Cotas raciais e divisão social

O Brasil ao longo do século XX lutou desesperadamente para extinguir a marca que o racismo do século XIX imprimiu sobre o nosso povo. Foi o modernismo que com todas as suas imperfeições lutou pela instituição de um outro paradigma no qual a “raça” não marcava indelevelmente os indivíduos.3 Mas o processo de implantação da reserva de vagas para negros nas universidades públicas culminou com o que foi instituído na UnB, colocando a nu aquilo que antes estava como oculto no mar de boas intenções que acompanha qualquer política pública cujo objetivo é diminuir iniqüidades.

Afinal, não era esse mesmo o objetivo dessa política? Construir uma classificação racial menos “ambígua”? O que salta aos olhos de qualquer observador mais atento ao que se passa no mundo é que as cotas raciais vieram para refazer o nosso sistema de classificação racial. Como instituir cotas raciais sem antes classificar rigidamente aqueles que têm direito e os que não têm? Todos os países que implantaram essa política ou já possuíam um sistema rígido de classificação racial ou tiveram que criá-lo.

O artigo de Maio e Santos descreve o processo que vivemos desde a Conferência de Durban, em 2001, mas que, como demonstraram Monteiro (2003) e Costa Pinto (1998), vem de longa data4 e que culminou com a criação da comissão na qual um antropólogo participa para classificar e definir a “raça” dos proponentes. Quem são os fraudadores? São os que utilizam o sistema brasileiro de identificação racial? Quem é mais discriminado? Aquele de pais ricos que têm a pele negra ou o que tem a pele clara e os pais pobres e nem tão pretos? Para não ser fraudador, o candidato tem que se identificar com a concepção de negro como está hoje nas estatísticas que medem as desigualdades raciais?5 A Comissão da UnB teve e terá (porque ainda está em vigor) que enfrentar o que está agora instituindo no Brasil, ou seja, o processo de reclassificação racial próprio das situações sociais que entronizam a “raça” com a pretensão de combater o racismo.

Digo que esse dilema está agora implantado no país porque, em recente pesquisa em escolas da rede pública do Estado do Rio de Janeiro, o dilema apareceu de forma muito nítida. Aplicamos um questionário para estudantes do primeiro ano do ensino médio. Era ainda um pré-teste. Entre as perguntas, havia uma que pedia aos estudantes que autoclassificassem em uma das categorias do Censo Demográfico. A pergunta, igual à formulada pelo IBGE, era a seguinte: Qual é sua cor/raça: ( ) branca ( ) preta ( ) parda ( ) amarela ( ) indígena.

Essa pergunta foi a que suscitou mais dúvidas e mais reação de todo o extenso questionário. A maioria dos estudantes não queria identificar-se em nenhuma das categorias. Alguns falaram e outros escreveram à margem da resposta fechada, raça humana. Outros riam e perguntavam aos colegas, qual a minha cor? Outros ainda falaram revoltados que essa pergunta estava errada porque não existem “raças” humanas.

No entanto, antes dessa pergunta havia outra que questionava sobre as cotas. Perguntados se já tinham ouvido falar de reserva de vagas para universidades públicas, 70% de estudantes entre 15 e 17 anos e no primeiro ano de ensino médio de uma pequena amostra de escolas da rede estadual em bairros muito diversificados do Estado do Rio de Janeiro disseram que sim. Perguntados se concordavam com as cotas para negros, 50% responderam que sim. Perguntados ainda se concordavam com as cotas para pobres, 75% concordavam. A maioria (72%) mostrou-se favorável a cotas para estudantes de escolas públicas. No geral, os estudantes estão mais de acordo com as cotas para pobres e para estudantes de escolas públicas, indicando que essas modalidades de reservas de vagas estão mais próximas de suas concepções de justiça distributiva. No entanto, 50% dos alunos concordaram com as cotas para negros, apesar de muitos deles terem manifestado seu desconforto diante da pergunta que exigia a auto-identificação em uma das categorias raciais segundo o IBGE.

Depois de discutir com esses estudantes e ler o artigo do Maio e Santos, fico me perguntando: será que aqueles que estão propondo e aplicando essa política de reserva de vagas para negros estão se dando conta do que isso significa em termos da construção ou reconstrução da noção de “raça” em nosso país? Se os estudantes dizem que “raça” não existe e que pertencem à raça humana, a partir de agora, com as cotas raciais, terão que abdicar desse pressuposto lógico para concordar com a política pública implantada. Não há como fugir do dilema. Ou você é contra a idéia de “raça” e concorda que pertence à raça humana ou você concorda que “raças” existem. Se elas existem e algumas são mais discriminadas que outras e merecem ou fazem jus, ou como justiça, há que se criar uma política especial para elas.

Os antropólogos estão no mesmo dilema dos estudantes entrevistados nas escolas públicas. Alguns (antropólogos) já decidiram que, para fazer justiça, faz-se necessário antes recriar a “raça” e marcar os indivíduos de forma definitiva. A pergunta que os autores do texto em debate se fazem é exatamente se há reflexão sobre o que significam as cotas raciais no plano da concepção mais ampla de humanidade. Tentamos, no Brasil, ao longo do século XX, construir uma sociedade na qual os indivíduos podiam transitar entre marcas ou até mesmo não se pensar a partir delas. O que essas políticas estão propondo é o fim dessa possibilidade e o início de uma marcação muito rígida de indivíduos, que não poderão mais dizer que, tão-somente, pertencem à raça humana. Maio e Santos fazem o alerta e, mais ainda, dizem que a moderna ciência genética respalda o que os brasileiros acreditavam e o que os estudantes dessas escolas reafirmaram. Não há “raças” humanas, mas raça humana. Sendo assim, um “tribunal” do tipo inaugurado na UnB só faz colocar a nu o que está por trás das cotas raciais, ou seja, o ideário racial que instaurou no mundo a separação e a marca que cria sociedades divididas.

Yvonne Maggie. Políticas de cotas e o vestibular da UnB ou a marca que cria sociedades divididas.