Será que Platão permitiria Facebook em sua República?

O que Platão (428-348 a.C.) pensa sobre a Internet e as mídias sociais? Se a Internet existisse em seu tempo, aceitaria meu convite para ser seu “amigo” no Facebook? Quantos amigos ele teria? Será que ele permitiria que o Facebook e outras mídias sociais entrassem no estado ideal descrito na República?

Na República (escrita por volta de 380 a.C), Sócrates, falando por Platão, delibera com amigos sobre o quais leis e instituições são necessárias ser adotadas para a criação de um estado ideal. Para chegar a uma compreensão clara sobre o assunto, consideram a natureza da alma, o que é a justiça, a natureza do “bem”, o que é o conhecimento e como a verdade pode ser alcançada. Além disso, discutem como o estado deve ser dirigido para melhor alcançar a justiça e a harmonia política. Chegam à conclusão de que a República ideal deve ser constituída de três classes de cidadãos: o produtores, os guerreiros e os filósofos, que serão os governantes da sociedade.

Imaginemos que em 381 a.C Platão está pesquisando para escrever um livro sobre um Estado ideal e as mídias sociais já existem. Nossa pergunta é se ele permitiria que os cidadãos que os cidadãos de sua República tivessem acesso às mídias sociais, se apenas os governantes teriam acesso ou, de maneira mais radical, se seriam completamente banidas da sociedade.

Meus primeiros pensamentos são de que ele teria atacado o Facebook e todas as mídias sociais por (pelo menos) três razões, que eu irei ilustrar usando exemplos do texto da República. Esses razões são:

  1. A ideia, comum nas mídias sociais, de que uma opinião é tão boa quanto qualquer outra.
  2. A falta de identidade, propriedade e responsabilidade de seus usuários.
  3. As visões de Platão sobre a censura no funcionamento do Estado.

Relativismo

A primeira razão para Platão rejeitar as mídias sociais  a ideia, muito difundida nelas, de que uma opinião é tão boa quanto qualquer outra. No Livro VI da República, Sócrates e Glauco discutem o caráter dos guardiões que devem governar o estado ideal. Por causa de sua educação filosófica, os guardiões terão que entender a natureza da verdade e saber que ela vem da bondade. Platão sugere que, assim como a luz do sol nos permite ver as coisas físicas, a bondade nos permite ver a verdade (507b-509c). Mas esse conhecimento vem somente através do conhecimento filosófico, e é por isso que os governantes devem ser filósofos.

Platão pensa que a realidade última consiste em um conjunto de entidades abstratas imutáveis, com existência própria, chamadas de Formas (ou Ideias), das quais o nosso mundo físico é apenas um reflexo imperfeito. Além disso, Platão pensava que essa verdade incorporada nas Formas é absoluta, eterna e imutável, e o conhecimento delas leva a um nível de certeza só se esperaria encontrar na matemática e na geometria. Qualquer coisa mais duvidosa pertence ao mundo da aparência – o mundo dos sentidos – e, portanto, não poderia contar como conhecimento verdadeiro, mas apenas opinião.

E já que o Facebook é uma imitação da realidade observada através dos sentidos, não passa de cópia de uma cópia. Portanto, está duplamente afastado da realidade.

Poderia Platão estar errado sobre a verdade ser imutável e além das aparências das coisas? Hoje damos muito mais credibilidade à evidência de nossos sentidos. O método científico de observação e teste tornou-se um processo respeitável para estabelecer a verdade e a falsidade. Podemos ridicularizar alguém que errou ou escolheu ignorar evidências empíricas. É por isso que a afirmação da conselheira de Donald Trump, Kellyanne Conway, de que existem “fatos alternativos” é ao mesmo tempo divertida e um pouco assustadora. Pelo contrário, alguns cidadãos simplesmente não querem “ver”.

