CS Lewis e o argumento da moralidade

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25 de agosto de 2019 - 5 min leitura

Texto de Austin Cline

Um argumento muito popular entre os apologistas cristãos para defender a existência de deus, incluindo CS Lewis, é o argumento da moralidade. Segundo Lewis, a única moralidade válida que pode existir é a objetiva – todas as concepções subjetivas de moralidade levam à ruína. Além disso, uma autêntica moralidade objetiva deve ser fundamentada em uma realidade sobrenatural. Assim, ele também rejeita todas as concepções naturalistas de uma moralidade objetiva. Seu argumento é bem sucedido?

De acordo com o Argumento Moral, existe uma “consciência moral” humana universal que sugere semelhanças humanas básicas. Todos experimentam um senso interno de obrigação moral de fazer a coisa certa; Lewis afirma que a existência de uma “consciência moral” universal, consistente ao longo do tempo e das culturas, só pode ser explicada pela existência de um deus que nos criou. Além disso, Lewis insiste que as gerações anteriores tinham uma compreensão melhor da Lei Moral, por causa de sua maior concordância sobre o que constitui um comportamento moral e imoral.

Não é verdade, no entanto, que todos os seres humanos tenham uma consciência moral – alguns são diagnosticados sem ela e são rotulados como sociopatas ou psicopatas. Se os ignoramos como uma aberração, porém, ainda temos grandes diferenças de moralidade entre diferentes sociedades. CS Lewis afirmou que culturas diferentes tinham “morais apenas ligeiramente diferentes”, mas antropólogos e sociólogos só podem considerar tal afirmação com escárnio. Como estudante da história grega e romana, o próprio Lewis certamente sabia que sua alegação era falsa.

O pequeno acordo que existem entre diferentes culturas sobre o que é certo ou errado é uma base muito frágil para sustentar o argumento de Lewis, além disso essas semelhanças podem ser explicadas em termos evolucionistas. Pode-se argumentar, por exemplo, que nossa consciência moral foi selecionada evolutivamente, especialmente à luz do comportamento animal, que é sugestivo de uma “consciência moral” rudimentar. Os chimpanzés exibem o que parece ser medo e vergonha quando fazem algo que viola as regras do seu grupo. Deveríamos concluir que os chimpanzés temem a Deus? Ou é mais provável que tais sentimentos sejam naturais em animais sociais?

Mesmo se concedermos todas as falsas premissas de Lewis, elas não estabelecerão sua conclusão de que a moralidade é objetiva. A uniformidade de uma crença não prova que ela é verdadeira ou indica que ela tem uma fonte externa. O fato de que desejamos fazer coisas que sabemos estarem erradas é dado algum peso por Lewis, mas não está claro por que, porque isso também não requer que a moralidade seja objetiva.
Lewis não considera seriamente as teorias alternativas da moralidade – ele apenas examina duas delas e, mesmo assim, apenas as formulações mais fracas disponíveis. Ele evita cuidadosamente o envolvimento direto com argumentos mais poderosos e substanciais, seja contra a moralidade objetiva ou a favor da moralidade objetiva, que não estão relacionados com o sobrenatural. Há certamente questões legítimas a serem feitas sobre tais teorias, mas Lewis age como se as teorias nem existissem.

Finalmente, Lewis argumenta que os ateus se contradizem quando agem moralmente porque não têm base objetiva para a moralidade. Em vez disso, ele insiste que eles esquecem seu subjetivismo ético e agem como cristãos – que eles tomam emprestado da moralidade do cristianismo sem reconhecê-lo.

Nós ouvimos esse refrão de apologistas cristãos até hoje, mas é um falso argumento. Simplesmente não serve para alegar que alguém “realmente” não acredita no que diz por nenhuma outra razão a não ser contradizer as noções preconcebidas sobre o que é e o que não é plausível. Lewis se recusa a considerar a possibilidade de que o comportamento dos ateus é um sinal de que suas concepções de moralidade estão equivocadas.

