Russel e o subjetivismo moral

Como vimos nos dois últimos capítulos, as pessoas que ressaltam a insuficiência da ciência, apelam para o fato de que a ciência nada pode afirmar sobre “valores”. Posso admitir isso, mas quando se conclui que a ética contém verdades que não podem ser provadas ou desaprovadas pela ciência, não posso concordar. Não é fácil considerar claramente esta questão e meus próprios pontos de vista de hoje são muito diferentes daqueles de trinta anos atrás. Entretanto, é necessário que esclareçamos este assunto se desejamos apreciar os argumentos que favorecem a Proposta Cósmica. Como não há consenso sobre a ética, deve ficar entendido que o que se segue é minha opinião pessoal, e não um veredito definitivo da ciência.

O estudo da ética, tradicionalmente, consiste de duas partes, uma relacionada a regras morais e a outra que trata do que lhe é benévolo. Regras de conduta, muitas com origem ritualística, desempenham um grande papel nas vidas dos selvagens e pessoas primitivas. Os comportamentos dos seres humanos em certas etapas do desenvolvimento podem ser aceitáveis, como por exemplo, não permitir que se toque na comida de um líder, mexer com uma criança no momento em que esteja sendo amamentada pela mãe, ou oferecer sacrifícios aos deuses. Outras regras morais, tais como a proibição do assassinato ou roubo, têm uma utilidade social mais óbvia e sobrevivem à decadência dos sistemas teológicos primitivos com quais estavam associados em sua origem. Contudo, à medida que o homem se torna mais reflexivo, tende a dar mais ênfase aos estados da mente em detrimento às regras. Isso se origina de duas fontes — filosofia e religião mística. Estamos familiarizados com as passagens dos Profetas e dos Evangelhos, em que a pureza de coração é colocada acima da observância meticulosa da Lei; o famoso louvor de caridade de São Paulo, ou o amor, ensinam este mesmo princípio. Tudo isso será encontrado em todos os grandes místicos, cristãos e não cristãos: valorizam um estado da mente, fora da qual, eles defendem, a conduta correta deve continuar; para eles as regras são aparentemente externas e insuficientemente adaptáveis às circunstâncias.

Um dos meios, em que não houve necessidade de apelar para as regras externas de conduta, foi a crença na “consciência”, especialmente importante na ética protestante. A suposição de que Deus revelaria ao coração de cada humano tanto o benévolo quanto o maléfico, impediria o pecado, portanto deveríamos apenas ouvir a voz interior. Entretanto, há duas dificuldades nesta teoria: primeiro, que a consciência revela coisas diferentes a pessoas diferentes; segundo, que o estudo do inconsciente nos supriu de uma compreensão das causas mundanas de nossos sentimentos conscientes.

Com relação às diferentes expressões de consciência: a consciência de George III lhe disse que ele não deveria conceder a Emancipação Católica, pois se assim o fizesse, cometeria perjúrio ao fazer o Juramento da Coroação.  No entanto, mais tarde, outros monarcas não tiveram esse escrúpulo. A consciência leva algumas pessoas a condenar a exploração dos ricos pelos pobres, como defendido pelos comunistas; e outros a condenar a exploração dos pobres pelos ricos, como praticado pelos capitalistas. Esta mesma consciência ordena ao homem que defenda seu país em caso de invasão, ao mesmo tempo em que adverte outro homem sobre o mal da guerra. Durante a Guerra, algumas autoridades que haviam estudado ética, descobriram que a consciência é muito confusa, e que leva a algumas decisões curiosas, tais como a de que um homem pode ter escrúpulos conscientes contra a guerra, mas não contra o trabalho do serviço militar de outro homem. Defendem ainda que, se um tipo de consciência desaprova qualquer tipo de guerra, contrariando esta posição extrema, também não desaprova qualquer guerra que esteja acontecendo. Aqueles que, por quaisquer razões, não aprovavam a guerra, foram compelidos a afirmar suas posições em termos desta concepção de “consciência” um tanto quanto primitiva e não científica.

