma de entender sua situação (Sandel). Por que a pessoa que teve sucesso deve algo ao menos afortunado? Porque vê seus dons como o produto da boa fortuna e não tem mérito total sobre eles(Sandel).

Crítica: Mas não é também verdade que muitas pessoas desejam ajudar os outros com um sentido de respeito e preocupação com o valor de outras pessoas e não porque elas não merecem seu destino (Kamm)? (Permitir o aprimoramento genético significaria que há menos casos de pessoas que estão mal e, portanto, menos pessoas que precisam de ajuda (Kamm).

Argumentos em favor:

  1. Enquanto não houver coerção estatal, as pessoas devem ser livres para projetar seus filhos ou eles próprios. O resultado estará de acordo com os interesses de todos. As pessoas serão livres para perseguir seus próprios objetivos preferidos de vida e para não serão limitadas pela distribuição natural injusta de talentos. (Rawls, conforme analisado por Sandel).
  1. Mas que tipo de características seriam selecionadas ou não selecionadas?  Existe algum problema com isso? Que tipos de traços começariam a desaparecer?
  1. Teríamos a capacidade de curar doenças, prolongar a vida, melhorar o sofrimento e ajudar as pessoas a se destacar em seus esforços (Conselho do Presidente sobre Bioética).
  2. Fazer uma distinção moral entre o melhoramento genético e o tratamento não parece capturar o que pode ser moralmente digno de valorização no melhoramento genético. Suponha que podemos encontrar a cura para uma doença terrível somente se nós melhorarmos a inteligência e memória de nossos melhores cientistas, então parece que esse aprimoramento pode ser moralmente admissível (Kamm). A importância de descobrir tratamentos pode repousar no aprimoramento da inteligência.
  3. Nem tudo o que a natureza oferece é sagrado e merecedor de honra. A natureza é também responsável pelo câncer, AIDS e terremotos. Se for permitido, como Sandel parece sugerir, interferir com as partes “ruins” da natureza, então parece que também é correto permitir a extensão de nossa vida e evitar certos aspectos do envelhecimento. (Kamm).
  1. Qual é a diferença relevante entre os pais que oferecem aulas para fortalecer as cordas vocais de seus filhos e fornecer uma droga ou manipulação genética que atinge o mesmo fim?

  1. Uma vez que os alunos tenham tido tempo para trabalhar com todos os argumentos, misture os alunos e forme novos grupos. Cada novo grupo deve incluir alunos que estudaram argumentos a favor e argumentos contra. Cada membro é responsável pela apresentação dos pontos mais importantes da discussão do grupo anterior ao novo grupo. No final dessa parte da atividade, cada estudante deve estar familiarizado com todos os argumentos.  
  2. Traga os alunos de volta para uma discussão com toda a turma, pedindo para que selecionem dos argumentos que consideraram mais convincentes.
  3. Para concluir esta lição, peça aos alunos que reflitam sobre algumas das questões levantadas durante o debate. Como deveriam abordar essas questões para chegar a uma solução?  Como trabalho de casa, pedir aos alunos que escrevam cartas à Comissão Presidencial para o Estudo de questões Bioéticas, esboçando suas reflexões sobre a questão. Quais recomendações gostariam de fazer para continuarmos desenvolvendo melhorias genéticas e para começar a tomar decisões sobre sua disponibilidade para os consumidores? Se eles tiverem dificuldades, você pode sugerir as seguintes considerações:
  1. Tratamento versus Melhoria;
  1. Mudanças feitas antes da criança nascer e mudanças feitas depois;
  1. Modificação genética versus fármacos que não alteram permanentemente o código genético.

Materiais Suplementares

Kass, L. Beyond therapy: Biotechnology and the pursuit of happiness. Washington, DC: President’s Council on Bioethics, 2003.

Hawthorne, N. The Birth-Mark, 1843.

Kamm, Frances. “Is There a Problem With Enhancement?” The American Journal of Bioethics 5.3 (2005): 5–14.

Whitaker, A. “Neoconservative Nathaniel: Bioethics and ‘The Birth-Mark’,” Retrieved February 9, 2015, from http://www.hawthorneinsalem.org/ScholarsForum/MMD2448.html.

This lesson was also inspired by John Arras and his presentation at the National Endowment for the Humanities (NEH) Summer Institute, Epic Questions: Mind, Meaning and Morality, and Courtney Campbell’s presentation at the 16th International Conference for Ethics across the Curriculum.

*This lesson plan was contributed by Allison Cohen, who currently teaches AP Government and a Philosophy elective at Langley High School in Virginia and is a member of the board of directors of PLATO (Philosophy Learning and Teaching Organization).

Este plano de aula, criado por Chris Freiler, faz parte de uma série de planos de aula publicados no livro Philosophy in Education: Questioning and Dialogue in Schools, by Jana Mohr Lone and Michael D. Burroughs (Rowman & Littlefield, 2016, p. 169-174).

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