3.2 Utilitarismo hedonista

Por Desiderio Murcho

Os utilitaristas clássicos, Bentham e Mill, são hedonistas no pleno sentido da palavra: defendem não só que o bem-estar consiste apenas em experiências aprazíveis (bem como na ausência de experiências dolorosas), mas também que tais experiências são boas apenas pelo simples facto de serem aprazíveis, e não por outra razão qualquer.

Segundo Bentham, cada um dos diversos prazeres e dores da vida das pessoas tem um certo valor que, em última análise, é determinado apenas por duas coisas: a sua duração e a sua intensidade. Um prazer é tanto melhor quanto maiores forem a sua intensidade e a sua duração. E as dores, claro, são tanto piores quanto maiores forem a sua intensidade e a sua duração. Por exemplo, estar no dentista durante vinte minutos não é tão mau como sofrer com dor dentes durante várias semanas. Assim, para promover o nosso bem-estar, temos de tentar obter um saldo tão favorável quanto possível. Isto leva-nos a fazer coisas como nos privarmos de certos prazeres (comer chocolate em excesso, por exemplo) para evitar sofrimento futuro (ter dor de dentes), ou sujeitarmo-nos a um certo sofrimento (ir ao dentista) para evitar um sofrimento ainda maior (continuar indefinidamente com dor de dentes).

Quando está em causa o bem-estar geral, os cálculos deste gênero deverão abranger imparcialmente todos os indivíduos sob consideração. Bentham tem então uma visão puramente quantitativa do bem-estar. Pressupõe que todos prazeres e dores são comensuráveis: determinamos a intensidade e a duração de um prazer (ou dor), multiplicamos uma pela outra e obtemos o valor desse prazer; depois fazemos o mesmo a outro prazer (ou dor) e por fim podemos compará-los para ver qual tem mais valor e agir em conformidade com o resultado. É claro que, na prática, não se pode fazer com rigor este tipo de cálculo da felicidade. E é provável que a dificuldade não seja meramente prática, pois talvez não faça sequer sentido comparar prazeres e dores desta maneira. Mas deixemos de parte esta questão delicada e concentremo-nos na ideia essencial de Bentham: a melhor vida é aquela que, depois de considerados todos os prazeres e dores que a constituem, apresenta o saldo mais positivo. E, além da intensidade e da duração, nada mais faz um prazer (ou uma dor) ser intrinsecamente melhor do que outro. Bentham afirmou mesmo que, em igualdade de circunstâncias, o prazer proporcionado por um jogo vulgar é tão bom como o prazer estético ou intelectual decorrente da apreciação da poesia.

Crítica ao hedonismo

Qualquer teoria hedonista baseia-se na ideia de que o nosso bem-estar é determinado apenas pelas experiências que vivemos. Uma vida boa não é mais que uma vida na qual predominam as experiências aprazíveis. Mas será que só as experiências que vivemos interessam? Para responder a esta questão, façamos uma  experiência mental:

O Dr. X acabou de inventar o mais avançado dispositivo de realidade virtual: a “máquina de experiências”. Esta máquina funciona assim: o seu utilizador fica imerso num tanque, completamente isolado do mundo real, com o cérebro ligado a um supercomputador que vai enviando continuamente estímulos que produzem as mais diversas experiências. Se nos ligarmos à máquina, poderemos ter a experiência de praticar surf, de conversar com um amigo, de comer fruta fresca ou de tocar piano; enfim, a máquina pode proporcionar-nos todas as experiências que as pessoas podem ter na vida real, e talvez até algumas, como a de voar ou atravessar paredes, com que hoje só podem sonhar. A máquina é tão sofisticada que, além de produzir experiências perfeitamente realistas, pode simular uma vida inteira com toda a coerência. O Dr. X propõe-nos que esqueçamos definitivamente a nossa vida real e nos liguemos à máquina. “Se te ligares”, nos assegura, “vou te proporcionar uma vida virtual extremamente rica em prazeres, uma vida em que conhecerá um sucesso ilimitado e não voltará a ter quaisquer dissabores. E enquanto estiver ligado nem sequer saberá que tudo o que está à tua volta – os teus familiares, o teu cão, aqueles que te aplaudem nos concertos – não passa de uma simulação feita por computador.

Se o hedonismo fosse verdadeiro, então, caso estivéssemos interessados em ter uma vida melhor, deveríamos nos ligarmos à máquina de experiências sem qualquer hesitação, pois assim a nossa vida seria muito mais rica em prazeres – até em prazeres superiores se, como Mill, entendermos que a qualidade dos prazeres é decisiva. Mas parece que há algo de repugnante na proposta do Dr. X. Aceitá-la não tornaria a nossa vida melhor, pois toda ela se transformaria numa grande farsa. Por isso, o hedonismo é falso. Este é o argumento da máquina de experiências. Sugere que não é verdade que uma vida seja boa apenas por causa das experiências aprazíveis que a preenchem. Como defende Robert Nozick (1938- -2002), o filósofo que inventou o exemplo da máquina de experiências, há outras coisas que contam na nossa vida além das experiências que temos.

Texto retirado do livro A arte de Pensar Filosofia 10° Ano, de Desiderio Murcho et. al.

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