José Carlos Rodrigues: o que é o homem?

O que é natural e o que é convencional? Símbolos e sinais.

Nesse território comum a todos os seres vivos – relações sociais e comunicação – quais seriam as características mais gerais e abrangentes da comunicação social? Que linhas demarcatórias definiriam o terreno próprio aos animais e plantas? Em relação a estas linhas fronteiriças, onde estaria situado o domínio próprio do Homem, também ser vivo, social e comunicante?

Uma primeira observação, já há muito registrada e reafirmada (mas merecendo as ponderações que adiante formularemos), emerge: os animais, e talvez as plantas, se comunicam por sinais organicamente programados. Dito de outro modo, faz parte da constituição biológica de determinados organismos que se comuniquem exatamente da maneira como o fazem, sendo a atividade comunicacional mera manifestação ou atualização do funcionamento fisiológico de um
organismo particular.

Essa primeira observação poderia ser ilustrada por um mecanismo conhecido como “impregnação”, mediante o qual patos, gansos, cisnes, cordeiros etc. seguem o primeiro ser semovente que veem ao nascer – por exemplo, um homem – como se fosse a mãe (que, pelas probabilidades naturais, seria normalmente a primeira a ser vista). Antes de nascer, estes animais estão, por assim dizer, “programados” a apreender certas informações, que em grande medida comandarão seu comportamento futuro. Em muitas ocasiões, pode-se comprovar em laboratório a programação orgânica: por exemplo, criando separadamente certo número de animais e verificando que ainda assim estes animais se entregam a comportamentos específicos extraordinariamente complexos (nidificação, corte à fêmea, resistência a adversários…), como os congêneres criados em liberdade.

Nenhum de nós, homens, está assim organicamente programado para a comunicação. Não está absolutamente dado por nossa estrutura orgânica que usemos o preto como expressão de luto, pois há congêneres nossos que preferem o branco para este fim. Que descubramos a cabeça ao entrar em um templo, nada tem de orgânico, pois faremos exatamente o contrário disso se formos mulheres católicas ou judeus do sexo masculino. Nada existe em nossa estrutura biológica que nos obrigue a evadir quando ouvirmos a palavra “fuja”, pois se formos chineses certamente permaneceremos no mesmo lugar ao ouvi-la.

Nossos símbolos, a cruz, a foice-e-o-martelo, a suástica, a rosa, a mão-fechada-com-o-polegar-levantado, o piscar-de-um-olho, a balança, o vermelho-verde-e-amarelo, as palavras… são socialmente programados, dependem de convenções estabelecidas entre os indivíduos que constituem o grupo. Ser humano algum está apto a participar da rede de comunicação formada por seus semelhantes pelo simples fato de ter nascido: ser-lhe-á necessário conviver com o grupo, introduzindo-se nele, embebendo-se dele.

A banal observação de recém-nascidos, de crianças em crescimento e de estrangeiros, é suficiente para nos certificar dessas constatações. Embora raros, existem ainda os casos de seres humanos que conseguiram sobreviver ao isolamento em relação à sociedade – os “meninos-lobos”, os “meninos-selvagens’” – e indivíduos que foram mantidos em cativeiro desde tenra idade: quase como em um laboratório “natural”, todos evidenciam o quanto de humano independe de programação orgânica, devendo-se à estrutura social mais que à constituição físico-química dos indivíduos, a símbolos convencionais mais que a sinais organicamente programados.

Além de organicamente programado, o comportamento baseado em sinais é geneticamente transmitido. Depende de uma espécie de programa genético, cuja execução deverá se desdobrar durante a vida do organismo, estabelecendo-se completamente quando o organismo estiver “maduro” e esgotando-se paulatinamente, à medida que o organismo vá vivendo (isto é, morrendo). Desse modo, o desempenho comunicacional de um animal dependeria de sua constituição genética, em primeiro lugar, e, em seguida, do estágio de maturação orgânica em que se encontre. Para emitir o seu piado de alarme, seria necessário ao pato selvagem uma certa herança genética que lhe oferecesse esta possibilidade, mas também um certo grau de maturação orgânica que lhe permitisse exercer esta possibilidade – grau este diferente daquele que simplesmente lhe consentiria receber os sinais.

Percebe-se de imediato que estes princípios, de um modo geral, não são os que vigoram no que respeita à comunicação humana. Utilizo a caveira para transmitir a ideia de perigo ou morte, o raio para me referir à energia elétrica, o sino para evocar a companhia telefônica, a lâmpada vermelha para evocar prostíbulos ou necessidade de me deter em um cruzamento, garfo e faca cruzados para sugerir restaurante, lágrimas para indicar tristeza – todos os símbolos, enfim, porque os adquiri de pessoas com quem convivo. Os símbolos (com as ressalvas adiante explicitadas) não dependem de minha constituição genética ou de minha maturação orgânica particular: a possibilidade de utilizá-los está submetida, antes, ao “amadurecimento social” dos indivíduos, a um adequado grau e tipo de socialização.

Texto retirado do livro Antropologia e Comunicação: princípios radicais.

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