A diversidade das expressões da consciência é presumível quando se entende sua origem. No início da juventude, certos tipos de ações recebem aprovação, enquanto outros tipos não; e através do processo normal de associação, o prazer e o desconforto gradualmente se associam às ações, e não meramente à aprovação e desaprovação respectivamente produzidas por eles. A medida que o tempo passa, podemos esquecer tudo sobre nosso treinamento moral inicial, mas ainda assim nos sentirmos desconfortáveis sobre certos tipos de ações, enquanto outras podem nos dar a plenitude da virtude. Na introspecção, esses sentimentos são misteriosos, uma vez que já não lembramos mais das circunstâncias que originalmente os causaram; sendo, portanto natural atribuir a eles a voz de Deus em nosso íntimo. Mas de fato a consciência é um produto da educação, e pode ser treinada para aprovar ou desaprovar, em grande parte da humanidade, como os educadores acharem mais apropriado. Assim, enquanto haja o legítimo desejo de liberar a ética das regras morais externas, isso dificilmente pode ser satisfatoriamente alcançado através da noção de “consciência”.

Os filósofos, por outros meios, chegaram a uma posição diferente na qual, também, as regras morais de conduta têm um lugar subordinado. Estabeleceram o conceito de Bem, significando (a grosso modo) aquilo que, em si e à parte de suas consequências, desejamos que exista — se fôssemos teístas, seria aquilo o que fosse agradável a Deus. A maioria concordaria que felicidade é preferível à infelicidade, amizade à inimizade, e assim por diante. De acordo com este ponto de vista, as regras morais seriam justificadas se promovessem a existência daquilo que fosse essencialmente bom, e não por outras razões. A proibição do assassinato, na grande maioria dos casos, pode ser justificada por seus efeitos, mas não a prática de queimar viúvas na pira funeral de seus maridos. A regra anterior, portanto, deve ser preservada, mas não esta última. Até mesmo as mais perfeitas regras morais, entretanto, terão algumas exceções, uma vez que nenhuma classe de ações sempre produz maus resultados. Temos, portanto três sentidos diferentes nos quais um ato pode ser eticamente louvável: (1) pode estar de acordo com o código moral recebido; (2) pode ter sido sinceramente planejado para produzir bons efeitos; (3) e pode de fato produzir bons efeitos. Este terceiro sentido, no entanto, é geralmente considerado inadmissível para a moral. De acordo com a teologia ortodoxa, o ato de Judas Iscariotes resultou em boas consequências, pois foi necessário para a Expiação; embora não tenha sido louvável, sob este aspecto.

Diferentes filósofos formaram concepções distintas do Bem. Alguns defendem que consiste do conhecimento e do amor de Deus; outros, do amor universal; outros, da contemplação da beleza; e outros ainda, do prazer. Uma vez definido o Bem, há o desenvolvimento do restante da ética: devemos agir de acordo com o que acreditamos haver maior probabilidade de produzir o maior bem possível, e o menor possível de seu correlativo mal. A estruturação de regras morais, supondo que se conheça o Bem definitivo, é um assunto para a ciência. Por exemplo: a pena de morte deveria ser aplicada ao roubo, apenas ao assassinato, ou não deveria ser aplicada de forma alguma? Jeremy Bentham, que considerava o prazer como sendo o Bem, dedicou-se a investigar qual código criminal promoveria prazer, e concluiu que deveria ser muito menos severo face aos códigos vigentes de sua época. Tudo isso, exceto a proposição de que o prazer é o Bem, vem de dentro da esfera da ciência.

Porém, é bastante difícil definir “o Bem”. A crença de Bentham de que o prazer é o Bem levantou oposições furiosas, considerada “pig’s philosophy” NT Nem ele, nem seus oponentes puderam levantar quaisquer argumentos. Em questão científica, a evidência pode ser exemplificada nos dois lados, e por fim um lado é visto como o melhor — ou, não ocorrendo isso, a questão é considerada como não-decidida. Mas quanto à questão de isso ou aquilo ser o Bem definitivo, não há evidência em nenhum dos lados; cada um que entre nesta discussão pode somente apelar para suas próprias emoções, e empregar estes mecanismos retóricos de modo a incitar emoções similares nos outros.

