O argumento ontológico, como vimos, parte de dentro, do próprio conceito de Deus, para concluir que Deus existe. O argumento cosmológico faz o caminho inverso. Ele parte de fora, do mundo que nos rodeia, e pergunta: por que isso tudo existe?
Não se trata de um argumento único, mas de uma família de argumentos. O que os une é uma mesma estrutura geral: observar algo no mundo real, o fato de que as coisas se movem, de que existem, de que têm início, e concluir que esse algo exige uma explicação que vai além do próprio mundo.
A intuição por trás de todos eles é simples. Nada que observamos ao nosso redor parece existir por conta própria. Uma pedra não se coloca sozinha no caminho. Uma árvore não se planta sozinha. Um filho não nasce sem pais. Cada coisa que existe parece depender de outra coisa para existir. Mas se tudo depende de outra coisa, como essa cadeia começou?
É aí que o argumento cosmológico entra. Ele sustenta que a cadeia de dependências não pode ser infinita, que em algum ponto deve haver algo que não depende de mais nada, algo que existe por conta própria e que é a origem de tudo o mais. Esse algo, argumentam seus defensores, é Deus.
Diferentes filósofos desenvolveram essa ideia de formas distintas ao longo da história. Alguns partiram do movimento, outros da existência contingente das coisas, outros ainda da pergunta sobre por que existe algo em vez de nada. Cada uma dessas versões constitui um argumento cosmológico diferente, com suas próprias premissas e suas próprias vulnerabilidades.
Nesse texto, vamos explorar uma das versões mais conhecidas: a de Tomás de Aquino.
Tomás de Aquino
No século XIII, o filósofo e teólogo italiano Tomás de Aquino escreveu uma das obras mais ambiciosas da história da filosofia: a Suma Teológica. O projeto era imenso, uma sistematização completa do pensamento cristão à luz da razão filosófica. Aquino acreditava, como Anselmo antes dele, que fé e razão não se contradizem. Mas diferente de Anselmo, ele desconfiava de argumentos que tentavam provar a existência de Deus a partir do simples conceito de Deus. Para ele, o conhecimento humano começa pelos sentidos, pelo mundo observável, e é daí que qualquer prova séria deve partir.
É nesse espírito que ele desenvolve as cinco vias, cinco argumentos distintos para a existência de Deus, cada um partindo de um aspecto diferente do mundo: o movimento, a causalidade, a contingência, os graus de perfeição e a ordem do universo. Todas chegam à mesma conclusão, mas por caminhos diferentes.
Vamos nos concentrar na segunda via, o argumento a partir da causalidade. É a mais direta das cinco e a que melhor ilustra a estrutura geral do argumento cosmológico.
O argumento cosmológico a partir da causalidade
Aquino começa com uma observação simples, disponível a qualquer pessoa que olhe ao redor:
Encontramos, entre as coisas sensíveis, uma ordenação de causas eficientes, mas não encontramos — nem é possível encontrar — qualquer coisa que seja a causa eficiente de si mesma.1
Para entender esse trecho, vamos compreender melhor dois conceitos.
Coisas sensíveis são simplesmente as coisas que percebemos pelos sentidos: pedras, árvores, pessoas, planetas. Tudo aquilo que compõe o mundo observável ao nosso redor.
Todas essas coisas se relacionam por meio de causas eficientes — conceito que vem de Aristóteles, pensador grego do século IV a.C. a quem Aquino se referia simplesmente como "o Filósofo", tamanha era a autoridade que lhe atribuía. A causa eficiente é aquilo que produz uma coisa, o agente que a coloca em existência. O escultor é a causa eficiente da estátua. Os pais são a causa eficiente do filho. Em todos esses casos, a causa eficiente é algo externo à coisa produzida — algo que age sobre o mundo e gera um efeito.
Aquino vai além e mostra por que nenhuma coisa pode ser sua própria causa eficiente:
Isso porque se alguma coisa fosse a causa eficiente de si mesma, então seria anterior a si mesma — o que é impossível. 2
Para causar algo, você precisa existir antes desse algo. Se uma coisa fosse sua própria causa, ela teria que existir antes de si mesma para se produzir — o que é uma contradição. Nenhuma coisa pode ser anterior à sua própria existência.
Estabelecido isso, Aquino apresenta o núcleo do argumento:
Mas é impossível continuar até o infinito entre causas eficientes. Porque em todos os casos de causas eficientes ordenadas, a primeira é uma causa da intermediária e a intermediária é uma causa da última. 3
Imagine uma fila de dominós. O último dominó caiu porque o anterior o empurrou, que caiu porque o anterior o empurrou, e assim por diante. Mas se essa fila não tiver um primeiro dominó que iniciou o movimento, nenhum dos outros teria caído. A cadeia toda depende de um ponto de partida.

Aquino formaliza isso:
Mas quando uma causa é suprimida, seu efeito é suprimido. Assim, se não houvesse a primeira entre as causas eficientes, então não haveria também uma última ou uma intermediária. 4
Se você remover a causa, remove o efeito. Se não há primeiro dominó, não há movimento algum. Se não há causa primeira, não há nenhuma das causas intermediárias — e portanto não há nada do que observamos ao redor.
A conclusão surge naturalmente:
Mas se as causas eficientes continuassem até o infinito, não haveria uma primeira causa eficiente, e assim não haveria um último efeito nem qualquer causa intermediária eficiente — o que é obviamente falso. 5
Sabemos que existem efeitos — o mundo existe, as coisas ao nosso redor existem. Se uma cadeia infinita de causas tornasse isso impossível, então a cadeia não pode ser infinita.
Assim, é preciso pressupor alguma primeira causa eficiente — que todos chamam de Deus. 6
A primeira causa não pode ela mesma ter uma causa anterior — porque senão não seria a primeira. Ela existe por si mesma, sem depender de nada. É o ponto de origem de toda a cadeia. Isso, diz Aquino, é o que as pessoas chamam de Deus.
Referências
BRUCE, Michael; BARBONE, Steven (org.). Os 100 argumentos mais importantes da filosofia ocidental: uma introdução concisa sobre lógica, ética, metafísica, filosofia da religião, ciência, linguagem, epistemologia e muito mais. São Paulo: Cultrix, 2013.
HICK, John. Philosophy of religion. Englewood Cliffs: Prentice-Hall, 1990.