Filósofos pré-socráticos

Os primeiros filósofos

Os primeiros filósofos são conhecidos, na história da filosofia, como filósofos da natureza, físicos, naturalistas ou pré-socráticos. A razão para serem chamados assim é o fato de terem se dedicado a compreender e explicar a natureza (physis), o mundo, o universo, todas as coisas. A pergunta básica que todos se colocaram é “de onde vem todas as coisas?”

Já a expressão pré-socrático significa “anterior à Sócrates”. Os filósofos da natureza viveram no século VII e VI a.C. , já Sócrates nasceu no século IV a.C. Essa é a razão para tal denominação.

A área de estudo desses filósofos é chamada, dentro da filosofia, de cosmologia. Essa é uma palavra formada por cosmos e logia, que significa estudo do cosmos. Cosmos é um conceito grego para universo, o conjunto de todas as coisas. Remete à ideia de ordem, harmonia. Observe como a natureza é ordenada, harmoniosa. A sequência das estações, movimentos de migração de pássaros, as marés todos esses são fenômenos que manifestam uma certa organização. O resultado disso, para os gregos, era um universo harmonioso e belo. A palavra “cosmético” tem relação com essa ideia inicial de cosmos, como algo que é belo.

Tales de Mileto (624-546 a.c.)

Tales nasceu no século VII, em Mileto, uma cidade grega, e é considerado o primeiro filósofo, porque foi o primeiro a propor uma explicação racional e naturalista para a origem e funcionamento de todas as coisas.  A questão que Tales colocou é “qual o princípio de todas as coisas”.

Tales de Mileto

Antes de conhecermos o pensamento de Tales, é importante entender um aspecto metodológico do estudo da filosofia. Muitas vezes encontramos palavras na filosofia, como a palavra “princípio”, cujo significado já conhecemos. Porém, elas têm, na filosofia, um significado um pouco diferente daquele encontrado na linguagem comum.

Na linguagem comum, princípio significa “o primeiro momento da existência (de algo), ou de uma ação ou processo; começo, início”. No pensamento dos filósofos da natureza, essa palavra, além disso, significa o fim último de todas as coisas e aquilo que as sustenta. É aquilo que permanece sem mudança nas transformações pelas quais passa a natureza.

Para entender o conceito de princípio, é útil uma analogia. Imagine que um filósofo da natureza perguntasse qual é o princípio de uma garrafa pet, por exemplo. Com essa pergunta, ele estaria querendo saber o elemento básico a partir do qual ela é formada, que sustenta sua existência e no que ela se transforma quando deixar de existir. Nesse caso, o princípio é um elemento químico associado ao petróleo. É a partir dele que a garrafa é gerada e, caso seja derretida, é nele que ela irá se transformar.

Tudo surge da água

O que Tales pretendia, portanto, ao perguntar qual o princípio de todas as coisas era algo análogo. Buscava um elemento fundamental do qual todas as coisas se originam e no qual todas se tornam no momento que deixam de existir. E qual sua resposta? Para Tales, esse elemento era a água. Ou seja, esse filósofo acreditava que todas as coisas eram geradas a partir da água.

Não restou nenhum texto escrito por Tales, de modo que não sabemos ao certo porque ele acreditava que a água era o princípio de todas as coisas. Alguns interpretes posteriores fizeram algumas suposições para explicar essa concepção.

Uma delas é a versatilidade da água. Esse elemento pode passar por mudanças, como evaporação e condensação, se tornar líquida, sólida ou gasosa e, apesar de todas essas transformações de estado, ela permanece sempre a mesma substância. Ora, é justamente isso que precisa um elemento básico: que permaneça inalterado mesmo com as transformações pelas quais passa aquilo que compõe.  Além disso, está presente nas mais diferentes coisas da natureza. Ela é essencial para as plantas e animais. Tales pensava inclusive que a terra flutuava sobre a água.

