Será a eutanásia moralmente aceitável?

Por Ekaterina Kucheruk

A fim de poder responder à questão anterior é necessário fazer a distinção entre os vários tipos de eutanásia, sendo que existe eutanásia voluntária, involuntária e não voluntária, podendo estas ser, por sua vez, activas e passivas.

Vou falar apenas da eutanásia voluntária activa. Na eutanásia voluntária é o sujeito sobre o qual recai a acção que decide morrer, pedindo que o ajudem realizar o seu desejo. A eutanásia voluntária activa distingue-se da passiva pelo facto de na activa haver uma componente de acção directa por parte dum agente, cujo efeito inevitável é a morte do doente que a solicita, enquanto na eutanásia passiva a morte não é uma consequência directa de uma qualquer acção, mas de uma omissão, como acontece quando o médico deixa de administrar os tratamentos necessários à preservação da vida.

Na minha opinião, a eutanásia activa é moralmente aceitável. Deixar morrer um doente com um prognóstico fatal independentemente da intervenção médica é o mesmo que acelerar esse processo irreversível, aplicando a eutanásia, pois em ambas as situações o resultado é a morte do sujeito, com a diferença de que ao acelerar esse fenómeno é minimizado o sofrimento físico e psicológico da pessoa, além de que se estará a poupar recursos que poderiam salvar a vida a outras pessoas que tenham efectivamente a possibilidade de reverter o seu prognóstico.

Se a eutanásia passiva é, como muitos pensam, moralmente aceitável, também o é a activa porque quando podemos impedir a morte, ainda que não tenhamos provocado a circunstância causadora da morte, estamos colocados na posição em que a nossa acção vai ditar a vida ou a morte da pessoa. Por exemplo, à semelhança dum médico que é responsável pela vida dos doentes e obrigado a fazer tudo o que lhe for humanamente possível para a preservar, uma mãe que falte intencionalmente à sua obrigação de alimentar a sua criança, deixando-a morrer à fome, pode ser incriminada pela morte da mesma. Esse exemplo demonstra a equivalência dos conceitos matar e deixar morrer. Se a eutanásia passiva corresponde a deixar morrer e a activa implica matar, então podemos afirmar que não são diferentes e se uma é aceitável, a outra também o é. Muitas vezes se deixarmos morrer uma pessoa segundo a evolução natural da sua condição orgânica, isso vai provocar um grande sofrimento, enquanto se nós praticarmos a eutanásia, a pessoa vai ter uma morte menos dolorosa. Se um animal está a morrer, nós somos solidários com este ser vivo, ajudando-o a ter uma morte boa e acho que o ser humano também merece isto.

Há, contudo, quem defenda que o princípio orientador da evolução e organizador das nossas defesas e reflexos fisiológicos, tanto conscientes como inconscientes é a sobrevivência. Nesta perspectiva, a eutanásia pode ser encarada como um fenómeno contra a nossa natureza. Mas se isso fosse verdade, nenhuma pessoa deveria poder fumar, nem realizar desportos radicais, ou outras coisas que nos podem aproximar da morte, pois todos os dias estaríamos a realizar acções contra a nossa natureza, pondo em risco a nossa vida.

Outra objecção à realização da eutanásia é de que a decisão que se toma neste sentido poder corresponder a um estado de espírito passageiro e influenciado pelos factores emocionais decorrentes da experiência de sofrimento. No entanto, a complexidade desta questão, que envolve considerações de ordem individual, legal e de deontologia médica, requer um tempo de ponderação que tem vindo a demonstrar a seriedade com que a decisão é tomada.

Muitas vezes pensamos a eutanásia como uma prática realizada em situações em que se supõe não haver qualquer esperança de se vir a modificar o estado da pessoa e isso não é correcto porque não se pode prever a evolução de uma doença e a resposta adaptativa do organismo. Mas isso será como afirmar que é possível a uma pessoa viver duzentos anos e o facto de isso nunca ter acontecido não invalidar essa possibilidade. Será, todavia, que a esperança de um milagre que nos devolva a vida é suficiente para permitir todo o sofrimento físico e psicológico durante um tempo indefinido, sem nada que faça prever a ocorrência efectiva desse milagre? Parece-me que isso é pedir muito.

Nós “brincamos” com a vida, mas atribuímos-lhe um valor maior quando sabemos que vamos morrer em breve. Neste ensaio defendi a eutanásia activa voluntária, mas eu tenho 18 anos e penso que tenho uma brilhante vida pela frente. O meu fim está ainda demasiado longe para pensar nele e nunca tive contacto directo com a morte. Mas será que quando o fim se aproximar agirei consoante os meus princípios teóricos? Será que se alguém me vier um dia pedir para acabar com a sua vida eu vou saber o que devo fazer? Se eu ajudar alguém a realizar a eutanásia será que vou ter a certeza que fiz uma coisa certa? Não tenho respostas definitivas a estas perguntas. Isso mostra que, independentemente dos argumentos que apresentei, o tema deste ensaio continua a suscitar algumas dúvidas.

  • Essa página foi útil?
  • Sim   Não