Falsificacionismo | Filosofia na Escola

Falsificacionismo

De acordo com o falsificacionismo, as teorias científicas são sempre provisórias e é natural que uma substitua a outra. Como aconteceu quando a teoria de que a terra é plana foi deixada de lado.

É comum pensarmos que a ciência é um tipo de conhecimento que foi verificado. Pensamos no cientista como uma figura que busca, através de uma série de experimentos, provar que sua teoria é verdadeira. Uma boa teoria, nesse sentido, é aquela sob a qual não resta qualquer dúvida de que seja verdadeira. Assim, o que distingue a medicina científica da pseudomedicina, por exemplo, é que a primeira foi capaz de mostrar que seus procedimentos terapêuticos curam de fato; a segunda, não.

Porém, segundo o filósofo Karl Popper (1902-1994) o que realmente distingue as ciências da pseudociência e da superstição, afirmou Popper, é que as hipóteses científicas devem ser capazes de ser falsificadas por meio da observação empírica.

Verificacionismo

A ideia de que a ciência se diferencia das demais formas de conhecimento porque suas teorias foram verificadas através da experiência teve início na modernidade, como Francis Bacon (1561-1626). Essa ideia está por trás do chamado método indutivo.

Popper pensa que a ciência não se caracteriza por verificar suas teorias através da observação por uma razão bem simples: não é possível verificar uma teoria. De modo que, se para ser científica uma teoria deve ser verificada, então não existiriam teorias científicas.

cisne negro e branco -falsificacionismo de Popper

Cisnes negros foram encontrados pela primeira vez por europeus no século XVII. Isso refutou a ideia de que todos os cisnes são brancos, o que na época era considerado universalmente verdadeiro.

Teorias científicas são afirmações universais do tipo “todos os cisnes são brancos”. Ora, não é possível verificar todos os cisnes que existem no planeta Terra para saber se de fato todos são brancos. Mesmo se nos esforçássemos, não seríamos capazes de verificar, por exemplo, se todos os cisnes que já morreram são brancos.

Portanto, não importa o número de experimentos que sejam realizados para verificar uma teoria, sempre resta a possibilidade de ela se mostrar falsa.

Falsificacionismo

Ao contrário de verificar teorias, Popper pensa que a ciência, na verdade, procura falsificar as teorias que propõe. O cientista é aquele que propõe hipóteses  e as testa para saber se são falsas.

Um exemplo disso pode ser visto com a teoria da evolução de Darwin. Essa afirma que as espécies evoluem ao longo do tempo como resultado de mudanças genéticas e competição pela sobrevivência e reprodução. Umas das previsões feitas a partir dessa teoria é de que em rochas pré-cambrianas seria possível encontrar vestígios de organismos mais simples do que em rochas cambrianas. Afinal, se os seres vivos evoluem ao longo do tempo, com o passar desse vão se tornando cada vez mais complexos.

Isso é exatamente o que os biólogos descobriram em 1947 nas rochas pré-cambrianas na Austrália. Portanto, a teoria de Darwin resistiu a uma tentativa de falsificação. Isso não prova que ela é verdadeira. Ao contrário, o que se sabe é que, até o momento, não foi falsificada. O fato de resistir a esse tipo de teste revela que é uma teoria que merece ser explorada mais a fundo, ser submetida a novos experimentos, mas em nenhum caso que é verdadeira.

O cientista é, assim, visto como uma pessoa que faz uma conjectura, apresenta uma hipótese, e tenta refutá-la, ou seja, mostrar que essa hipótese é falsa. Por isso a teoria de Popper é conhecida como falsificacionismo. Na atividade científica, a verificação deixa de existir e dá lugar à falsificação.

De forma esquemática, o método científico de acordo com o falsificacionismo possui quatro passos:

  1. Formulação de uma hipótese a partir de um problema. Um problema aqui é algum fato que queremos explicar. Darwin, por exemplo, queria entender como as espécies se desenvolveram e uma série de outras questões relacionadas.
  2. Dedução de consequências. Formulada uma teoria, é hora de pensar quais consequências lógicas se seguem dessa teoria. A ideia de que organismos encontrados em rochas com idades diferentes deveriam ter níveis de complexidade diferente é um exemplo disso.
  3. Experimentação.  Esse é o momento crucial para a ciência. É necessário testar se as consequências deduzidas da teoria se verificam ou não. Caso elas se verifiquem, a teoria sobrevive ao teste e é aceita de forma provisória. A pesquisa continua em torno dela. Caso não, é necessário abandoná-la.
  4. Nova hipótese. Quando uma teoria acaba se mostrando falsa, o que é comum, é hora de abandoná-la e criar uma nova hipótese. E assim começa tudo de novo.

O que diferencia ciência de pseudociência

De acordo com o falsificacionismo, o que diferencia a ciência da pseudociência é a possibilidade de uma teoria ser falsificada. Dessa perspectiva, afirmações como “Deus existe” não são científicas, pois não é possível de alguma forma mostrar que é falsa. Não é possível pensar um conceber um experimento observacional que revelasse sua falsidade.

É comum em muitas teorias pseudocientíficas o uso de uma série de evidências que as dão suporte. Por exemplo, os astrólogos apontam para eventos observados que são consistentes com algumas de suas previsões e dizem que eles verificam suas teorias. Mas qualquer teoria, Popper apontou, pode ser mostrada  ser consistente com alguns fatos observados. O que as torna científicas não é isso. O que define a ciência é a tentativa de encontrar fatos de refutem as teorias.

A ciência progride eliminando o erro

A ciência, para Popper, é um trabalho sempre em desenvolvimento. Não existe uma teoria acabada, que tenha sido definitivamente confirmada. Mesmo a mais duradoura das teorias poderá se mostrar falsa algum dia.

Popper pensa que o conhecimento científico é sempre provisório e progride através da tentativa e do erro. Em primeiro lugar, é provisório porque não é possível verificar uma teoria. O máximo que podemos fazer é mostrar que é falsa.

Em segundo lugar, seu progresso se dá através da tentativa e do erro porque sempre que uma teoria se mostra falsa, aprendemos algo importante sobre o mundo: que ele não funciona da forma como pensamos, mas de outra. Isso nos coloca em busca de novas teorias. Ao se revelarem falsas as novas teorias, vamos em busca de outras novamente. Através desse processo de tentativa e erro, vamos eliminando as ideias incorretas, as teorias falsas, as superstições e preconceitos. E ao eliminar o erro, nos aproximamos da verdade.

Referência consultada

Popper, Karl. A lógica da pesquisa científica. São Paulo: Editora Cultrix, 2007.