O amor segundo os Gregos

A cultura contemporânea do café desenvolveu um vocabulário sofisticado para descrever as muitas opções que temos para obter uma dose diária de cafeína – cappuccino, espresso, latte, americano, machiato, mocha. Os gregos antigos eram igualmente refinados na maneira como pensavam sobre o amor, distinguindo seis diferentes tipos. Isso é o oposto da abordagem atual, em que, sob um termo único e vago, englobamos uma enorme série de emoções, relacionamentos e ideias. Um menino adolescente declara “Estou amando”, mas é improvável que isso signifique a mesma coisa que um homem de sessenta anos ao dizer que ainda ama sua mulher depois de tantos anos juntos. Pronunciamos “Eu te amo” nos momentos românticos intensos, e somos capazes de encerrar um e-mail, sem pensar muito, com as palavras “Com muito amor”.

Os habitantes da Atenas clássica teriam ficado surpresos com a rudeza de nossa expressão. A linguagem que adotavam para falar do amor não só insuflava mexericos no mercado, como também lhes permitia pensar sobre o lugar do amor em suas vidas, de uma maneira que mal podemos compreender, com nossa linguagem amorosa empobrecida, que em termos de café é o equivalente emocional de uma caneca de instantâneo. Precisamos descobrir os seis tipos de amor conhecidos pelos gregos e considerar a possibilidade de torná-los parte de nossas conversas cotidianas. Ao fazê-lo, talvez sejamos capazes de encontrar relacionamentos que correspondam melhor a nossos gostos pessoais.

Eros

Todos nós já vimos cartões de Dia dos Namorados com pequenos cupidos rechonchudos esvoaçando aqui e ali, a disparar suas flechas em pessoas desavisadas que se veem instantaneamente apaixonadas uma pela outra. Cupido é a versão romana de Eros, o deus grego do amor e da fertilidade. Para os gregos antigos, eros era a ideia da paixão e do desejo sexual, e representava uma de suas mais importantes variedades de amor. Mas eros estava longe de ser o malandrinho brincalhão que hoje imaginamos. Ele era visto como uma forma perigosa, impetuosa e irracional de amor que podia se apossar de uma pessoa e dominá-la. “Desejo duplicado é amor, amor duplicado é loucura”, disse Pródico, filósofo do século V a.C.  Eros envolvia uma perda de controle que atemorizava os gregos, embora perder o controle seja precisamente o que muitos de nós procuramos hoje em nossos relacionamentos, acreditando que “se apaixonar loucamente” é a marca de uma união ideal.

Em textos antigos, eros está com frequência associado à homossexualidade, em especial o amor de homens mais velhos por adolescentes, prática corrente na Atenas dos séculos V e VI a.C., em meio à aristocracia. […] Mas eros não existia apenas em relacionamentos que envolviam homens. O estadista ateniense Péricles foi compelido por eros a abandonar sua mulher em favor da bela e brilhante Aspásia, que se tornou sua concubina, ao passo que a poeta Safo era renomada por suas odes eróticas a mulheres, inclusive aquelas de sua ilha natal de Lesbos (daí a palavra “lésbica”).  O poder de eros também aparecia em mitos gregos, nos quais as façanhas dos deuses promíscuos – em especial os de sexo masculino – são reveladoras das normas culturais da sociedade clássica. Zeus fazia enorme esforço para satisfazer suas paixões sexuais, transformando-se num cisne para seduzir Leda […] e numa nuvem para se insinuar junto a Io.  Até Polifemo, o ciclope bestial da Odisseia, sofreu em razão de seu eros não correspondido pela ninfa do mar Galateia, embora as palavras que tenha escolhido para lhe passar uma cantada não devam ter contribuído muito para melhorar a situação: “Branca Galateia, por que repeles meu amor? Ó, és mais branca aos meus olhos que leite coalhado… Mais lustrosa que uma uva verde!”  A evidência visualmente mais notável de eros na vida cotidiana aparecia nas obscenas “peças de sátiros” que se seguiam à encenação de tragédias durante os festivais teatrais da primavera em Atenas. Metade homem, metade bode, os sátiros faziam travessuras em cena com enormes falos eretos presos à cintura, apimentando suas falas com piadas lascivas. As dores associadas a eros podiam claramente ser mitigadas com leve alívio cômico.

