Melhoramento genético

Em geral, o melhoramento genético refere-se à transferência de material genético destinado a modificar traços não patológicos de qualquer ser vivo. Em geral o termo é usado para se referir a esforços da ciência para melhorar características de seres vivos, animais, plantas e inclusive seres humanos. A finalidade do melhoramento é sempre aprimorar, otimizar uma capacidade natural através de modificação do código genético.

Considere alguns exemplos. Um boi naturalmente produz carne, em determinada quantidade, num determinado período. Porém através do melhoramento genético seria possível que ele produzisse uma quantidade maior de carne, num espaço de tempo menor. Também é possível modificar plantas para que se tornem resistentes a pragas, por exemplo. Esse é o caso de um milho modificado geneticamente para resistir ao ataque de lagartas, umas das principais pragas que afetam essa planta.

Em certo sentido, o conceito de melhoramento genético não é particularmente recente se considerarmos como aprimoramentos genéticos os medicamentos geneticamente modificados usados para alterar características físicas. Por exemplo, o hormônio do crescimento humano (HGH), que antes de 1985 podia ser obtido apenas em quantidades limitadas das glândulas pituitárias de cadáveres, pode agora ser produzido utilizando tecnologia de DNA recombinante. Quando sua oferta era mais limitada, o HGH foi prescrito para crianças com baixa estatura causada por deficiência de hormônio de crescimento. No entanto, com o advento da fabricação de DNA recombinante, alguns médicos começaram a recomendar o uso de HGH para crianças com deficiência de hormônio que estão abaixo da altura normal.

Tratamento e melhoramento genético

Melhoramento genético geralmente é comparado com tratamento genético. Qual a diferença entre os dois?

No primeiro caso, o objetivo é aprimorar de alguma forma um ser vivo. Esse ser vivo não possui nenhuma patologia, doença. Ainda assim, é realizada uma intervenção médica para torná-lo melhor do que é por natureza. Por exemplo. Pense em uma família que deseja que o filho seja jogador de vôlei. Caso nada seja feito, o filho terá uma altura normal, de acordo com a média da população, o que torna uma carreira nesse esporte mais difícil. Uma possibilidade, nesse caso, seria usar hormônio de crescimento para garantir boas oportunidades ao filho. Isso seria fazer um melhoramento genético, já que o filho não apresenta qualquer problema de crescimento, quer apenas aprimorar suas qualidades naturais.

O tratamento genético, ao contrário, pretende solucionar alguma doença ou deficiência existente no ser vivo. Pense, por exemplo, nas pessoas que têm baixa estatura causada por deficiência de hormônio de crescimento. Ao usar o HGH, não há intenção de melhorar uma característica natural, mas suprir uma deficiência.

Modelos animais e possibilidades de aplicação humana

Experimentos com animais até o momento tentaram melhorar  características como taxa de crescimento ou massa muscular. Embora a pesquisa genética esteja focada no desenvolvimento de abordagens para o tratamento de doenças e condições humanas, é concebível que os desenvolvimentos resultantes desta pesquisa possam ser mais amplamente aplicados para melhorar as características, em vez de corrigir as deficiências.

Recentemente, foram criados camundongos Schwarzenegger – animais de laboratório cujos corpos cresceram rapidamente após a injeção de um gene que causa o crescimento dos músculos. Os camundongos são o primeiro estágio no desenvolvimento de tratamentos destinados a testar tratamento que depois serão utilizados em pacientes com doenças graves. Essa abordagem, por exemplo, com doenças degenerativas a recriar o tecido danificado (por exemplo, a distrofia muscular). No mundo dos esportes, essa tecnologia poderia ser usada para melhorar o desempenho atlético sem ser detectada.

Intervenções semelhantes poderiam ajudar a retardar o processo de envelhecimento. Por exemplo, um gene chamado MGF (Mechano-growth factor) regula um hormônio natural produzido após o exercício que estimula a produção muscular. Os níveis de MGF diminuem à medida que envelhecemos, o que é uma das razões pelas quais a massa muscular é perdida à medida que envelhecemos. Um tratamento para construir músculos nos permitiria manter-nos saudáveis ​​e independentes por muito mais tempo. O IGF-1, outro hormônio de fortalecimento muscular, produziu massa muscular aumentada em ratos de laboratório. Teoricamente, a inserção de genes do IGF-1 poderia produzir um efeito igualmente impressionante em humanos.

Uma das áreas em que o aprimoramento genético pode encontrar uma aplicação inicial é no esporte. Nos Jogos Olímpicos de Inverno de 1964 em Innsbruck, um esquiador de cross-country da Finlândia que ganhou duas medalhas de ouro, e mais tarde foi revelado que tinha uma mutação genética que aumentou o número de células vermelhas do sangue em seu corpo. Essa mutação aumentou a capacidade do atleta para o exercício aeróbico. Uma versão sintética que simula os efeitos dessa mutação é atualmente usada para tratar a anemia, mas também têm sido usada por atletas para aumentar sua resistência. Por exemplo, no Tour de France de 1998, um time foi expulso da corrida e dois ciclistas de topo admitiram tomar o medicamento. Caso fosse possível hoje provocar uma mutação genética semelhante, os atletas poderiam usar para aumentar sua resistência sem que fossem pegos em testes antidoping.

Preocupações éticas

E aqui entra a filosofia nessa história que até então envolveu apenas a ciência: até que ponto é certo usar a ciência para promover o melhoramento humano? Quais valores morais estão em jogo na nossa escolha por fazer isso ou não?

Quer ir mais a fundo nessa questão? Publicamos um aqui um artigo de Michael Selgelid, diretor do Centro de Bioética Humana da Universidade Monash, em Melbourne, cujo título é Uma abordagem moderada para o melhoramento genético. E também um texto que sintetiza alguns dos principais argumentos de Michael Sandel e Frances M. Kamm, dois filósofos reconhecidos mundialmente no debate sobre esse tema: Melhoramento genético – argumentos a favor e contra.