Segundo Lewis, “uma crença dogmática no valor objetivo é necessária à própria ideia de uma regra que não é tirania ou uma obediência que não é escravidão”. Isso é polêmico, não um argumento porque Lewis não estabelece que seu tipo de dogmatismo é um pré-requisito para uma sociedade livre – se, de fato, qualquer dogmatismo for necessário.

O argumento de CS Lewis de que a existência de moralidade aponta para a existência de seu deus falha. Primeiro, não foi demonstrado que afirmações éticas só podem ser objetivas se você presumir o teísmo. Houve uma série de esforços para criar teorias naturalistas da ética que de modo algum dependem de deuses. Em segundo lugar, não foi demonstrado que leis morais ou propriedades éticas são absolutas e objetivas. Talvez eles sejam, mas isso não pode ser simplesmente assumido sem discussão.

Terceiro, e se a moral não for absoluta e objetiva? Isso não significa automaticamente que iremos ou deveremos cair na anarquia moral como resultado. Na melhor das hipóteses, talvez tenhamos uma razão prática para acreditar em um deus, independentemente do verdadeiro valor de verdade do teísmo. Isso não estabelece racionalmente a existência de um deus, que é o objetivo de Lewis.

CS Lewis e o argumento da moralidade. Filosofia na Escola, 2019. Disponível em: < https://filosofianaescola.com/moral/cs-lewis-e-o-argumento-da-moralidade/>. Acesso em: 25 de Jul. de 2021.

1 Comment

  1. Alguém disse:

    O texto está errado de tantas maneiras que é difícil até encontrar motivação pra escrever uma resposta. Minha única esperança é que quem se deparar com esse artigo não cometa as mesmas falhas do autor. Vamos lá, parágrafo por parágrafo:

    “Um argumento muito popular entre os apologistas cristãos para defender a existência de deus, incluindo CS Lewis, é o argumento da moralidade. Segundo Lewis, a única moralidade válida que pode existir é a objetiva – todas as concepções subjetivas de moralidade levam à ruína. Além disso, uma autêntica moralidade objetiva deve ser fundamentada em uma realidade sobrenatural. Assim, ele também rejeita todas as concepções naturalistas de uma moralidade objetiva. Seu argumento é bem sucedido?”

    O que o autor ignora aqui é que não são ‘apologistas cristãos’ que propõem o Argumento Moral, mas sim filósofos como Robert Adams e William Alston. Além disso, ele não representa o argumento de maneira coerente, já que um espantalho é mais fácil de ser derrubado. Uma formulação válida do argumento seria:

    1. Se Deus não existe, valores e obrigações morais objetivos não existem
    2. Valores e obrigações morais objetivos existem
    3. Portanto, Deus existe

    “De acordo com o Argumento Moral, existe uma “consciência moral” humana universal que sugere semelhanças humanas básicas. Todos experimentam um senso interno de obrigação moral de fazer a coisa certa; Lewis afirma que a existência de uma “consciência moral” universal, consistente ao longo do tempo e das culturas, só pode ser explicada pela existência de um deus que nos criou. Além disso, Lewis insiste que as gerações anteriores tinham uma compreensão melhor da Lei Moral, por causa de sua maior concordância sobre o que constitui um comportamento moral e imoral.”

    Uma leitura cuidadosa da formulação do Argumento Moral que eu apresentei já indica que o autor não faz ideia do que está falando aqui. O argumento trata da ONTOLOGIA, não da EPISTEMOLOGIA. Ou seja, não se trata de explicar a ‘consciência moral’ que os humanos compartilham, e sim dos valores morais em si. De fato, a existência de uma consciência moral pode ser explicada de inúmeras maneiras. No entanto, isso é irrelevante, já que estamos nos perguntando a origem dos valores em si, e não da nossa compreensão deles.

    “Não é verdade, no entanto, que todos os seres humanos tenham uma consciência moral – alguns são diagnosticados sem ela e são rotulados como sociopatas ou psicopatas. Se os ignoramos como uma aberração, porém, ainda temos grandes diferenças de moralidade entre diferentes sociedades. CS Lewis afirmou que culturas diferentes tinham “morais apenas ligeiramente diferentes”, mas antropólogos e sociólogos só podem considerar tal afirmação com escárnio. Como estudante da história grega e romana, o próprio Lewis certamente sabia que sua alegação era falsa.”