Embora a visão de Platão possa parecer um pouco extrema, ele não está negando que confiar em nossos sentidos é necessário para a vida. No entanto, nossos sentidos sozinhos não são suficientes para o conhecimento completo, e nós temos que usar matemática e lógica para obter isso. Para dar um exemplo literalmente mundano, o Sol gira em torno da Terra? Certamente parece que sim, enquanto observo o sol se movendo no céu sobre o meu jardim enquanto o dia avança. Mas os cientistas me dirão que, medida objetivamente, a Terra gira em torno do sol. Para saber disso, temos que recorrer, em última análise, à matemática. Similarmente, Platão está dizendo que nunca podemos ter completo conhecimento de qualquer coisa sem referência às Formas, que existem em outro mundo e que só podem ser conhecidas através da razão. Assim, apenas os filósofos treinados para usar a razão para discernir as Formas são capazes de discernir a verdade última, inclusive do que é bom.

O filósofo Alfred North Whitehead disse uma vez que “A caracterização geral mais segura da tradição filosófica europeia é que consiste em uma série de notas de rodapé a Platão”. Whitehead estava se referindo ao fato de que as ideias de Platão foram influentes através do cristianismo até o atual pensamento filosófico e político. Infelizmente, algumas das grandes ideias de Platão estão agora fora de moda. Suas noções de verdade e do que constitui conhecimento foram em grande parte demolidas por setenta anos de pós-modernismo, e a informação é muitas vezes vista agora como uma série de narrativas em vez de uma série de fatos. Uma grande porcentagem da população obtém suas notícias através da mídia social sem verificações de autoridade ou autenticidade, e fica feliz em fazê-lo. Assim, Platão certamente se oporia ao Facebook e a outras mídias sociais, alegando que elas fornecem tanta informação falsa que seus cidadãos logo se corrompem.

Dito isso, em 14 de abril de 2017, o Facebook estabeleceu diretrizes para ajudar os leitores a julgar se as informações que lêem em seu site são verdadeiras ou falsas; se a informação que lêem é opinião, crença ou conhecimento; e se é um fato ou um juízo de valor. Platão teria ficado encantado com essa atenção e preocupação com o conhecimento dos cidadãos de sua República.

Prestação de contas

Em segundo lugar, Platão criticaria o Facebook por causa do anonimato e/ou da falta de responsabilidade que permite às pessoas.

A República (359a-360d) conta a história de Giges, um pastor que encontra um anel que ele logo descobre que o deixa invisível. Como em todos os bons contos de fada, ele o usa para matar o rei e seduzir a rainha.

A história é contada para ilustrar o que acontece quando as pessoas estão livres para agir anonimamente. Platão está sugerindo que, se pudéssemos nos tornar invisíveis, estaríamos muito mais inclinados a cometer atos ruins. Ele também mostra que o homem verdadeiramente bom não gostaria de ser agradecido ou elogiado por bons atos. Mas quantos de nós são virtuosos? Matthew Parris, em um artigo “O anonimato é a máscara que licencia o ódio” no Times de 26 de novembro de 2016, chegou a ponto de perguntar: “Suponha que a partir do anoitecer, por uma noite, cada um de nós poderia matar silenciosamente e a distância (vamos chamá-lo telecide) com total impunidade, com absolutamente nenhuma chance de ser identificado. Quantos milhões de mortes súbitas e não atribuíveis teriam ocorrido ao amanhecer?” Embora talvez eu não fosse tão longe, é certamente verdade que as pessoas nas mídias sociais expressam sua raiva com muito pouca ou nenhuma preocupação. Usando o Facebook e outras mídias sociais, certamente expressamos visões sobre os outros que não falaríamos cara a cara. Então, por essa razão, Platão certamente baniria as mídias sociais de sua República, uma vez que encoraja as pessoas a serem imorais, já que elas podem se safar de coisas que não fariam de outra maneira. Ele veria isso como incentivo ao ódio, o que poderia levar à ilegalidade.

Censura

Em terceiro lugar, há a questão da censura. O Facebook tem estado recentemente no noticiário por não censurar suficiente o discurso de ódio e fotografias indecentes, mesmo que tenha uma equipe de pessoas verificando e removendo postagens dessa natureza.

