Sobre verdades e óvulos

Leia o texto abaixo e analise o processo argumentativo utilizado pelo autor. 

“O espermatozoide penetra no óvulo, ocorrendo a fecundação.” Frases semelhantes a essa são frequentemente encontradas em livros didáticos, sites na internet ou até mesmo em artigos científicos. E o que tem de errado nelas? Ora, é a ciência que diz ser assim, então deve ser, não? Bom… não necessariamente. Cientistas são pessoas, seres humanos, Homo sapiens e, como tais, possuem cultura, possuem contexto. Essa cultura influencia a forma de cada um ver o mundo e, portanto, de fazer ciência. Seguindo essa linha, os resultados das pesquisas científicas não são fatos verdadeiros e universais, mas sim interpretações que os cientistas fazem do mundo: elas dependem dos métodos de pesquisa utilizados, do contexto em que a pesquisa é feita, da história de vida dos cientistas, dos interesses da sociedade na pesquisa e por aí segue a enorme lista de influências. Pra exemplificar essa parcialidade da ciência, trago o tal exemplo da fecundação: “o espermatozoide penetra no óvulo”. Qualquer semelhança com “o pênis penetra na vagina” não é mera coincidência. Mais ainda, qualquer semelhança com os papéis sociais de homem-ativo-dominante e mulher-passiva-dominada não é absolutamente coincidência alguma.

Os óvulos são comumente descritos como passivos, imóveis. Os espermatozoides, por sua vez, costumam ser caracterizados como ativos e rápidos. Assim, cabe ao óvulo esperar a chegada e entrada dos espermatozoides, e estes sim realizam uma longa jornada, cheia de obstáculos a superar. Você pode ficar surpreso(a) em saber que estudos científicos mostraram que a força do flagelo (aquela cauda do espermatozoide, que permite que ele “nade”) não apenas é fraca demais para ajudá-lo a “penetrar” no óvulo, como move o espermatozoide mais significativamente para os lados, não para frente. Isso faz com que a tendência dos espermatozoides seja, não de entrar no óvulo, e sim de se afastar dele. Como ocorre a fecundação, então? Alguns cientistas descobriram que as superfícies do óvulo e do espermatozoide “grudam” uma na outra, impedindo que eles se afastem. Outros cientistas observaram, ainda, que os óvulos emitem finos “braços” de membrana (chamados microvilosidades) que envolvem os espermatozoides e os transportam para dentro dos óvulos. Ou seja, o espermatozoide, longe de penetrar ativamente no óvulo, é mais precisamente “puxado” pra dentro, o que torna a fecundação um processo com participação das duas partes envolvidas: feminina e masculina, numa interação mútua. E se você estiver pensando que nunca ouviu falar disso porque são estudos recentes, bom… eles são das décadas de 1970 e 1980.

Mas se o óvulo não é lá tãão passivo assim, porque ele continua sendo representado dessa maneira por todos os lados? Talvez porque, na nossa cultura, seja realmente muito difícil aceitarmos que feminino nem sempre significa passivo, e que essa é apenas uma construção social; que mulheres não são naturalmente passivas e homens naturalmente ativos, mas que nós somos criados desde pequenos para nos enquadrarmos nesses padrões de “feminino” e “masculino”, de forma que eles acabam virando “verdades”. Esse foi apenas um dentre tantos exemplos de como os conhecimentos científicos não são neutros, mas sim estão permeados de relações sociais e de poder, de estereótipos, culturas, contextos e parcialidades. Por isso, vamos olhá-los com mais cuidado, tentando perceber as visões que eles expressam, para além daquilo que é “biológico”, “físico” ou seja lá qual for o campo de estudo. A ciência é uma atividade social, e por isso é sempre influenciada pelas relações sociais dos sujeitos que a produzem.

Texto baseado em uma parte do artigo “The egg and the sperm: how science has constructed a romance based on stereotypical male-female roles”, de Emily Martin, 1991.

Questões para análise lógica do texto

  1. Qual é o tema do texto?
  2. Qual é o problema colocado pelo texto?
  3. Qual é a conclusão sustentada pelo autor?
  4. O que faz o autor em cada um dos parágrafos (coloca o problema, apresenta uma ideia contrária à sua, contra-argumenta, explica um conceito, apresenta uma tese, justifica uma tese)?
  5. Quais as premissas utilizadas pelo autor para sustentar a conclusão(tese)?
Respostas

  1. O tema do texto é a influência de preconceitos de gênero na ciência.
  2. O problema filosófico colocado pelo texto é se é possível conhecer de maneira objetiva a realidade ou se nosso conhecimento é sempre contaminado, de alguma forma, por nossos pré-julgamentos.
  3. A principal conclusão do texto é de que os resultados das pesquisas científicas são influenciados pelo contexto cultural, social e até mesmo da história de vida do cientista, ou seja, que a ciência não é totalmente imparcial e objetiva.
  4. No primeiro parágrafo o autor apresenta o problema que irá discutir em seu texto e a tese central, qual seja, a de que a ciência não produz conhecimento totalmente imparcial mais é influenciada por vários fatores, o que faz com que também erre.
    No segundo parágrafo o autor defende sua tese analisando um exemplo de teoria científica que foi influenciada por certa concepção de gênero. Trata-se da ideia de que o espermatozoide “penetra” o ovulo no momento da fecundação. Segundo o autor, essa ideia, segundo pesquisas nem tão recentes, não é verdadeira. O que explica sua persistência é o fato de que ela está de acordo com uma concepção tradicional de papeis de gênero, a mulher passiva-dominada e o homem ativo-dominante.
    E, por fim, no último parágrafo o autor reafirma sua conclusão, dizendo que “a ciência é uma atividade social, e por isso é sempre influenciada pelas relações sociais dos sujeitos que a produzem.”
  5. O autor usa como premissa para seu argumento a análise de um caso no qual, claramente, uma conclusão científica foi influenciada por uma concepção de papeis de gênero tradicional.

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