Diógenes, o cínico, e a emancipação

Autor: Peter Sloterdijk

A falta de vergonha de Diogenes não se compreende à primeira vista. Se, por um lado, parece se explicar de uma maneira filosófico-natural, então seu centro de gravidade está no âmbito político, teórico-social. A vergonha constitui a mais íntima atadura social que nos liga, para além de todas as regras concretas da consciência e dos padrões gerais de comportamento. Não obstante, o filósofo que pensa sobre a vida não pode se contentar com os adestramentos sociais da vergonha. […]

O cínico deixam de lado as convenções que nos impõe através das prescrições da vergonha profundamente encarnadas […]. Com sua masturbação pública comete uma falta de vergonha com a qual se opõe a todo tipo de adestramento político. Esta falta de vergonha foi um ataque frontal a toda política familiar, a peça nuclear de qualquer conservadorismo. Dado que ele, tal como disse vergonhosamente a tradição, cantava com as próprias mãos sua canção nupcial, não sucombiu à necessidade de se casar para satisfazer suas necessidade sexuais. Diógenes ensinava de maneira prática a masturbação, entendida como progresso cultural, não como regresso ao animal. Segundo o sábio, se deve deixar viver inclusive o animal que há em cada um, na medida em que este é condição para o homem. O masturbador jocoso (“bem que poderia ser possível matar a fome esfregando a barriga”) rompe com a conservadora economia sexual sem realizar sacrifícios vitais. A independência sexual é uma das condições mais importantes para a emancipação.

Crítica de la razón cínica, versión española de Miguel Ángel Vega, Taurus, v. I, 1989, Madrid.

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