Considere, por exemplo, uma questão importante em termos práticos. Bentham defende que o prazer de um homem tem a mesma importância ética que o prazer de outro homem, contanto que sejam em quantidades iguais; e baseado nisto, ele estaria inclinado a defender a democracia. Nietzsche, ao contrário, defende que apenas um grande homem pode ser considerado importante por sua própria competência, e que as massas da humanidade são apenas os meios para seu bem-estar. Ele considerava os homens comuns da mesma forma que muitas pessoas consideram os animais: seria justificável fazer uso deles, não para seu próprio bem, mas para o bem do super-homem, e esta visão vem sendo adotada desde então para justificar o abandono da democracia. Aqui temos uma controvérsia acentuada de grande importância prática, contudo não temos absolutamente nenhum meio que seja científico ou intelectual para persuadir quaisquer uma das partes de que a outra esteja certa. Na verdade, há meios de alterar as opiniões dos homens sobre estes assuntos, porém, serão todos emocionais e não intelectuais.

Questões que envolvam “valores”, ou seja, o bem e o mal, independentemente de seus efeitos — estão fora do domínio da ciência, como os defensores da religião enfaticamente declaram. Acredito que estejam corretos neste aspecto, mas faço disso uma conclusão posterior, que eles mesmos não fazem, de que “valores” estão completamente fora do domínio do conhecimento. Isso quer dizer que, quando afirmamos que isso ou aquilo tem “valor”, estamos expressando nossas emoções, e não um fato que poderia variar caso nossos sentimentos pessoais fossem diferentes. Para esclarecer esse ponto, devemos tentar analisar a concepção do Bem.

É óbvio que, inicialmente, toda a idéia de bem e mal possui alguma conexão com o desejo. A primeira vista, qualquer coisa que desejássemos simbolizaria algo “bom”, e qualquer coisa que temêssemos representaria o “mal”. Se houvesse concordância em nossos desejos, a questão poderia ser deixada de lado, mas infelizmente nossos desejos são conflitantes. Se digo “o que eu quero é bom”, meu vizinho iria dizer, “Não, o que eu quero é que é bom”. Penso que a ética seja uma tentativa — embora não bem sucedida — de sair dessa subjetividade. Naturalmente, devo tentar mostrar, na discussão com meu vizinho, que meus desejos possuem qualidades que os fazem mais dignos de respeito do que os dele. Por exemplo, se eu quisesse preservar meu direito de ir e vir poderia agradar os habitantes que não tivessem propriedades no meu bairro; mas ele, por outro lado, poderia agradar os proprietários das terras. Eu diria então: “Qual seria a utilidade da beleza do campo se ninguém a vê?” e ele responderia: “Que beleza restaria se permitissem aos viajantes espalhar a devastação?” Cada pessoa tenta conquistar aliados na demonstração de que seus próprios desejos se harmonizem com os de outras pessoas. Quando isso é obviamente impossível, como no caso de um ladrão, ele é condenado pela opinião pública, e seu status ético é o de um pecador.

Assim, a ética está intimamente relacionada à política: é uma tentativa de fazer com que os desejos coletivos de um grupo tenham influência sobre os indivíduos; ou, inversamente, uma tentativa de um indivíduo em fazer com que seus desejos se tornem os desejos desse grupo. Este último só seria possível, é claro, se os desejos do indivíduo não fossem muito opostos ao interesse geral: dificilmente o ladrão tentará convencer as pessoas que lhes está fazendo o bem, embora os plutocratas também o façam e frequentemente obtêm êxito. Quando nossos desejos estão voltados para o benefício comum, não parece inconveniente esperar que os outros os aceitem; portanto, o filósofo que valoriza a Verdade, a Bondade e a Beleza aparentemente expressa, em seu ponto de vista, não apenas seus próprios desejos, mas aponta o caminho para a prosperidade de toda a humanidade. Ao contrário do ladrão, é capaz de acreditar que seus desejos estejam voltados para algo que possua valor em sentido impessoal.

A ética é uma tentativa de conferir importância universal a alguns de nossos desejos, e não apenas os pessoais. Digo “alguns” de nossos desejos, porque em relação a alguns deles isso é obviamente impossível, como vimos no caso do ladrão. O homem que ganha dinheiro na Bolsa de Valores por meios duvidosos, não deseja que todos sejam informados disto: para ele a Verdade (até onde ele a valoriza) é uma posse privada, e não um bem geral humano, como seria para o filósofo. O filósofo pode, é verdade, descer ao nível do especulador da bolsa no momento em que ele reivindica prioridade para uma descoberta. Mas isso é um lapso: em sua capacidade puramente filosófica, quer apenas desfrutar da contemplação da Verdade, não interferindo nas ações de outros que desejam fazer o mesmo.

