Utilitarismo de preferências

Por Desiderio Murcho

Utilitarismo de preferências

Os utilitaristas contemporâneos geralmente não baseiam a sua teoria no hedonismo. Muitos, como Peter Singer, aceitam antes o utilitarismo de preferências, que pressupõe que o bem-estar a ser promovido consiste, não em experiências aprazíveis, mas na satisfação de desejos ou preferências. No diálogo que se segue, um dos interlocutores explica o que o levou a adotar o utilitarismo de preferências:

– Inicialmente senti-me muito atraído pelo utilitarismo hedonista, sobretudo depois de ter lido Mill, mas tive de rejeitar essa perspectiva…

– Por causa do argumento da máquina de experiências?

– Sim. Se eu aceitasse o utilitarismo hedonista, teria de pensar que nada seria melhor para mim que ligar-me à máquina e passar o resto da vida num tanque sem fazer nada que realmente importasse. É claro que não penso isso! Prefiro mil vezes a minha vida, com a sua dose considerável de desilusões e frustrações, a uma vida ilusória cheia de experiências agradáveis.

– Acho que concordo contigo.

– Como diz Nozick, “queremos fazer certas coisas, e não ter apenas a experiência de as fazer”. Eu, por exemplo, quero muito gravar um disco. A máquina podia proporcionar-me a experiência de gravar um disco e até de ser um músico muito famoso, mas não é nada disso que pretendo. Quero mesmo gravar um disco – não quero viver o tempo todo enganado sobre o que sou e o que me rodeia, e suponho que a grande maioria das pessoas também não quer.

– Então deixaste de ser utilitarista?

– Na verdade, não deixei. Continuo a pensar que, eticamente, a coisa acertada a fazer é promover imparcialmente o bem-estar. Só que agora aceito uma ideia diferente de bem-estar. Acho que o bem-estar de um ser resulta da satisfação dos seus desejos, interesses ou preferências. Uma vida boa é uma vida preenchida por muitos desejos intensos que acabam por ser satisfeitos.

– És então um utilitarista de preferências?

– Exato. Ora, este tipo de utilitarismo implica que, dado que temos uma preferência muito forte em levar uma vida real, autêntica, não temos qualquer razão para nos ligarmos à máquina.

Texto retirado do livro A arte de Pensar Filosofia 10° Ano, de Desiderio Murcho et. al.

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