Relativismo Moral

Culturas diferentes tem códigos morais diferentes

Por James Rachels

Dario, o rei da Pérsia antiga, ficou intrigado com a variedade de culturas que ele encontrou em suas viagens. Ele descobriu, por exemplo, que os galatianos, que viviam na Índia, comiam os corpos de seus pais mortos. Os gregos, naturalmente, não faziam isso – eles praticavam a cremação e viam o funeral da pira como a maneira natural e adequada de dispor dos mortos. Dario pensava que uma visão sofisticada poderia prezar as diferenças entre as culturas. Um dia, para ensinar a sua lição, ele convocou alguns gregos que estavam em sua corte e lhes perguntou o que seria necessário para eles comerem os corpos de seus pais mortos. Eles ficaram chocados, como Dario sabia que eles ficariam, e responderam que nenhuma quantidade de dinheiro poderia persuadi-los a fazer tal coisa. Então, Dario chamou alguns galatianos e, enquanto os gregos ouviam, perguntou-lhes o que seria necessário para eles queimarem os corpos de seus pais mortos. Os galatianos ficaram horrorizados e disseram a Dario para não falar de tais coisas.

Essa estória, recontada por Heródoto em sua História, ilustra um tema recorrente na literatura das ciências sociais: culturas diferentes têm códigos morais diferentes. O que é pensado como correto por um grupo pode horrorizar os membros de um outro grupo e vice-versa. Devemos nós comer os corpos dos mortos ou queimá-los? Se você fosse grego, uma resposta poderia ser obviamente correta, mas, se você fosse galatiano, a outra resposta poderia ser igualmente certa.

Há muitos exemplos disso. Considere os esquimós do início e meados do século XX. Os esquimós são as pessoas nativas do Alaska, do norte do Canadá, da Groelândia e do nordeste da Sibéria na Rússia asiática. Atualmente, nenhum desses grupos se autointitula “esquimós”, mas o termo foi historicamente referido àquela população dispersa do ártico. Antes do século XX, o mundo exterior conhecia muito pouco sobre eles. Então, os exploradores começaram a trazer lendas estranhas.

Os esquimós viviam em pequenos assentamentos, separados por grandes distâncias, e seus costumes se tornaram muito diferentes dos nossos. Os homens geralmente tinham mais de uma esposa e eles compartilhavam as suas esposas com os convidados, emprestando-as durante a noite como um sinal de hospitalidade. No entanto, dentro da comunidade, um homem dominante podia demandar – e conseguir – acesso sexual regular às esposas dos outros homens. As mulheres, porém, eram livres para romper esses arranjos simplesmente deixando seus maridos e tomando novos parceiros – livremente, quer dizer, contanto que seus ex-maridos não escolhessem causar muitos problemas. Tudo somado, o costume esquimó do casamento era uma prática volátil que tem pouca semelhança com nossos costumes.

Mas não eram diferentes somente os seus casamentos e práticas sexuais. Os esquimós também pareciam pouco se importar com a vida humana. O infanticídio, por exemplo, era comum. Knud Rasmussen, um dos primeiros exploradores, informou ter encontrado uma mulher que tinha dado à luz 20 crianças, mas tinha matado 10 delas no nascimento. Meninas, ele notou, eram especialmente suscetíveis de serem mortas, e isso era permitido à discrição dos pais, não havendo conexão com estigma social. Ademais, quando membros da família idosos se tornavam muito fracos, eles eram deixados fora na neve para morrerem. Na sociedade esquimó parecia haver, notavelmente, pouco respeito pela vida.

A maior parte de nós acharia esses costumes esquimós completamente inaceitáveis. Nosso próprio modo de viver parece tão natural e correto para nós que dificilmente podemos conceber pessoas que vivam tão diferentemente. Quando ouvimos falar de tais pessoas, podemos dizer que elas são “atrasadas” ou “primitivas”. Mas, para os antropólogos, os esquimós não parecem incomuns. Desde o tempo de Heródoto, observadores esclarecidos observaram que concepções do certo e do errado diferem de cultura para cultura. Se assumimos que nossas ideias éticas serão partilhadas por todas as culturas, nós somos ingênuos, meramente.

Relativismo Cultural

Para muitas pessoas esta observação – “culturas diferentes têm códigos morais diferentes” – parece ser a chave para entender a moralidade. Não há verdades morais universais, dizem eles. Os costumes de sociedades diferentes são tudo o que existe. Chamar um costume de “correto” ou “incorreto” implicaria podermos julgar tal costume por algum padrão independente do que é certo e errado. Mas não existe tal padrão. Todo padrão é limitado culturalmente. O sociólogo William Graham Summer (1840-1910) apresentou o assunto nos seguintes termos:

O modo “correto” é o modo que os ancestrais utilizavam e que foi transmitido. […] A noção de correto está nos modos de pensar de um povo. Não é exterior a eles, de uma origem independente, trazido para testá-los. Nos modos de pensar de um povo, qualquer que seja esse pensar, ele é correto. Isso ocorre porque eles são tradicionais e, portanto, contêm em si mesmos a autoridade dos espíritos ancestrais. Quando nós chegamos nos modos de pensar do povo, estamos no final de nossas análises.

Retirado de Os Elementos da Filosofia Moral, por James Rachels e Stuart Rachels

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