Diálogo socrático: como conversar filosoficamente sobre temas cotidianos?

29 de setembro de 2021 - 11 min leitura

No Brasil, ainda existe entre algumas pessoas a compreensão de que não existe racismo ou, ao contrário, que também existe o chamado “racismo reverso”. 

No ano de 2020, por exemplo, depois da morte brutal de um homem negro em um supermercado em Porto Alegre, algumas autoridades deram declarações negando qualquer relação entre o crime e motivações raciais sob a consideração de que no Brasil não existe racismo.1

Mais recentemente, a ex- Big Brother Carla Díaz, uma mulher branca, foi surpreendida por um policial da Delegacia de Crimes Raciais para prestar esclarecimento em um inquérito em que foi colocada como vítima de preconceito racial.2

Diante desses casos, é possível perguntar: afinal, existe ou não racismo? Faz sentido falar em racismo reverso? E como podemos conversar filosoficamente sobre questões como essas?

Um diálogo socrático

Ninguém aprende a filosofar do nada, sem ter alguns modelos em mente. Então, antes de conversarmos filosoficamente sobre essas questões, vale a pena ver como os filósofos fazem isso.

Não há ninguém melhor que Sócrates, filósofo grego que viveu entre 471 a. C. e 399 a. C.,  para servir de exemplo nesse caso. Para Sócrates, a filosofia estava presente no diálogo com as pessoas, motivo pelo qual não escreveu nada. Para nossa sorte, seu jeito de pensar impressionou muitos gregos, tanto que eles se deram ao trabalho de registrar algumas conversas do filósofo e podemos aprender com ele hoje.

Uma dessas conversas foi registrada por Platão, filósofo e aluno de Sócrates, em um livro chamado Laques. Ao longo do diálogo, dois generais ilustres, Nícias e Laques, se revezam na tentativa de definir a natureza da coragem enquanto Sócrates media a conversa e questiona. 

Os estudiosos chamam esse jeito de conversar de Sócrates de método socrático. Um método é uma forma organizada de fazer determinada coisa. É possível reconhecer nele uma estrutura, uma sequência de passos para chegar a um objetivo.

No caso do método socrático, podemos identificar três passos:

Passo 1 –  Identificar uma questão filosófica numa conversa cotidiana. Como Sócrates se dedicava à ética, as questões filosóficas que lhe interessavam diziam respeito à forma do ser humano agir. O que significa ser justo? Ou corajoso? O que é o amor? Todas essas são típicas questões em um diálogo socrático.

Passo 2 –  Propor uma definição para o conceito analisado e avaliar em que medida a definição é satisfatória ou não. 

Passo 3 –  Encerrar o diálogo no momento em -+que uma definição satisfatória for encontrada ou, o que é geralmente o caso, quando as definições avaliadas se mostrarem todas insatisfatórias. Nesse caso, cabe aos interlocutores reconhecerem sua ignorância, ou seja, que não sabem realmente o assunto, e continuar estudando mais para em outro momento talvez encontrar uma definição adequada, verdadeira.

Como identificar a questão filosófica?

A conversa filosófica retratada por Platão no Laques surge a partir de um assunto um tanto distante. 

A conversa inicia com dois pais se aconselhando com Laques e Nícias sobre a hoplomaquia — um combate simulado entre gladiadores com armadura. Ambos divergem sobre sua utilidade. Sócrates é convidado para desempatar o debate, mas leva a conversa para um outro tema.

No fundo, observa Sócrates, o que os pais querem saber é como educar bem seus filhos, ou seja, como torná-los virtuosos. Para isso, é necessário saber o que é a virtude. Mas como esse é um tema muito amplo, Sócrates julga mais apropriado discutir um aspecto da virtude que está relacionado à hoplomaquia: a coragem. Uma das virtudes fundamentais de um guerreiro é a coragem.

Esse é um passo fundamental do diálogo socrático. A discussão filosófica começa quando Sócrates reconhece, numa conversa cotidiana, que conceitos fundamentais estão sendo pressupostos sem um esclarecimento sobre seu significado.

