O mito das almas gêmeas de Platão

Escrito há 2400 anos atrás, o Banquete de Platão é um diálogo que apresenta uma das mais estranhas – e mais charmosas – explicações já inventadas de por que as pessoas se apaixonam. Platão coloca essa história na boca do dramaturgo Aristófanes, que aparece como personagem do livro .

Antes de nos voltarmos para o discurso estranho de Aristófanes, vamos preparar o cenário. Primeiro, estamos em um jantar. Homens atenienses ricos se reuniram, como sempre faziam, para beber vinho, comer, filosofar e flertar com mulheres e homens mais jovens. Nesta ocasião (fictícia), os convidados são dramaturgos, filósofos e inclui o professor de Platão, Sócrates. À medida que a noite avança, a conversa se volta para o significado do amor.

No mundo grego antigo, escritores e pensadores frequentemente viam o amor com suspeita porque pensa em que este despertava paixões que poderiam levar um homem a se tornar irresponsável, obsecado ou enlouquecer. Mas os convidados deste banquete procuram descobrir o que é louvável em relação ao amor. Um deles afirma que o amor torna os amantes corajosos, particularmente os soldados homossexuais que são amantes e servem um ao lado do outro no exército. Seu amor os torna mais valentes do que os demais soldados. Mais tarde, Sócrates sugere que aprender a amar é um passo em direção à descoberta do conhecimento filosófico.

Mas o discurso mais memorável da noite vem de Aristófanes. Depois de se recuperar de um acesso de soluço provocado por um empanturramento ou outro motivo, o dramaturgo inicia seu discurso. Em vez de um discurso intelectual, ele conta uma história, um mito sobre as origens do amor.

Aristófanes diz que no início do tempos os seres humanos tinham um formato totalmente diferente:

inteiriça era a forma de cada homem, com o dorso redondo, os flancos em círculo; quatro mãos ele tinha, e as pernas o mesmo tanto das mãos, dois rostos sobre um pescoço torneado, semelhantes em tudo; mas a cabeça sobre os dois rostos opostos um ao outro era uma só, e quatro orelhas, dois sexos, e tudo o mais como desses exemplos se poderia supor. E quanto ao seu andar, era também ereto como agora, em qualquer das duas direções que quisesse; mas quando se lançavam a uma rápida corrida, como os que cambalhotando e virando as pernas para cima fazem uma roda, do mesmo modo, apoiando-se nos seus oito membros de então, rapidamente eles se locomoviam em círculo.

Esses humanos estranhos e fundidos tinham três sexos, não os dois que temos hoje. Alguns eram do sexo masculino em suas duas metades; outros possuíam apenas o sexo feminino; e havia um último tipo, formado por uma metade feminina e a outra masculina. De acordo com esse mito, tais seres eram mais poderosos que as frágeis criaturas humanas de hoje. Aristófanes diz: “Terrível era o seu poder e força, e os pensamentos de seus corações eram grandes, e eles atacaram os deuses”.

Os deuses se reuniram para discutir como lidariam com tamanha ousadia. Vários sugeriram aniquilar totalmente os seres humanos. Mas Zeus disse que a humanidade precisava ser humilhada, não destruída. Os deuses então decidiram cortar os humanos em dois. “E se eles continuarem sendo insolentes e não ficarem quietos”, disse Zeus, “vou separá-los novamente e eles pularão em uma única perna.”

Os deuses partiram ao meio os humanos. E agora, nesta nova era de eus separados, as duas metades vagam pela face da terra procurando uma pela outra. Macho procurando macho, fêmea procurando fêmea, e macho e fêmea procurando um pelo outro – tudo faz parte da mesma história, de acordo com o dramaturgo. E encontrar essa outra parte original de você mesmo… Isso é amor. Como Aristófanes conclui,

Depois da divisão, as duas partes do homem, cada uma desejando a outra metade, juntaram-se e lançaram os braços umas sobre as outras, entrelaçando-se em abraços mútuos, ansiando por crescer em um.

Referência

Platão. Diálogos (Os pensadores). São Paulo: Nova Cultural, 1991.