Diálogo sobre o imperativo categórico

Kant afirma que a razão, e nada mais, nos impõe a obrigação de agir apenas segundo máximas que possamos querer universalizar. E sustenta que esta obrigação dá origem a deveres específicos, alguns dos quais com um caráter absoluto. […] No diálogo que se segue, os interlocutores discutem [essas perspectivas], tomando como referência a fórmula da lei universal.

– Admito que estou desapontado com a teoria de Kant.
– Porquê? A mim parece uma excelente teoria. Julgo que o imperativo categórico é realmente o princípio ético fundamental – é um princípio, aliás, que qualquer agente racional tem de aceitar.
– Ora aí está uma coisa que não percebo. Porque é que o imperativo categórico é um princípio racional? Uma pessoa racional não poderá rejeitá-lo?
– Hmmm… Uma pessoa racional tem de ser coerente, não é?
– Sim.
– Então imagina alguém que diz isto: “Eu posso quebrar as promessas que faço, mas não quero (aliás, não posso querer!) que todos quebrem as promessas que fazem.” Julgo que quem pensa assim, rejeitando o imperativo categórico, está a sendo incoerente, não te parece? Julgo que o imperativo categórico é uma simples exigência de coerência que nos impede, entre outras coisas, de abrir exceções convenientes para nós próprios. Portanto, qualquer pessoa racional tem de o aceitar.
– Talvez tenhas razão… Talvez seja verdade que, como agentes racionais, temos de agir apenas segundo máximas que possamos querer universalizar. No entanto, este princípio me parece vazio – não tem as implicações práticas que Kant indicou. Não implica, por exemplo, que devemos manter sempre as promessas que fazemos.
– Explica lá o teu argumento…
– Eu até estou disposto a admitir, concordando com Kant, que a máxima “Faz promessas com a intenção de cumprir” não é universalizável, pois se todos agissem segundo essa máxima a prática de fazer promessas desapareceria. Mas agora imagina que eu adoto uma máxima mais específica, como “Faz promessas com a intenção de as não cumprir quando isso é necessário para salvar a vida de uma pessoa”. Esta máxima é claramente universalizável, pois, mesmo que todos a adotassem, isso não abalaria a prática de fazer promessas ao ponto de a destruir. Posso perfeitamente querer que as pessoas quebrem promessas para salvar vidas! E, sendo assim, o imperativo categórico não me proíbe sempre de quebrar promessas.
– Pode ser que tenha razão… Talvez o imperativo categórico, contrariamente ao que Kant pensou,
não leve a deveres absolutos. Mas, mesmo assim, está enganado quando dizer que este é vazio. Este princípio tem consequências práticas importantes, pois, como acabou de admitir, nos proíbe de sempre fazer promessas sem a intenção cumprir, de as quebrar só porque nos da vontade. E é claro que poderíamos usar muitos outros exemplos.
– Tudo bem, admito isso. Mas, seja como for, é óbvio que a ética não se pode basear apenas no imperativo categórico, pois há muitas máximas claramente imorais, como “Mate os teus avós”, que são universalizáveis. Afinal, porque é que eu não posso querer que esta máxima se torne uma lei universal?
– Eu acho que essa máxima não é universalizável. Se fosses avô, gostarias que os teus netos te matassem?
– É claro que não! Mas a questão não é essa. Eu, devido aos desejos que tenho, não quero que essa máxima se universalize. Mas outra pessoa qualquer, com desejos diferentes, poderia querer que essa máxima fosse uma lei universal. Imagina um homem que odeia tanto as pessoas mais velhas que até está disposto a ser morto quando chegar a velho. Se perguntares a esse homem “Queres que a máxima ‘Mate os teus avós’ se torne lei universal?”, ele responderá que sim.
– Só um homem extraordinariamente insensível daria essa resposta!
– Ele seria insensível, sem dúvida, mas, dados os seus desejos, não poderia acusá-lo de ser incoerente ou irracional. O problema desse homem não seria falta de racionalidade; talvez lhe faltasse empatia. Ou seja, provavelmente não teria grande capacidade de sentir o que os outros sentem, nem de se imaginar no lugar dos outros e de se identificar com os seus interesses. E, se isto é verdade, então mesmo que a razão tenha um papel importante na ética, esta não pode ignorar nossos desejos e emoções.

Texto retirado do livro A arte de Pensar Filosofia 10° Ano, de Desiderio Murcho et. al.

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