Se estudar hoplomaquia deixa ou não os jovens corajosos não é uma questão para o filósofo, mas para professores especialistas na formação de guerreiros. No entanto, a questão mais geral, “o que é a coragem?”,  é uma questão filosófica. Ela não diz respeito apenas à ser corajoso na guerra ou na luta, mas em uma infinidade de situações: para um estudante apresentar um trabalho em público pode envolver um ato de coragem; para um bombeiro, salvar uma pessoa em um prédio em chamas; para um marinheiro, enfrentar uma tempestade; para um guerreiro, enfrentar um inimigo. Em todos esses casos temos atos de coragem. Mas afinal, o que é a coragem?

Como avaliar diferentes definições?

Depois que Sócrates direciona a conversa para a questão “o que é a coragem?”, Laques, um guerreiro, apresenta seu conceito: “homem de coragem é o que se decide a não abandonar seu posto no campo de batalha, a fazer face ao inimigo e a não fugir”3

Seria isso a coragem? Não abandonar o campo de batalha quando nos deparamos com o inimigo? Uma forma de saber se a definição é adequada é perguntar se não existem formas de ser corajoso que não envolve permanecer no campo de batalha. 

Depois de uma rápida análise, Sócrates identifica uma série de situações como essa. Diz ele:

“Foi por isso que eu disse há pouco que era minha a culpa de não me haveres respondido certo, por eu não ter sabido formular a pergunta. Porque não queria que me dissesses apenas quem é corajoso na infantaria, mas também na cavalaria e em tudo o que for pertinente à guerra, e não apenas na guerra, como também nos perigos do mar, quem revela coragem nas doenças, na pobreza, nos negócios públicos […] Há também, Laques, quem revela coragem nessas situações.”4

Para entender melhor o problema identificado por Sócrates, podemos pensar em conceitos como caixas para classificar objetos. Imagine que você pretende se mudar e organiza seus objetos em caixas com rótulos. Em uma caixa você escreve “objetos de vidro”, em outra, “coisas que podem ser comidas”. Dentro da primeira você irá colocar pratos, copos, mas não toalhas ou livros; na segunda, coisas como feijão, arroz, mas não sabão em pó, amaciante ou veneno para rato.

A definição de Laques  é como um rótulo para a caixa da coragem. Ela deve especificar de forma adequada a coragem para que coisas que são exemplos de coragem não fiquem de fora e coisas que não são exemplos de coragem não entrem. Se a definição não estabelecer de forma apropriada os critérios para o que pode ou não ser colocado na caixa, isso irá acontecer. 

O problema do conceito de coragem de Laques é que ele faz as duas coisas: exclui e inclui na caixa da coragem coisas que não deveria. 

Por um lado, dizer que coragem é não abandonar o campo de batalha restringe demais o conceito de coragem e exclui, como observa Sócrates, situações em que somos corajosos fora do campo de batalha. Um exemplo é o marinheiro que mantém a calma durante uma tempestade que ameaça o navio e consegue tomar decisões adequadas sob pressão. Ao invés de deixar o medo tomar conta de seus pensamentos, é corajoso e faz seu melhor. 

Por outro lado, permite que coisas que não são exemplos de comportamentos corajosos entrem na caixa da coragem. Uma pessoa que, sozinha no campo de batalha, não foge e enfrenta mil inimigos, não está sendo corajosa, mas imprudente, temerária ou até mesmo louca. 

A conversa entre Sócrates e Laques segue na análise de novas definições. Mas nesse ponto devemos parar para reter uma lição fundamental do diálogo socrático: ao propor definições, elas não podem ser nem muito amplas, nem muito estreitas. Para testar se isso acontece, podemos seguir o exemplo de Sócrates e considerar diferentes situações nas quais aplicamos o conceito e ver se elas não ficariam de fora da caixa ou, ao contrário, pensar em situações que entraram na caixa e avaliar se realmente deveriam estar ali.

Como encerrar a conversa?

Na sequência do diálogo, Laques reconhece as limitações de sua primeira definição e propõe uma nova: 

“Se tivesse de referir-me à coragem presente a todas essas situações, diria que é uma espécie de perseverança da alma5

Será a coragem “uma espécie de perseverança da alma”? 