Platão teria aprovado esse tipo de atividade de censura. Nos livro III e X da República, ele defende a proibição de certos tipos de escrita, música e poesia, porque eles têm o potencial de corromper os cidadãos. Por um lado, o teatro, muito apreciado entre os atenienses contemporâneos de Platão, exalta as emoções das pessoas, levando à irracionalidade, que por sua vez encoraja a imoralidade. Há também a questão de que a arte é apenas uma imitação do mundo sensível, que não passa de aparência. De modo que a arte é essencialmente falsa e enganosa, e corromperá os cidadãos. Assim diz Platão, “a primeira coisa será estabelecer uma censura aos escritores de ficção” (377c). Platão afirma que toda ficção corrompe porque, por sua natureza, na melhor das hipóteses é escrita por autores que não têm conhecimento real do que estão falando (a realidade das Formas) e, na pior das hipóteses, é simplesmente mentirosa. As crianças devem ser protegidas da arte ruim porque está corrompe sua alma, então o estado que é responsável pela educação deve apenas permitir a arte que não corrompe (401b, 595a).

Isso significaria uma censura severa da Internet pelos guardiões. Assim, Platão aprovaria a tentativa do Facebook de censurar seu conteúdo, mas seria muito mais discriminador sobre o que cidadãos comuns poderiam postar. Visões políticas opostas a Platão seriam rapidamente removidas, e a maioria das discussões sobre as artes seria fortemente monitorada. E todos aqueles vídeos de gatinhos fofos seriam vistos como distraindo as pessoas de seus deveres. É claro que os guardiões verdadeiramente virtuosos não seriam corrompidos pelo que leriam no Facebook, e teriam que conhecer seus problemas para proteger as pessoas dele. Os guardiões devem ter acesso às artes, mas apenas para orientar outras pessoas menos capazes de lidar com as emoções intensas que a arte provoca.

Como Platão Poderia Usar o Facebook

Platão não se opunha totalmente a “desviar da verdade” desde que isso servisse aos seus propósitos, e ele poderia justificar uma mentira se, em sua opinião, fosse para o bem maior dos cidadãos. Assim, enquanto promove a honestidade, a justiça, a verdade e o conhecimento acima de tudo, tanto no estado quanto no indivíduo, ele também não é avesso a ocasionalmente enganar os cidadãos. Seus governantes guardiões, responsáveis ​​pela moralidade das ordens inferiores, devem estar dispostos a mentir quando é o melhor para a maioria dos cidadãos (389b).

Platão justifica a mentira duas vezes na República. Uma vez é quando acha que é defensável mentir para os guardiões quando eles estão sendo combinados para um casamento. Eles acreditam que são combinados por sorteio, mas na verdade a loteria foi manipulada para que os melhores guardiões masculinos se acasalem com as melhores guardiãs femininas (459e 460a). A segunda mentira – o que é chamado de “mentira nobre” – é usada para justificar a desigualdade nas condições sociais (Livro III, 414b-c). Embora Platão achasse que as pessoas nascem iguais, pensava que era melhor contar aos cidadãos que eles nasceram em um certo estrato da sociedade, e isso dita que trabalho eles farão, com quem se casarão e quão livres serão. Através dessa mentira, os cidadãos não questionarão seu modo de vida, cujo questionamento pode torná-los insatisfeitos. Isso garantirá eficiência e harmonia no estado.

Então, por essa razão, Platão pode usar o Facebook em seu estabelecimento de sua República. O anonimato que o Facebook (e a Internet como um todo) permite, significa que ele pode servir bem a Platão em sua distribuição de propaganda. Para isso, ele permitiria que as ordens inferiores da sociedade o usassem e faria propaganda “para o bem maior”. É claro que na concepção de Platão, os guardiões, como governantes do Estado, poderiam usar a Internet para disseminar informações falsas, se isso promovesse uma sociedade pacífica.

No entanto, o Facebook não tem a intenção de promover a moralidade, e não procura particularmente educar seus usuários, então acho que Platão teria desaprovado isso apenas por esse motivo.

Jenni Jenkins. Would Plato Allow Facebook In His Republic? [Tradução Nossa]

Jenni Jenkins é professora associada do Departamento de Educação Continuada e de Adultos da Universidade de Swansea, no País de Gales.

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