Consequencialismo

Por Desiderio Murcho

Vamos nos concentrar agora em outro aspecto do princípio da maior felicidade. De acordo com este princípio, recordemos, o fato de que um ato ser certo ou errado depende de um único fator: a promoção do bem, mais precisamente da felicidade geral. Deste modo, se queremos saber se um dado ato é certo ou errado, tudo o que precisamos  saber é em que medida, comparado com atos alternativos, este contribui para a felicidade geral.

Suponha-se, por exemplo, que ocupamos um cargo político e que podemos ordenar a construção de uma de três coisas: um museu, um hospital ou um estádio de futebol. Como deveremos agir? A nossa escolha afetará, positiva ou negativamente, o bem-estar de um certo conjunto de indivíduos. Segundo a ética utilitarista, a melhor escolha será aquela que, de um ponto de vista imparcial, mais beneficiará esses indivíduos. Imagine-se que, depois de investigarmos os fatos, descobrimos que a construção do hospital é a alternativa que, sob esse ponto de vista, dará origem a um maior bem. Nesse caso, aquilo que devemos fazer é ordenar a construção do hospital.

Consideremos outro exemplo. Um médico dispõe de recursos muito limitados com os quais, na situação em que se encontra, pode fazer o seguinte: tratar cinco feridos leves, poupando-os assim a algum sofrimento enquanto não chegam ao hospital, ou ocupar-se exclusivamente de um ferido grave, salvando-lhe a vida. Neste caso, ainda que a primeira ação beneficiasse um maior número de pessoas, é a segunda ação que o utilitarista aprovaria, pois o benefício que esta trará ao ferido grave supera os benefícios comparativamente menores que os outros feridos poderiam obter.

Como os exemplos apresentados deixam claro, o utilitarista avalia as ações atendendo somente às suas consequências. Em qualquer situação, o melhor ato é aquele que, comparado com os atos alternativos, tem consequências mais valiosas. Para determinar o valor das consequências de um ato, importa apenas ponderar os prejuízos e os benefícios que a sua realização trará a todos os indivíduos. Nesta ponderação, os interesses de todos os indivíduos recebem a mesma atenção, ou seja, não se dá um peso privilegiado aos interesses de alguns indivíduos. As discriminações baseadas no sexo, na raça ou nacionalidade, por exemplo, não são autorizadas.

Dado que entende que só as consequências de um ato determinam se este é certo ou errado, o utilitarista defende uma perspectiva consequencialista. Esta perspectiva pode ser definida assim: um ato é permissível se, e apenas se, maximiza imparcialmente o bem.

Texto retirado do livro A arte de Pensar Filosofia 10° Ano, de Desiderio Murcho et. al.

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