Schopenhauer e o determinismo

[Para entender porque a ideia de livre-arbítrio é enganosa] devemos imaginar um homem que, estando, por exemplo, na rua, dissesse consigo mesmo: “São seis horas; o meu dia de trabalho terminou. Poderei, consequentemente, passear ou ir ao cassino; poderei, também, subir à torre para admirar o ocaso do sol, ou ir ao teatro, ou visitar este ou aquele amigo; e poderei, ainda, sair para os arredores da cidade e lançar-me em meio da vastidão do universo para não mais voltar… Tudo isso depende somente de mim; tenho plena e absoluta liberdade de agir como me apraz; entretanto, não farei nada de quanto tenho dito, voltando, pelo contrário, não menos voluntariamente para casa, junto de minha mulher”.

Tudo isso é como se a água tivesse dito: “Posso erguer-me estrondosamente em vastas ondas (certamente: quando o mar está tempestuoso!) — posso serpentear com arrancos precipitantes, devastando tudo à minha passagem (sim, no leito de uma torrente) — posso cair em tumulto de espumas (naturalmente, em cascata) — posso elevar-me no ar, livre como um raio (sem dúvida, no guincho de uma fonte) — posso, finalmente, evaporar-me e desaparecer (perfeitamente: ao calor de 100º) — todavia não faço nada disso e continuo quietinha, límpida e vaga, no espelho de um lago.”

Do mesmo modo, a água não pode transformar-se senão quando nela intervêm determinadas causas, levando-a a um ou a outro estado; assim, também, o homem não pode realizar tudo quanto imagina estar ao seu alcance senão quando a isso o conduzem motivos particulares. Nenhum ato lhe será possível sem a intervenção de uma causa; mas apenas essa aja sobre si, deve ele, de forma idêntica ao que acontece em relação à água, comportar-se do modo que é desejado pelas circunstâncias correspondentes aos casos singulares.

Referência

Schopenhauer, Arthur. O livre-arbítrio. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012, pp. 72-73.

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