Como provar que algo existe?
Imagine que alguém te desafia: prove que essa cadeira existe.
Você provavelmente faria algo assim: apontaria para ela, bateria nela com a mão, pediria para a pessoa sentar. A prova é direta: você mostra a coisa, e quem duvida pode verificar por conta própria.
Agora imagine um desafio diferente: prove que Deus existe.
O problema é imediato. Você não pode apontar, bater, nem pedir para ninguém verificar por conta própria. Deus não é o tipo de coisa que aparece numa fotografia ou num experimento de laboratório. Então como se prova?
Filósofos tentaram responder a essa pergunta de muitas maneiras ao longo da história. Alguns partiram da existência do universo. Outros, da existência da moral. Outros ainda, da experiência religiosa.
Mas há uma resposta que chama atenção por ser diferente de todas as outras: em vez de olhar para fora — para o universo, para a história, para a experiência — ela olha para dentro. Para o próprio conceito de Deus.
O argumento diz, em resumo, o seguinte: basta entender direito o que Deus é para perceber que Deus tem que existir.
Isso parece estranho. Como uma definição pode provar que algo existe no mundo real? É exatamente essa a ideia do argumento ontológico.
Anselmo de Cantuária
No século XI, o monge italiano Anselmo escreveu um livro chamado Proslogion — palavra latina que significa discurso ou apelo. O título original era outro: Fides Quaerens Intellectum, que em português significa fé em busca de compreensão. O nome diz tudo sobre o que Anselmo estava tentando fazer.
O livro é escrito na forma de uma oração dirigida a Deus. Não é um tratado técnico, nem um manual. É um pensador conversando diretamente com aquilo que quer compreender. Esse gesto é típico da escolástica, movimento intelectual que dominou as universidades medievais e que acreditava que fé e razão não se contradizem. Os escolásticos usavam a filosofia para aprofundar a compreensão da fé. Anselmo é um dos seus fundadores.
Antes do Proslogion, Anselmo já havia escrito outro livro, o Monologion, no qual usava vários argumentos diferentes para provar a existência de Deus. Mas ele não ficou satisfeito. Passou a se perguntar se não seria possível encontrar
um único argumento que não exigisse nada mais para ser provado além de si mesmo, e que por si só bastasse para demonstrar que Deus realmente existe... e tudo o mais que acreditamos sobre a natureza divina. 1
O ponto de partida do argumento ontológico
O ponto de partida do argumento ontológico é, como dissemos, uma definição. Então, para entendê-lo, precisamos nos perguntar: o que significa Deus?
Pense no que a palavra "Deus" evoca. Não numa tradição específica, mas na ideia geral. Deus é eterno, onipotente, onisciente, perfeito. Essas características não são acidentais: elas fazem parte do que as pessoas querem dizer quando usam essa palavra. Um ser que pudesse ser superado por outro, que tivesse limitações, que pudesse errar poderia ser muita coisa, mas dificilmente seria chamado de Deus.
Anselmo parte dessa intuição e a formula com precisão: Deus é aquilo do qual nada maior pode ser pensado.
O que isso significa? Que qualquer perfeição que você consiga imaginar Deus a possui no grau máximo. E mais: que não existe, nem mesmo como ideia, algo que supere esse ser. Tente conceber algo maior. Você não consegue. Não porque sua imaginação seja limitada, mas porque a própria definição não permite. Se você conseguisse conceber algo maior, esse algo seria Deus, não o que você estava pensando antes.
É com essa definição em mãos que Anselmo vai construir seu argumento.
Primeira forma do argumento
Qualquer coisa pode existir de um de dois modos: só na mente, ou na mente e na realidade ao mesmo tempo. Um unicórnio existe na mente, você consegue imaginá-lo, descrevê-lo, mas não existe na realidade. Uma cadeira existe nos dois lugares: na mente e no mundo. Anselmo afirma que existir na realidade é maior do que existir só na mente. Um ser real é, nesse sentido, mais do que um ser meramente imaginado.

Partindo da definição que Anselmo estabeleceu, de que Deus é aquilo do qual nada maior pode ser pensado, suponha, por um momento, que esse ser existe só na mente. Se for assim, é possível conceber algo maior, o mesmo ser, mas existindo também na realidade. Afinal, existir na realidade é maior do que existir só como ideia.
Mas isso é uma contradição. Você estaria concebendo algo maior do que aquilo do qual nada maior pode ser pensado.
A única saída é abandonar a suposição inicial. O ser do qual nada maior pode ser pensado não pode existir só na mente. Ele existe também na realidade.
O próprio Anselmo formula assim o argumento no capítulo dois do Proslogion:
Se aquilo do qual nada maior pode ser pensado existe só na mente, então esse mesmo ser do qual nada maior pode ser pensado é aquele do qual algo maior pode ser pensado. Mas isso é evidentemente impossível. Portanto, não há dúvida de que algo do qual nada maior pode ser pensado existe tanto na mente quanto na realidade. 2
Segunda forma do argumento
A primeira forma do argumento provou que Deus existe. Mas Anselmo não para aí. No capítulo três do Proslogion, ele retoma o argumento com outra pergunta: que tipo de existência Deus tem?
Pense na diferença entre dois tipos de coisa. Uma cadeira existe, mas poderia não existir. Ela foi fabricada em algum momento e vai se deteriorar com o tempo. Uma pessoa existe, mas também poderia não ter nascido. São coisas que existem de forma contingente: estão aqui, mas não precisariam estar. Agora pense no número dois. Ele não é o tipo de coisa que simplesmente aparece ou desaparece. Não faz sentido dizer que o número dois existiu ontem mas pode não existir amanhã. Anselmo chama essa segunda forma de existência de existência necessária: algo que não pode deixar de existir.

A pergunta de Anselmo é: qual dessas duas formas de existência é maior? A resposta é clara. Um ser que não pode deixar de existir é maior do que um ser cuja existência é apenas contingente. A possibilidade de não existir é uma limitação e qualquer limitação contradiz a definição de Deus.
Isso significa que Deus não apenas existe, mas existe de tal forma que é impossível sequer conceber que Deus não exista. Deus não teve começo, não terá fim e não depende de nada externo para existir. A não existência de Deus não é apenas falsa. É impensável.
O argumento segue a mesma lógica da primeira forma. Se fosse possível conceber que o ser do qual nada maior pode ser pensado não existe, então esse ser não seria o ser do qual nada maior pode ser pensado. Contradição. Portanto, Deus não apenas existe: existe necessariamente.
Referências
JACKSON, Guy. Anselm's Proslogion. World History Encyclopedia, 8 set. 2022. Disponível em: https://www.worldhistory.org/article/2068/anselms-proslogion/. Acesso em: 19 maio 2026.
HICK, John. Philosophy of religion. Englewood Cliffs: Prentice-Hall, 1990.