Philia

A segunda variedade de amor, philia – em geral traduzida como “amizade” –, era considerada muito mais virtuosa que a desprezível sexualidade de eros. Filósofos como Aristóteles dedicaram considerável energia mental a dissecar as diferentes formas de philia. Havia a philia dentro da unidade familiar, por exemplo, a proximidade e afeição entre pai e filho, ou a intimidade profunda, mas não sexual, ser sentida entre irmãos ou primos ligados por laço de sangue. Uma versão utilitária de philia existia entre pessoas envolvidas em relações de dependência mútua, como sócios em negócios ou aliados políticos. Se uma pessoa deixava de ser útil para a outra, a philia podia facilmente sucumbir. Reconhecemos essas amizades instrumentais na vida contemporânea, por exemplo, quando pessoas fazem amizade com colegas de trabalho influentes porque isso as ajudará a subir na hierarquia da empresa.

A philia mais valorizada pelos gregos, porém, era a profunda amizade que se desenvolvia entre camaradas que haviam lutado lado a lado no campo de batalha. Esses irmãos de armas haviam testemunhado o sofrimento um do outro e muitas vezes arriscado a vida para salvar os companheiros de ser empalados por uma lança persa. Eles se consideravam iguais, e não só compartilhavam seus medos pessoais, como manifestavam extrema lealdade, ajudando-se mutuamente em tempos de necessidade, sem nada esperar em troca. O modelo para essa forma de philia foi a amizade entre Aquiles e Pátroclo – supostamente também amantes –, central no enredo da Ilíada de Homero. Quando Pátroclo morre em combate, Aquiles aflige-se sobre seu corpo, esfregando cinzas em si mesmo e jejuando, depois retorna à frente de batalha para vingar a morte do camarada.

[…]

Quanto amor “philial” você tem em sua vida? Essa é uma importante questão hoje, quando tantos se orgulham de ter centenas de “amigos” no Facebook ou “seguidores” no Twitter, façanhas que, desconfio, não teriam impressionado os gregos.

Ludos

Embora a philia pudesse ser um assunto de grande seriedade, havia um terceiro tipo de amor valorizado pelos gregos antigos: o amor brincalhão. Seguindo o poeta romano Ovídio, os estudiosos costumam usar a palavra latina ludus para descrever essa forma de amor, que diz respeito à afeição brincalhona entre crianças ou amantes fortuitos. Tendemos a associar a disposição brincalhona aos primeiros estágios de um relacionamento, em que o flerte, as provocações e os gracejos despreocupados são aspectos ritualísticos da corte. Essa abordagem lúdica do amor transformou-se numa forma de arte em meio à aristocracia na França no século XVIII. O amor era um jogo, cheio de cartas secretas, humor malicioso e excitante, encontros arriscados à meia-noite. Vemos ludus hoje quando jovens brincam de “Pera, uva ou maçã?”, o que fornece a perspectiva de um primeiro beijo. Nossos momentos lúdicos mais exuberantes costumam ter lugar na pista de dança, onde a proximidade física com os outros – muitas vezes desconhecidos – possibilita um embate sexualizado brincalhão que funciona como substituto do sexo.

Simplesmente sentar-se à volta de uma mesa num bar caçoando e rindo com os amigos é uma maneira de cultivar ludus. As normas sociais que desaprovam a frivolidade adulta permitiram a poucos de nós conservar a disposição brincalhona que tínhamos quando crianças, mas talvez seja exatamente disso que precisamos em nossos relacionamentos para escapar das inquietações cotidianas, alimentar nossos eus criativos e viver com mais leveza. Deixemos ludus tornar-se parte de nossa linguagem de amor.

[…]

Pragma

Os casamentos na Grécia Antiga raramente eram lúdicos. Em geral eram arranjados pelos pais; a mulher estava subordinada aos desejos do marido e esperava-se que permanecesse confinada dentro de casa. Apesar disso, os gregos conseguiram inventar uma quarta variedade de amor, chamada pragma, ou amor maduro, que designava a profunda compreensão que se desenvolvia entre casais com muitos anos de casados. Pragma tem a ver com a construção de um relacionamento ao longo do tempo, cedendo quando necessário, mostrando paciência e tolerância, e sendo realístico em relação ao que se deveria esperar do parceiro. Ele envolve apoio às diferentes necessidades um do outro e manutenção da estabilidade doméstica, de modo que os filhos cresçam numa atmosfera propícia a seu desenvolvimento, e os negócios financeiros da família estejam seguros. Acima de tudo, pragma é uma questão de estar comprometido com a outra pessoa e de fazer um esforço em seu favor no relacionamento, de modo a transformar o amor num ato de mútua reciprocidade. Nos anos 1950, o psicólogo Erich Fromm estabeleceu uma distinção entre “enamorar-se” e “permanecer enamorado”: segundo ele, despendemos energia demais no ato de nos enamorar, e deveríamos nos concentrar mais na manutenção do enamoramento, que é sobretudo uma questão de dar amor, não de recebê-lo. Pragma está no cerne dessa ideia de permanecer enamorado. Hoje, com cerca da metade dos casamentos nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha terminando em divórcio, a antiga noção grega de amor maduro nos é urgentemente necessária para que possamos reviver a perspectiva de relacionamentos para a vida toda.

