Apelo à natureza: significado e exemplos | Filosofia na Escola

Apelo à natureza: significado e exemplos

apelo à natureza

O apelo à natureza é um tipo de falácia que ocorre quando argumentamos que algo é bom porque é natural ou ruim porque não é natural. Implícito nesse tipo de raciocínio está a ideia de que tudo que é natural é bom e tudo que não é natural é ruim.

Esse tipo de argumento é usado em debates sobre medicina, sexualidade, papéis de gênero, raça, direitos dos animais entre outros.

Debates sobre saúde

Atualmente, com o uso excessivo de agrotóxicos, poluição, remédios que geram dependência e uma série de problemas ambientais que enfrenta nossa sociedade, é comum pressupor que algo natural é, automaticamente, bom. A todo momento vemos propaganda de produtos cuja principal característica destacada é o fato de serem naturais. Nesses casos, o argumento implícito é o seguinte:

Todo produto natural faz bem para a saúde.

Esse produto é natural.

Portanto, ele faz bem para a saúde.

Assim, podemos observar que o erro do argumento que parte do fato de que um produto é natural e conclui que ele faz bem para a saúde, é a generalização “todo produto natural faz bem para a saúde”. Ora, isso não é verdade. Basta lembrarmos que muitas plantas são tóxicas para os seres humanos, que há venenos que são naturais e que produtos como cigarro, por exemplo, mesmo quando produzidos sem agrotóxicos e qualquer tipo de aditivo, são prejudiciais à saúde. Por outro lado, há procedimentos artificiais que trazem grandes benefícios, como escovar os dentes, por exemplo.

A ideia de que o que é natural é saudável ou o que não é natural não é saudável, embora seja uma generalização incorreta, como vivos através dos exemplos, tem bastante força. Há, por exemplo, todo um movimento antivacina presente em diversos países que se opõe à prática de imunização artificial com base, em parte, na premissa de que as vacinas não são naturais.

Porém, alguém poderia argumentar que certas coisas naturais são claramente mais saudável que as artificiais. Uma dieta natural, por exemplo, baseada em fibras, frutas, legumes e verduras, é bem melhor do que uma baseada em refrigerantes, salgadinhos, salsichas e outros alimentos industrializados.

Essa constatação é geralmente verdadeira, mas ainda assim possui várias exceções. Já citamos o exemplo do cigarro e podemos acrescentar alimentos tóxicos ou que, quando ingeridos em grande quantidade, como o mel, por exemplo, capazes de gerar doenças relacionadas ao excesso de açúcar.

Portanto, podemos dizer que afirmar que algo é bom simplesmente com base no fato de ser natural é uma falácia. É necessário apresentar outras razões, mais relevantes, para justificar essa conclusão. Como vimos, ser natural não é garantia de que seja bom, da mesma forma que ser artificial não é garantia de que seja ruim.

Apelo à natureza em debates morais

O apelo à natureza é uma falácia muito comum em debates morais, sobre se uma determinada ação é correta ou não. Considere o exemplo abaixo, muito comum no debate sobre contracepção:

Evitar ter filhos ao longo da vida não é um comportamento natural.

Portanto, essa prática deveria ser evitada.

O que torna esse raciocínio falacioso é o fato de que comportamentos “antinaturais” também serem considerados corretos. Na natureza, por exemplo, é raro encontrarmos a prática da fidelidade entre casais de animais. O gato engravida a gata e nunca mais aparece.  Deveríamos concluir então que os casais que passam a vida juntos estão agindo de maneira incorreta? Se levamos a ideia de que o que é natural é bom ao pé da letra, deveríamos concluir isso.

Você certamente pensa que não deveríamos permitir a violência em nossa sociedade. Que a agressão, a morte e toda forma de violência é algo incorreto. Porém, ela é completamente natural. Ela está presente nas relações entre todos os tipos de seres vivos, inclusive os seres humanos. Mas nem por isso devemos concluir que é correto sair por aí matando pessoas ou animais.

Assim, a natureza é usada na discussão moral quando convém, não como uma regra geral. O problema com os apelos à natureza em discussões morais ocorre porque “é” não implica “deve”. A formulação parece complexa, mas é uma ideia simples de entender. O apelo à natureza tem a seguinte estrutura:

Um comportamento é natural.

Portanto, ele deve ser adotado.

Não é possível tirar qualquer conclusão normativa do fato de algo ser natural ou não. A violência pode ser algo natural, mas nem por isso ela deve ser adotada. Morrer de picada de cobra pode ser algo natural, mas isso não significa que não devemos fazer nada para evitar a morte quando picados por uma.