    Como já abordei, o que está em jogo não é o que as pessoas (ou sociedades) acreditam sobre a moralidade, e sim a existência de valores objetivos, que são verdadeiros independente das pessoas os aceitarem ou não. Há muita discordância sobre questões e problemas matemáticos, mas isso não significa que a matemática é subjetiva, apenas que nós não a compreendemos perfeitamente. Portanto, mais um espantalho.

    “O pequeno acordo que existem entre diferentes culturas sobre o que é certo ou errado é uma base muito frágil para sustentar o argumento de Lewis, além disso essas semelhanças podem ser explicadas em termos evolucionistas. Pode-se argumentar, por exemplo, que nossa consciência moral foi selecionada evolutivamente, especialmente à luz do comportamento animal, que é sugestivo de uma “consciência moral” rudimentar. Os chimpanzés exibem o que parece ser medo e vergonha quando fazem algo que viola as regras do seu grupo. Deveríamos concluir que os chimpanzés temem a Deus? Ou é mais provável que tais sentimentos sejam naturais em animais sociais?”

    Devemos concluir, querido autor, que a forma como adquirimos o conhecimento moral (seja por vias evolucionárias, seja por vias especiais) não é a base do Argumento Moral, já que a forma como se chega a aceitar uma premissa não diz nada sobre a veracidade da premissa em si. Portanto, a premissa ‘valores e obrigações morais objetivos existem’ não exige que a via evolucionária seja errada. Uma maneira de perceber isso é pensar na nossa visão: certamente nossa visão foi selecionada por mecanismos evolutivos, mas isso não significa que o mundo exterior é falso, muito menos subjetivo. Nossa memória também foi selecionada evolutivamente, mas isso não significa que o passado não aconteceu. O autor está tentando desviar a atenção do leitor e gradativamente convencê-lo de que a base do argumento é epistemológica, quando na verdade ela é ontológica.

    “Mesmo se concedermos todas as falsas premissas de Lewis, elas não estabelecerão sua conclusão de que a moralidade é objetiva. A uniformidade de uma crença não prova que ela é verdadeira ou indica que ela tem uma fonte externa. O fato de que desejamos fazer coisas que sabemos estarem erradas é dado algum peso por Lewis, mas não está claro por que, porque isso também não requer que a moralidade seja objetiva.
    Lewis não considera seriamente as teorias alternativas da moralidade – ele apenas examina duas delas e, mesmo assim, apenas as formulações mais fracas disponíveis. Ele evita cuidadosamente o envolvimento direto com argumentos mais poderosos e substanciais, seja contra a moralidade objetiva ou a favor da moralidade objetiva, que não estão relacionados com o sobrenatural. Há certamente questões legítimas a serem feitas sobre tais teorias, mas Lewis age como se as teorias nem existissem.”

    As premissas (alegadamente) falsas de Lewis realmente não estabelecem a objetividade da moralidade. Mas o motivo é simples: a objetividade da moralidade é uma PREMISSA do argumento moral, não sua conclusão. O argumento moral pretende estabelecer a existência de Deus, não a objetividade da moralidade, já que está é exatamente uma das premissas. No final do parágrafo o autor parte para o conspiracionismo barato, tentando retratar Lewis como um grande charlatão frio e calculista. Como esses ataques pessoais são irrelevantes para a discussão, não perderei tempo os respondendo.

    “Finalmente, Lewis argumenta que os ateus se contradizem quando agem moralmente porque não têm base objetiva para a moralidade. Em vez disso, ele insiste que eles esquecem seu subjetivismo ético e agem como cristãos – que eles tomam emprestado da moralidade do cristianismo sem reconhecê-lo.