Sócrates analisa junto com Laques essa nova definição e acabam concluindo que também não é satisfatória. Em seguida, entra na conversa Nícias, oferecendo uma nova definição. Depois de alguma discussão os três acabam reconhecendo que nenhuma das definições que conseguiram pensar é apropriada. 

O que fazer nesse caso? 

Sócrates não tinha vergonha de dizer que não sabia. Uma frase que expressava sua relação com o conhecimento é “sei que nada sei”. Tal frase revela uma ignorância, mas uma ignorância que é, ao mesmo tempo, uma sabedoria, um conhecimento. Nícia e Laques, antes de conversar com Sócrates, acreditavam saber o que era a coragem. Sócrates, ao contrário, sabia que não sabia o que era a coragem. Ter conhecimento da própria ignorância o tornava mais sábio que seus interlocutores. 

Muitas conversas com Sócrates retratadas em diálogos platônicos acabam no que os estudiosos de seu pensamento chamam de aporia, palavra grega que significa “caminho sem saída”, “dificuldade”. Chega a um ponto da conversa em que os interlocutores de Sócrates percebem que não têm uma definição adequada, como pensavam inicialmente, e aceitam que precisam fazer novas investigações em outro momento. 

Reconhecer que não se sabe o que se acreditava saber e buscar conhecimento é uma boa forma de encerrar um diálogo socrático. De fato, essas são as palavras finais de Sócrates no diálogo 

“Sou de opinião, amigos […] que nós quatro precisamos procurar, cada um para si mesmo, com o maior empenho, o melhor professor possível […] sem olharmos despesas ou o que quer que seja. O que não aconselho é ficarmos como estamos. E se alguém zombar de nós, por irmos à escola na idade em que estamos, amparar-nos-emos na autoridade de Homero, quando afirma que a vergonha é ruim companheira de quem necessita. E sem concedermos a mínima atenção ao que possam falar, cuidemos, a um tempo, com todo o empenho, da nossa educação.”6

Como conversar filosoficamente sobre temas cotidianos?

Mas afinal, voltando às questões com as quais iniciamos esse texto, existe ou não racismo? Faz sentido falar em racismo reverso? O que Sócrates faria diante dessas discussões?

Certamente nos questionaria sobre o significado do conceito que aparece nas duas questões: o que é racismo? Qualquer discussão filosófica, se seguimos o exemplo de Sócrates pelo menos, deveria começar aí.

O que você pensa? O que deveria ser incluído na caixa do racismo? O que não deveria ser incluído nela? Quais os critérios?

Referência

Platão. Box Grandes Obras de Platão (23 diálogos: A República, Fédon, O Banquete, Górgias, Apologia de Sócrates…). Mimética. Edição do Kindle.

Notas
  1. https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/11/20/mourao-lamenta-assassinato-de-homem-negro-em-mercado-mas-diz-que-no-brasil-nao-existe-racismo.ghtml[]
  2. https://www.correiobraziliense.com.br/diversao-e-arte/2021/04/4917087-carla-diaz-e-surpreendida-por-inquerito-em-que-e-vitima-de-preconceito-racial.html[]
  3. Platão. Box Grandes Obras de Platão (23 diálogos: A República, Fédon, O Banquete, Górgias, Apologia de Sócrates…) . Mimética. Edição do Kindle. Posição 24436.[]
  4. Platão. Box Grandes Obras de Platão (23 diálogos: A República, Fédon, O Banquete, Górgias, Apologia de Sócrates…) . Mimética. Edição do Kindle. Posição 24479.[]
  5. Platão. Box Grandes Obras de Platão (23 diálogos: A República, Fédon, O Banquete, Górgias, Apologia de Sócrates…) . Mimética. Edição do Kindle. Posição 24494.[]
  6. Platão. Box Grandes Obras de Platão (23 diálogos: A República, Fédon, O Banquete, Górgias, Apologia de Sócrates…) . Mimética. Edição do Kindle. Posição 24873.[]

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