Pode-se tentar atribuir uma importância universal aos nossos desejos — este é o trabalho da ética a partir de dois pontos de vista, tanto do legislador, quanto do pregador. Vamos considerar primeiramente o ponto de vista do legislador.

Para fins de argumentação, suponhamos que o legislador não possua interesse pessoal no caso. Ou seja, quando reconhece um de seus desejos relacionados apenas com seu próprio bem-estar, não deixa que isso o influencie na estruturação das leis; por exemplo, seu código não está projetado para aumentar sua fortuna pessoal.  Porém, ele possui outros desejos que aparentemente são impessoais. Pode acreditar, por exemplo, em uma hierarquia organizada desde o rei até o camponês, ou do minerador até um operário negro contratado. Pode acreditar que as mulheres devam ser submissas aos homens. Pode defender que a difusão do conhecimento em classes mais baixas é perigosa e assim por diante. Dessa forma, ele construirá se puder seu código que conduziria à promoção dos fins valorizados por ele, o que estará de acordo, sempre que possível, com seu próprio interesse individual; e assim ele estabelecerá um sistema de instruções morais que, caso funcione, fará com que os homens se sintam desconfortáveis se perseguirem outras propostas que não sejam as suas. Portanto, na verdade a “virtude” será, embora não na avaliação subjetiva, a subserviência aos desejos do legislador, até onde ele próprio considera esses desejos dignos de serem universalizados.

O ponto de vista e o método do pregador são necessariamente diferentes, já que não controlam a máquina do Estado e, portanto, não podem produzir uma harmonia artificial entre seus desejos e os de outras pessoas. Seu método só pode tentar incitar outras pessoas aos mesmos desejos que ele sente em si, e para esta proposta seu apelo deve ser para as emoções. Assim, Ruskin fez com que as pessoas gostassem da arquitetura gótica, não com argumentos, mas através do efeito de movimento de sua prosa rítmica. Uncle’s Tom Cabin (A Cabana do Pai Tomás) ajudou a fazer com que as pessoas desaprovassem a escravidão, fazendo com que elas se imaginassem escravas. Cada tentativa para persuadir as pessoas que alguma coisa seja boa (ou má) em si mesma, e não meramente em seus efeitos, depende da arte de incitar sentimentos e não do apelo à evidência. Em cada caso, a habilidade do pregador consiste em criar em outras pessoas emoções similares às suas — ou diferentes, caso ele seja hipócrita. Não quero dizer que isso seja uma crítica ao pregador, mas sim uma análise deste aspecto essencial de sua atividade.

Quando um homem diz “isso é bom”, ele parece estar fazendo uma afirmação, assim como se fosse dizer “isso é quadrado” ou “isso é doce”. Acredito que seja um erro. Creio que aquilo que o homem realmente tenha desejado dizer seria: “Desejo que todos desejem isso”, ou até “Gostaria que todos desejassem isso”. Se o que ele diz for interpretado como uma afirmação, ela é meramente uma confirmação de seu próprio desejo pessoal; por outro lado, se for interpretado de uma maneira geral, não afirma nada, mas simplesmente deseja alguma coisa. Este desejo, como ocorrência, é pessoal, mas aquilo que ele deseja é universal. Penso que isto tenha sido a curiosa interconexão do particular e do universal, que provocou muita confusão na ética.

