Argumento de autoridade

Raramente podemos nos apoiar na experiência pessoal para argumentar em favor de qualquer ideia que seja. Em vez disso, temos que confiar no que outras pessoas disseram. Ao comprar um telefone, por exemplo, de uma marca que é não conhecemos ainda, temos que confiar na avaliação de outros consumidores. Para sabermos o que aconteceu em 1964, temos que acreditar no relato de pessoas que viveram nessa época. Ou, ainda, para sabermos como é viver em Cuba (pelo menos a maioria de nós) temos que ouvir o relato de pessoas sobre isso. 

Argumentos que usam relatos de terceiros para estabelecer uma conclusão têm a seguinte forma:

Y (uma pessoa determinada ou organização que tem autoridade no assunto) disse X.

Logo, X é verdade.

Um exemplo de argumento com essa forma:

O médico disse que estou desenvolvendo doenças respiratórias por causa do cigarro.

Portanto, deve ser verdade que o cigarro está me deixando doente.

Argumentos que possuem essa forma são chamados de argumentos de autoridade. Muito do conhecimento que temos do mundo, informações que conhecemos através da televisão, rádio, internet, livros tem esse formato: sabemos de algo porque alguém (que é uma autoridade no assunto) disse. Não temos condições de avaliar tudo com nossos próprios olhos, por isso temos que confiar, em muitas situações, em pessoas que dominam um tema.

Porém, isso nos faz cometer vários erros. Por isso é importante saber diferenciar o que é uma autoridade que merece confiança e uma autoridade que não merece essa confiança. Para fazer isso podemos, sempre que nos deparamos com um argumento de autoridade,  considerar alguns aspectos importantes para avaliar se é um bom argumento ou não.

 

As fontes estão informadas?

Um primeiro aspecto a ser observado em um argumento de autoridade é se as fontes estão informadas sobre o que falam.

Imagine o seguinte diálogo:

– Nossa, essa crise econômica está deixando todo mundo pessimista com o país e o futuro.

– É verdade, isso está acontecendo. Mas não deveria, porque haverá um crescimento de 4% do PIB brasileiro no próximo ano.

– Você deve estar brincando?! Como isso vai ser possível com o país nessa situação. Acho que teremos mais alguns anos de recessão ainda.

– Li hoje um artigo hoje sobre um relatório divulgado pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) onde afirma que haverá um crescimento de 2% do PIB no próximo ano.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) é uma instituição responsável por elaborar projeções dessa natureza. Portanto é uma autoridade sobre o tema.

Agora, imagine que na última frase do diálogo acima um dos interlocutores tivesse citado, não o FMI, mas simplesmente dito:

– Li hoje um artigo no jornal onde afirma que haverá um crescimento de 2% do PIB no próximo ano.

Nesse caso, não temos um bom argumento de autoridade, porque não é possível saber qual a fonte da informação para avaliar se ela está ou não informada. Sequer sabemos de qual jornal se trata.

Uma fonte qualificada não necessariamente é uma “autoridade” no sentido comum do termo. Considere os seguintes exemplos.

O diretor do Colégio Protásio Alves disse a pais e jornalistas que as aulas naquela
escola promovem uma troca de ideias viva e livre. Logo, as aulas no Colégio promovem uma troca de ideias viva e livre.

Compare agora esse exemplo com o próximo.

Uma sondagem realizada ao longo dos três últimos anos a todos os alunos do Colégio Protásio Alves revela que apenas 5% dos alunos responderam “sim” quando interrogados sobre se as aulas naquele colégio promoviam uma troca de ideias viva e livre. Logo, as aulas no Colégio Protásio Alves raramente promovem uma troca de ideias viva e livre.

Qual dos exemplos anteriores é o argumento de autoridade com mais credibilidade? Certamente é o segundo, já que, nesse caso, os estudantes estão melhor informados do que o diretor a respeito do que ocorre dentro da sala de aula.

Portanto, é sempre importante, para avaliar um argumento de autoridade apresentado, perguntar se a fonte está informada sobre o que fala.

As fontes são imparciais?

Quando as pessoas têm alguma coisa a ganhar ou a perder em relação à um assunto, geralmente elas não são mais qualificadas como fonte de informação sobre esse assunto. Um bom exemplo disso é a disputa entre o sindicado dos professores, por exemplo, e o governo sobre se o estado tem condições pagar os salários em dia. O sindicato afirma que o governo tem dinheiro, o governo afirma que não. Nesse caso, nem um nem outro é uma fonte adequada de informação, porque dificilmente estão sendo imparciais. O que defendem certamente está sendo influenciado por essa disputa e por interesses que não na verdade.

Uma fonte imparcial é aquela que não tem nada a perder ou ganhar com a verdade de uma informação.

Considere os exemplos abaixo:

1) A Samsung afirmou que a ateria de seu novo modelo de smartphone dura 48 horas com uso intendo de internet. Portando, a bateria de seu novo smartphone dura 48 horas com uso intenso de internet.

2) O site Tecmundo avaliou a duração da bateria do novo modelo de smartphone da Samsung e descobriu que a bateria dura 30 horas com uso intenso de internet. Portanto, a bateria do novo smartphone da Samsung dura 30 horas com uso intenso de internet.

Comparando os dois exemplos, qual a fonte de informação mais imparcial? A própria Samsung ou o site Tecmundo? Nesse caso, o site tem certa vantagem em relação à Samsung, já que não tem nada a perder ou ganhar com a informação.

Compare as fontes

Antes de citar qualquer especialista ou organização, compare com outras fontes e veja se elas concordam em grande medida. Não faz sentido usar como autoridade uma fonte quando existem centenas de outras que discordam completamente.

Considere os seguintes exemplos (fictícios):

1) Uma pesquisa realizada por pesquisadores da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, mostrou que, naquele país, a pena de morte contribui para reduzir a violência nos estados em que essa penalidade é adotada. Logo, a pena de morte contribui para a redução da violência.

2) Uma pesquisa realizada por pesquisadores da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, mostrou que, naquele país, a pena de morte não contribui para reduzir a violência nos estados em que essa penalidade é adotada. Logo, a pena de morte não contribui para a redução da violência.

Diante de duas fontes contraditórias como essa, não faz sentido usar a autoridade de uma ou outra para estabelecer uma conclusão num assunto que não existe consenso entre especialistas. Nesse caso, o adequado é fazer uma pesquisa ainda mais ampla é verificar se pelo menos a maioria das pesquisas concordam com um dos lados do debate. Caso persista desacordo completo, o correto é reconhecer que não há informação suficiente para adotar um lado em detrimento de outro e, como fazem alguns filósofos, suspender o juízo.

Referência

Anthony Weston. A Arte de Argumentar. Gradiva: Lisboa, 1998.