O problema mente-corpo: qual a natureza da mente?

Qual a natureza da sua mente e qual a relação desta com seu corpo? Essa é uma questão presente desde o início da filosofia. A dificuldade de resolver a questão é evidenciada pelo fato de que até agora muitas soluções alternativas foram criadas e ainda assim não existe um consenso sobre o problema mente-corpo. Nesse texto vamos analisar esse problema e as diferentes respostas oferecidas para ele.

Como surge o problema mente-corpo?

O problema mente-corpo surge do fato de, aparentemente, mente e corpo serem coisas completamente distintas, apesar disso, interagirem de várias maneiras.

A primeira vista, a mente (que equivale à alma, para alguns dualistas como Descartes e Platão) é um substância com um série de características próprias, completamente diferente do corpo. A mente não é material ou física, não ocupa lugar no espaço, não está sujeita às leis da física e, para alguns, é imortal, já que é capaz de sobreviver à morte do corpo.

O corpo, por sua vez, tem características exatamente contrárias: é físico, ocupa lugar no espaço, está sujeito às leis da natureza e, com o passar do tempo, vai degenerando até que deixa de existir.

Apesar de serem coisas completamente distintas, interagem uma com o outra. Por exemplo. Se você quiser usar o mouse para clicar em um link dessa página (um evento mental, não físico) fará com que seu braço se movimente para executar esse desejo (um evento físico). Essa interação também ocorre no sentido inverso. Pensemos num exemplo. Lembre da última vez em que comeu um pouco além da conta (evento físico) e ficou se sentindo sem disposição para fazer qualquer coisa (um evento mental).

Considerando isso, chegamos às seguintes conclusões:

  1. O corpo é uma coisa física.
  2. A mente é uma coisa não física.
  3. A mente e o corpo interagem e causalmente afetam um ao outro.

Tendo listado essas crenças, nos deparamos com o problema mente-corpo: exatamente como uma coisa não física (a mente) interage com uma coisa física (o corpo)?

As coisas físicas interagem empurrando, puxando, fundindo, energizando, atraindo, magnetizando e assim por diante. No entanto, todos esses tipos de interação envolvem forças físicas que podem ser explicadas pelas leis da física.

A maioria das pessoas, se perguntada, tenderia a concordar com a afirmação: “O movimento de um corpo físico está completamente sujeito às leis físicas.” Entretanto, se a mente não é uma coisa física, ela não pode afetar um corpo através de forças gravitacionais, elétricas, magnéticas ou mecânicas. Como, então, pode haver qualquer relação causal entre a mente e o corpo? Explicar essa interação referindo-se ao cérebro é de muito pouca ajuda, porque o cérebro é simplesmente outro tipo de corpo físico.

A dificuldade em compreender como uma coisa não-física, como a mente, pode ter qualquer interação causal com um corpo físico sugere uma quarta conclusão: as coisas não-físicas não podem interagir causalmente com as coisas físicas.

Nós agora parecemos ter quatro afirmações sobre a mente e o corpo igualmente plausíveis, mas elas não podem ser todas verdadeiras. Você pode acreditar em qualquer combinação dessas quatro, mas quando você adiciona a afirmação restante, acaba em uma contradição. Sendo assim, temos que escolher uma delas para rejeitar como falsa. Porém, cada uma delas traz consequências problemáticas. Qual delas você rejeitaria?

Respostas para o problema mente-corpo

Várias posições foram tomadas sobre o problema mente-corpo, mas duas delas se destacam como sendo as alternativas mais significativas. Essas posições são o dualismo mente-corpo e fisicalismo.

O dualismo mente-corpo é a afirmação de que a mente e o corpo (que inclui o cérebro) são entidades separadas e distintas. O corpo é uma coisa física, enquanto a mente é uma coisa não-física (imaterial ou espiritual).

O fisicalismo é a alegação de que a mente é idêntica ou produto das atividades do corpo ou do cérebro e que não há nenhum aspecto não físico em uma pessoa. Ou seja, mente e corpo são compostos da mesma matéria, têm a mesma natureza.

dualismo mente-corpo de Descartes

Ilustração de René Descartes do dualismo mente-corpo. Descartes acreditava que as informações eram transmitidas pelos órgãos sensoriais para a epífise no cérebro e daí para o a mente ou alma.

A versão mais comum do dualismo é chamada de interacionismo. O interacionismo acrescenta à tese dualista a afirmação de que a mente e o corpo, embora diferentes, interagem causalmente entre si. Essa versão do dualismo foi defendida pelo filósofo francês do século XVII Descartes e representa a visão de senso comum sobre o assunto. Outro filósofo clássico que apresentou uma concepção dualista como essa foi Platão. Muitas religiões também adotam concepção semelhante, ao afirmar que o ser humano, além do corpo possui uma alma e que essa é imortal.

Embora o interacionismo e o fisicalismo sejam as posições mais comuns ao longo da história da filosofia, há outras opções que vale a pena mencionar.

Uma dessas posições é o idealismo. O idealismo é o contrário exato do fisicalismo. Enquanto o fisicalista diz que os seres humanos não são nada além da matéria, o idealista diz que os seres humanos (e toda a realidade) não é nada além de substâncias mentais. O idealista resolve o problema mente-corpo acreditando que a mente e o corpo não são realmente dois tipos diferentes e irredutíveis de realidade. Pelo contrário, ambos são, em certo sentido, “mentais”. Um dos defensores desse tipo de idealismo é George Berkeley.

Existem também diferentes variedades de fisicalismo. As duas versões mais comuns são teoria da identidade (ou reducionismo) e eliminativismo. Mesmo que os teóricos da identidade neguem que existe uma mente separada, não-física, eles acham que é significativo falar sobre a mente porque afirmam que toda a conversa sobre a mente pode ser traduzida em conversa sobre estados cerebrais. Por outro lado, o eliminativista acha que nosso vocabulário mental deveria ser eliminado totalmente em favor de um vocabulário fisiológico.

Portanto, para os eliminativistas, falar sobre se a mente é ou não física ou se interage com o corpo é como perguntar: “os duendes são a favor do desarmamento nuclear?” Ou “os fantasmas gostam de arte moderna? Quando você decide que duendes e fantasmas não existem, essas questões não têm sentido. Da mesma forma, os eliminativistas querem descartar toda linguagem que se refere a eventos mentais porque acreditam que não existem tais coisas.

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