Talvez, o problema possa ser esclarecido contrastando uma sentença ética com uma que faz uma declaração.  Se eu disser “todos os chineses são budistas”, posso ser contestado pela atuação de um chinês cristão ou muçulmano. Se eu disser “acredito que todos os chineses são budistas”, não posso ser contestado por nenhuma evidência com relação à China, mas apenas pela evidência de que eu não acredito no que disse; pois o que estou afirmando é algo sobre meu próprio estado mental. Agora, se um filósofo diz: “a Beleza é boa”, posso interpretá-lo como “queria que todos amassem a beleza” (correspondendo a “todos os chineses são budistas”) ou como “desejo que todos amem a beleza (correspondendo a “acredito que todos os chineses são budistas”). A primeira das sentenças não faz nenhuma afirmação, mas expressa um desejo; uma vez que não afirma nada, é logicamente impossível que deva existir alguma evidência contra ou a favor, ou que ela possua verdade ou falsidade. A segunda sentença, ao invés de ser meramente optativa, de fato faz uma declaração, mas sobre o estado mental do filósofo, e só pode ser contestada pela evidência de que ele não tem o desejo de dizer o que disse. Esta segunda sentença não pertence à ética, mas à psicologia ou à biografia. A primeira sentença, que de fato pertence à ética, expressa um desejo por algo, mas não afirma nada.

Se a análise acima estiver correta, a ética não compreende nenhuma afirmativa, seja ela falsa ou verdadeira, mas consiste de desejos de um tipo geral, tais como aqueles relacionados aos desejos da humanidade em geral — e dos deuses, anjos e demônios. A ciência pode discutir as causas dos desejos e os meios para realizá-los, mas não pode incluir sentenças genuinamente éticas, porque está relacionada com o que é verdadeiro ou falso.

A teoria que venho defendendo é uma forma da doutrina chamada de “subjetividade” de valores. A doutrina consiste em manter aquilo em que, se dois homens diferem em relação aos valores, não há um desacordo de qualquer tipo em relação à verdade, mas uma diferença de preferência. Se um homem diz: “as ostras são boas” e outro diz “acho que são ruins”, podemos reconhecer que não existe nada a ser discutido. A teoria em questão sustenta que todas as diferenças em relação aos valores são desta espécie, embora naturalmente não pensássemos assim se estivéssemos tratando de assuntos aparentemente mais elevados do que ostras. A principal base para a adoção deste ponto de vista é a completa impossibilidade de se encontrar quaisquer argumentos para provar que isso ou aquilo possui um valor intrínseco. Caso concordássemos, poderíamos dizer que temos valores por intuição. Não podemos provar, para um homem daltônico, que a grama é verde e não vermelha. Porém, há muitas maneiras de provar a ele sua incapacidade de discriminar as cores e que a maioria dos homens possui, enquanto que no caso dos valores estes meios não existem, e os desacordos são muito mais frequentes do que no caso das cores. Uma vez que não se tem meios para decidir uma diferença com relação a valores, a conclusão se impõe como sendo uma diferença de preferências, e não uma diferença relacionada a qualquer verdade objetiva.

As consequências desta doutrina são consideráveis.

Em primeiro lugar, não pode haver “pecado” em qualquer sentido absoluto; o que um homem denomina de “pecado” , outro homem pode chamar de “virtude”, e  embora possa haver antipatia de um com o outro em relação a essa diferença, nenhum deles pode convencer o   outro de possível erro intelectual. A punição não pode ser justificada com base na afirmação de que um criminoso seja “perverso”, mas apenas baseada no fato de que ele se comporta de uma maneira que os outros não aprovam.  O inferno, como um local de punição para os pecadores, torna-se bastante irracional.

Em segundo lugar, é impossível sustentar uma maneira de falar sobre valores, o que é comum entre os que acreditam na Proposta Cósmica. Valem-se de que certas coisas que evoluíram são “boas” e, portanto, o mundo deve ter tido uma excelente proposta do ponto de vista ético. Na linguagem dos valores subjetivos, este argumento se transforma em: “Algumas coisas no mundo são de nossa preferência, e assim elas devem ter sido criadas por um Ser cujo gosto se parece com o nosso, de Quem, portanto, também gostamos e Quem, consequentemente é bom.” Agora parece bastante evidente que, se as criaturas com gosto e desgosto realmente existissem, elas teriam bastante certeza de gostar de algumas coisas em seu ambiente, já que caso contrário, considerariam a vida intolerável. Nossos valores evoluíram juntamente com o restante de nossa constituição, portanto nada semelhante a qualquer proposta original pode ser concluído, partindo do princípio de serem o que são.