Outros filósofos pré-socráticos

Tales foi o iniciador da escola de Mileto. Seus discípulos deram continuidade as suas investigações, mas chegaram a conclusões diferentes. Anaximandro e Anxímenes, defendiam que o elemento primordial da natureza era, respectivamente, o apeirom e o ar.

As questões cosmológicas estiveram presentes no pensamento grego por um longo período. Uma das contribuições mais conhecidas à essa discussão talvez tenha sido feita por Demócrito (460-371 a.c.). Segundo esse filósofo, “nada existe, exceto átomos e o espaço vazio.” Ele acreditava que a realidade era formada por pequenas partículas indivisíveis, chamadas por ele de átomos, que em grego significa simplesmente não-divisível. As diferentes coisas existentes no cosmos eram formadas por diferentes combinações dessas partículas minúsculas.

O que há de novo nas ideias dos pré-socráticos

Os filósofos não foram os primeiros a se perguntar qual a origem das coisas e tentar compreender os fenômenos da natureza. Antes de Tales e seus sucessores, esse papel cabia ao pensamento mitológico.  Mitos de diferentes tipos explicavam a origem do mundo, os processos observados na natureza, o lugar ocupado pelo homem no conjunto do cosmos e muitas outras questões.

Mitos geralmente fazem parte da tradição oral de uma cultura, mas conhecemos muito da mitologia Grega graças aos trabalhos de Homero e Hesíodo. O primeiro é autor da Ilíada e da Odisseia. O segundo, escreveu Os trabalhos e os dias e Teogonia. No último, narra a formação da terra e dos deuses.

Para compreender melhor a diferença entre o pensamento filosófico nascente e a mentalidade mitológica, considere o seguinte exemplo de explicação da mudança nas estações do ano.

Exemplo de um mito

Com a finalidade de entender a diferença entre as estações do ano, existia a lenda de “Deméter” (deusa do interior da terra, ligada à fertilidade do solo) e sua filha “Perséfone”. Contava-se que Hades (deus do mundo subterrâneo, “inferno”), buscando encontrar uma esposa, decidiu raptar Perséfone. Foi então que, Deméter, mãe de Perséfone, saiu a sua procura tanto no Olimpo (morada dos deuses) quanto na Terra.

Por não encontrar sua filha, Deméter ficou preocupada, irada e muito triste. Tais sentimentos causaram uma seca prolongada, já que ela era a deusa da fertilidade do solo. Para tentar acalmá-la, Zeus (deus dos deuses) resolveu intervir e fez um trato com seu irmão Hades: Perséfone teria que passar seis meses do ano ao lado de Hades no mundo subterrâneo, e os outros seis ela estaria “liberada” para passar ao lado da mãe.

Isso, para os gregos, explicaria a origem do inverno. Esse seria o período em que Perséfone estaria ao lado de Hades e sua mãe muito triste. Por outro lado, os seis meses de fertilidade e flores (primavera e verão) seria o tempo em que a moça passaria ao lado de sua mãe.

Comparação entre mito e filosofia

Observe que o mito recorre à fantasia e à imaginação para explicar como se dá uma mudança nas estações do ano. Os primeiros filósofos, seguindo a tradição iniciada por Tales, procuraram fazer uso da razão e da observação para explicar fenômenos como esse. É verdade que a tentativa de Tales não foi muito bem-sucedida. Avaliando hoje a afirmação de que “tudo é formado de água” certamente diremos: “isso não explica muita coisa”. Mas não é sua resposta que faz com que seja o criador de uma nova maneira de pensar. Isso se deve à maneira como abordou o problema.

Além de dar início a uma abordagem racional e naturalista para os problemas da natureza, Tales também iniciou uma tradição de pensamento que incentiva a crítica e a modificação de ideias antigas. Qualquer religião ou mitologia é em alguma medida conservadora, se opõe à inovações, à mudanças em suas ideias. A filosofia, por outro lado, desde seu início foi favorável a isso. Os integrantes da escola iniciada por Tales, Anaximandro e Anaxímenes, propuseram respostas totalmente diferentes da do mestre. Algo que foi feito também pelos demais pré-socráticos.

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