Agape

Enquanto pragma exigia a doação ao parceiro, agape, ou o amor altruísta, era uma ideia muito mais radical. Tratava-se de um antigo amor grego definido pela falta de exclusividade: ele devia ser estendido desinteressadamente a todos os seres humanos, quer fossem membros de nossa família, quer fosse um estrangeiro de uma cidade-Estado distante. Era um amor oferecido sem obrigação ou expectativa de reciprocidade – um amor transcendente baseado na solidariedade humana. Agape tornou-se um dos conceitos centrais do pensamento cristão, e era a palavra usada pelos cristãos primitivos para descrever o amor divino de Deus pelo homem, amor que se esperava que os crentes retribuíssem tanto a Deus quanto aos outros seres humanos. Ele pode ser encontrado por toda parte nos Evangelhos, por exemplo, no mandamento de Jesus: “Ama [agape] teu próximo como a ti mesmo.” Mais tarde agape foi traduzido pela palavra latina caritas, base de nossa palavra “caridade’”; em seus escritos, o pensador e escritor para crianças do século XX C.S. Lewis sustenta que agape, ou caridade – que alguns chamam de “amor doação” –, é a mais elevada forma de amor cristão.

[…] O poder e a beleza de amores inclusivos como agape é que eles ajudam a contrabalançar nosso esmagador desejo de ser amados, pedindo-nos, em vez disso, para nos lançarmos a uma generosidade de espírito afirmadora da vida. Infelizmente, até agora ninguém inventou o speed dating de agape para ajudar a criar um movimento aleatório de bondade, nem encontramos anúncios pessoais oferecendo agape nos jornais. Ainda assim, é possível desempenhar com facilidade atos de agape, como pagar o pedágio do desconhecido que dirige o carro que vem atrás do nosso.

Philautia

Um último amor conhecido pelos gregos era philautia, ou amor-próprio, que à primeira vista parece o oposto de agape – um rival que o destruiria. Os sábios gregos, no entanto, percebiam que ele se manifestava sob duas formas. Havia um tipo negativo de amor-próprio, um desejo ardente e egoísta de obter prazeres pessoais, dinheiro e honrarias públicas muito além da cota justa. Seus perigos foram revelados no mito de Narciso, o irresistível jovem que se apaixonou pelo próprio reflexo num lago e, incapaz de se afastar, pereceu ali de inanição. A má reputação do amor-próprio persistiu no pensamento ocidental: no século XVI, o teólogo francês João Calvino descreveu-o como uma “peste”, ao passo que Freud o via como um redirecionamento patológico da nossa libido para nós mesmos, tornando-nos incapazes de amar os outros.

Por sorte, Aristóteles havia reconhecido uma versão mais positiva do amor-próprio, que intensificava nossa capacidade de amor. “Todos os sentimentos amistosos pelos outros”, escreveu ele, “são extensões dos sentimentos de um homem por si mesmo.” A mensagem era que, quando gostamos de nós e nos sentimos seguros de nós mesmos, temos amor em abundância para dar. De maneira semelhante, se sabemos o que nos faz felizes, estaremos em melhores condições para estender essa felicidade aos que nos cercam. Se, por outro lado, estamos em desconforto com o que somos, ou alimentamos alguma aversão por nós mesmos, teremos pouco amor a oferecer aos outros. Ao que parece, deveríamos aprender a amar a nós mesmos de uma maneira que não se transforme num sentimento arrebatador de obsessão por nós. Isso significa, no mínimo, aceitar nossas imperfeições e reconhecer humildemente nossos talentos individuais, em vez de sempre olhar para nossos defeitos e inadequações.

[…]

Uma das questões universais da vida emocional sempre foi: “O que é o amor?” Creio que essa é uma pergunta enganosa, que nos enredou em confusões inúteis na tentativa de identificar alguma essência definitiva do “verdadeiro amor”. A lição da Grécia Antiga é que a pergunta que devemos fazer a nós mesmos é outra: “Como posso cultivar as diferentes variedades de amor em minha vida?” Esta é a questão suprema do amor que hoje enfrentamos.

O texto acima foi retirado do livro Sobre a Arte de Viver: lições da história para uma vida melhor, de Roman Krznaric.

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