Críticas à teoria utilitarista

Por Desiderio Murcho

Será que todos os atos que maximizam o bem são permissíveis? Os críticos do utilitarismo defendem que não: alguns atos maximizam o bem, mas são eticamente errados. A felicidade geral pode ser o melhor dos fins, mas nem sempre os fins justificam os meios. Por outras palavras, existem certas formas de maximizar o bem que não são eticamente permissíveis.

Para compreender melhor esta crítica, imaginemos, por exemplo, a seguinte situação:

A Sara é uma cirurgiã especializada na realização de transplantes. No hospital em que trabalha enfrenta uma terrível escassez de órgãos – cinco dos seus pacientes estão prestes a morrer devido a essa escassez. Onde ela poderá  encontrar os órgãos necessários para salvá-los? O Jorge está no hospital se recuperando de uma operação. A Sara sabe que o Jorge é uma pessoa solitária – ninguém vai sentir a sua falta. Tem então a ideia de matar o Jorge e usar os seus órgãos para realizar os transplantes, sem os quais os seus pacientes morrerão.

Não hesitamos em considerar a ideia da Sara abominável. Mas o que deverá pensar um utilitarista sobre essa ideia? Parece que tem de pensar que nada há de errado em matar o Jorge. Afinal, a opção de matá-lo permitirá salvar cinco pessoas que de outro modo morrerão – vistas as coisas de uma perspectiva imparcial, matá-lo e usar os seus órgãos promoverá mais o bem-estar do que não o matar e deixar os cinco pacientes morrer. Chegamos assim ao seguinte argumento: se o utilitarismo fosse verdadeiro, seria permissível (e até obrigatório) a Sara matar o Jorge, mas fazer tal coisa não é permissível. Logo, o utilitarismo é falso.

Consideremos agora outra situação imaginária:

Vários crimes hediondos ocorreram na cidade. O xerife descobriu que o criminoso está morto, mas sabe que ninguém vai acreditar nele caso diga isso e apresente todos os dados de que dispõe. Entretanto os habitantes da cidade estão cada vez mais agitados. O xerife sabe também que, se um suspeito não for julgado dentro de pouco tempo, ocorrerão distúrbios que resultarão na morte violenta de muitas pessoas inocentes. Enquanto está a pensar no assunto, entra no seu escritório um estrangeiro que veio sozinho para a cidade. Ele diz que está desesperado – não tem amigos nem família, e veio para a cidade em busca de emprego. O xerife tem então uma ideia: por que não acusar este estrangeiro solitário? Há pena de morte na cidade, e o xerife pode fazer o estrangeiro ser julgado, condenado e executado.

Acusar o estrangeiro solitário maximizaria o bem, pois esse ato evitaria os distúrbios violentos. Por esta razão, o utilitarista diria que é permissível (e até obrigatório) acusá-lo. No entanto, parece-nos que isso não é permissível, já que é extremamente injusto acusar pessoas de crimes que não cometeram. Tanto neste caso como no anterior, somos levados a concluir que o utilitarismo é uma ética demasiado permissiva: permite todos os atos que maximizem o bem, mas nem todos os atos desse gênero nos parecem permissíveis.

Texto retirado do livro A arte de Pensar Filosofia 10° Ano, de Desiderio Murcho et. al.

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