    Nós ouvimos esse refrão de apologistas cristãos até hoje, mas é um falso argumento. Simplesmente não serve para alegar que alguém “realmente” não acredita no que diz por nenhuma outra razão a não ser contradizer as noções preconcebidas sobre o que é e o que não é plausível. Lewis se recusa a considerar a possibilidade de que o comportamento dos ateus é um sinal de que suas concepções de moralidade estão equivocadas.”

    O autor parece gostar do termo ‘apologista cristão’. Talvez porque seja mais fácil retratar seus oponentes como charlatões do que de fato responder aos argumentos deles. De qualquer forma, Lewis não chega nem perto de afirmar que ateus ‘se contradizem’. O que ele afirma é que o ATEÍSMO não apresenta nenhuma base possível para os valores morais objetivos, e dessa forma ateus que escolhem agir de maneira moral estão apenas seguindo regras arbitrárias e subjetivas. Isso não quer dizer que ateus devem ser imorais, pelo contrário, se padrões objetivos não existem então ninguém ‘deve’ ser nada, afinal o ‘imoral’ implica uma ordem que , na cosmovisão ateia, não pode existir.

    “Segundo Lewis, “uma crença dogmática no valor objetivo é necessária à própria ideia de uma regra que não é tirania ou uma obediência que não é escravidão”. Isso é polêmico, não um argumento porque Lewis não estabelece que seu tipo de dogmatismo é um pré-requisito para uma sociedade livre – se, de fato, qualquer dogmatismo for necessário.”

    O que Lewis argumenta é muito fácil de se perceber: se os valoreis morais não são objetivos, então as leis são apenas mera arbitrariedade dos seus formuladores, e sua imposição aos outros é mera tirania. Lewis não diz que o dogmatismo dele é necessário para uma sociedade livre, e sim que leis só fazem sentido (ou seja, não são tirânicas) se os valores impostos por elas são objetivos (ou seja, verdadeiros independente da opinião das pessoas).

    “O argumento de CS Lewis de que a existência de moralidade aponta para a existência de seu deus falha. Primeiro, não foi demonstrado que afirmações éticas só podem ser objetivas se você presumir o teísmo. Houve uma série de esforços para criar teorias naturalistas da ética que de modo algum dependem de deuses. Em segundo lugar, não foi demonstrado que leis morais ou propriedades éticas são absolutas e objetivas. Talvez eles sejam, mas isso não pode ser simplesmente assumido sem discussão.”

    Um valor moral indica a maneira como as coisas devem ser, e é extremamente difícil explicar como exatamente, numa visão de mundo materialista/naturalista, provocar certas reações físicas em determinada região de um amontoado de células bípede (vulgo, assassinato) iria contra a maneira como as coisas deveriam ser. Numa visão de mundo teísta, no entanto, é possível argumentar que assassinato é errado pois contraria a natureza de Deus, que é a realidade última. Portanto, valores objetivos só fazem sentido no teísmo. O autor também diz que a objetividade dos valores morais não pode ser assumida sem discussão. Ele ignora, portanto, que crenças morais são ideias apropriadamente básicas, ou seja, não precisam de prova. Outros exemplos de crenças apropriadamente básicas são a crença na realidade do passado, na realidade do mundo exterior e na existência de outras mentes.

    “Terceiro, e se a moral não for absoluta e objetiva? Isso não significa automaticamente que iremos ou deveremos cair na anarquia moral como resultado. Na melhor das hipóteses, talvez tenhamos uma razão prática para acreditar em um deus, independentemente do verdadeiro valor de verdade do teísmo. Isso não estabelece racionalmente a existência de um deus, que é o objetivo de Lewis”

    Se a moral não for absoluta e objetiva, então a anarquia moral só pode ser evitada com a tirania, como Lewis notou. Se matar não é errado de fato, então prender aqueles que matam é puramente arbitrário e tirânico.

    A conclusão é que o artigo todo é baseado na confusão entre epistemologia e ontologia, em exemplos irrelevantes (como a organização social de macacos) e em ataques pessoais (como usar ‘apologistas cristãos’ em vez de filósofos. Espero que isso tenha ajudado alguém a perceber a desonestidade e a ignorância expressas no texto.

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