Aqueles que acreditam em valores “objetivos” em geral afirmam que o ponto de vista que tenho defendido tem consequências imorais, A mim, isso parece ser decorrente da falta de raciocínio. Como já foi dito, existem certas consequências éticas na doutrina dos valores subjetivos, dentre as quais a mais importante seria a rejeição da punição vingativa e da noção de “pecado”. Contudo, geralmente as mais temidas consequências, como a decadência de todo o sentido de obrigação moral, não devem ser logicamente concluídas. A obrigação moral, se destinada a influenciar a conduta, não deve consistir meramente de uma crença, mas de um desejo. As pessoas podem dizer, que o desejo é o desejo de ser “bom” num sentido que não posso aceitar. Mas quando analisamos o desejo de ser “bom”, geralmente isto se transforma em um desejo de ser aprovado, ou, alternativamente, a agir de modo a provocar certas consequências desejáveis. Temos desejos que não são puramente pessoais, e, se não os tivéssemos, nenhuma quantidade de ensinamento ético influenciaria nossa conduta, exceto através do medo da desaprovação. O tipo de vida que a maioria de nós admira é aquele guiado por muitos desejos impessoais; estes desejos podem sem dúvida ser encorajados por exemplos, educação e conhecimento, mas dificilmente podem ser criados pela simples crença abstrata de que sejam bons, e nem podem ser desencorajados por uma análise do que significa a palavra “bom”.

Quando contemplamos a raça humana, podemos desejar que seja feliz, saudável, inteligente, guerreira, e assim por diante. Todos esses desejos, quando suficientemente fortes, produzirão sua própria moralidade; todavia, se não tivermos estes desejos, nossa conduta, independentemente da ética que tenhamos, só poderá servir às propostas sociais se o interesse pessoal e os interesses da sociedade estiverem em harmonia. O trabalho das instituições que possuem bom discernimento seria criar esta harmonia o máximo possível, e quanto ao resto, qualquer que seja nossa definição teórica de valor, devemos depender da existência de desejos impessoais.

Ao encontrar um homem com quem se tenha um desacordo ético fundamental —, por exemplo, para você, todo o homem tem igual importância, mas ele considera somente uma classe como a mais importante   perceberá que será melhor não confrontá-lo em seus valores. Em qualquer caso, você somente poderá influenciar sua conduta através da influência de seus desejos: se conseguir, a ética dele mudará, caso contrário, não haverá nenhuma mudança.

Algumas pessoas sentem que se um desejo geral, digamos, a felicidade da humanidade, não tem a aprovação do bem absoluto, ele é de alguma forma irracional. Isso é decorrente de uma crença persistente nos valores objetivos. Um desejo não pode, em si, ser racional ou irracional. Pode conflitar com outros desejos e assim levar à infelicidade; pode levantar oposição em outros e assim ser incapaz de gratificação, mas não pode ser considerado “irracional” simplesmente porque não há nenhuma razão para senti-lo. Podemos desejar A porque é um meio para se chegar em B, mas por fim, quando lidamos com simples meios, devemos chegar a algo que desejamos por nenhuma razão aparente, mas não “irracionalmente”  Todos os sistemas da ética incorporam os desejos daqueles que os defendem, mas este fato está oculto em uma névoa de palavras. Nossos desejos são, na verdade, mais gerais e menos meramente egoístas do que muitos moralistas imaginam; se não fosse assim, nenhuma teoria da ética faria com que o aprimoramento moral fosse possível. De fato, não é através da teoria ética, mas sim através do cultivo de desejos plenos e generosos de inteligência, felicidade e liberdade sem medo, que os homens podem ser compelidos a agir mais do que fazem no presente, de uma maneira que seja consistente com a felicidade geral da humanidade. Independentemente de nossa definição de “Bem” e do fato de acreditarmos nisso como sendo subjetivo ou objetivo, aqueles que não desejam a felicidade da humanidade, não lutarão para isso, enquanto que aqueles que desejam essa felicidade farão o que lhes for possível para consegui-la.

Minha conclusão é que, enquanto é verdade que a ciência não pode decidir sobre questões relacionadas a valores, isso ocorre devido ao fato destas questões não poderem ser decididas, de modo algum, intelectualmente, pois estão fora do domínio de verdade ou falsidade. Qualquer conhecimento que possa ser atingido, deve ser atingido através de métodos científicos; e o que a ciência não pode descobrir, a humanidade não pode conhecer.