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Críticas ao argumento ontológico

A crítica de Gaunilo

O argumento de Anselmo que vimos no texto anterior não demorou a receber resposta. Ainda no século XI, um monge francês chamado Gaunilo, contemporâneo de Anselmo, escreveu uma réplica com um título provocador: Em Defesa do Insensato. O insensato em questão era o personagem bíblico citado pelo próprio Anselmo, aquele que "diz em seu coração: não há Deus." ((ANSELMO apud HICK, 1990, p. 17, tradução nossa))

A estratégia de Gaunilo não era atacar o argumento diretamente. Era mostrar que ele prova coisas demais. Se a lógica de Anselmo funciona para Deus, ela deveria funcionar para qualquer coisa. Para demonstrar isso, Gaunilo propõe um exemplo: a ilha mais perfeita que se pode conceber.

O raciocínio segue a mesma estrutura do argumento original. Se você tem a ideia da ilha mais perfeita concebível, e essa ilha existe só na mente, então é possível conceber algo maior: a mesma ilha existindo também na realidade. Logo, a ilha mais perfeita concebível tem que existir na realidade.

Você aceitaria essa conclusão?

Pessoa vista do peito para cima, olhando para cima com expressão pensativa. Acima dela, um balão de pensamento contendo uma ilha tropical com palmeira e ondas. Abaixo do balão, a pergunta em letras maiúsculas: "Se uma ilha é a mais perfeita concebível, ela existe?"

Se o argumento leva a isso, diz Gaunilo, algo está errado nele. Ninguém aceitaria que é possível provar a existência de uma ilha perfeita apenas a partir do conceito de ilha perfeita.

A resposta de Anselmo

Anselmo respondeu apontando uma diferença crucial entre Deus e a ilha: a existência necessária.

Uma ilha é, por definição, um pedaço de terra cercado de água. Ela faz parte do mundo físico e contingente. Como qualquer objeto material, ela poderia não existir. É possível, sem nenhuma contradição, conceber que essa ilha simplesmente não esteja lá. E se é possível concebê-la como não existente, o argumento ontológico não se aplica a ela.

O argumento só funciona para um ser cuja definição inclui a existência necessária, ou seja, um ser que não pode sequer ser concebido como não existente. Esse ser é Deus, e apenas Deus. A ilha de Gaunilo, por mais perfeita que seja, continua sendo uma ilha: uma realidade dependente e contingente, que pode ser pensada como ausente.

Em outras palavras, Gaunilo aplicou o argumento a um conceito ao qual ele não se aplica. A crítica falha porque trata como equivalentes duas ideias que são fundamentalmente diferentes, alegou Anselmo.

A crítica de Kant

As críticas de Gaunilo e Anselmo operavam dentro da lógica do argumento, discutindo se ele se aplicava corretamente. Séculos depois, o filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) fez algo diferente. Ele recuou um passo e questionou uma suposição que o argumento carregava desde o início e que, até então, ninguém havia contestado.

Para Anselmo, existir é uma característica que um ser verdadeiramente perfeito necessariamente possui, assim como onipotência, onisciência ou bondade absoluta. Se o ser do qual nada maior pode ser pensado não existisse, faltaria algo a ele, e ele não seria o mais perfeito. A existência, portanto, faz parte da definição de Deus da mesma forma que as demais características que atribuímos a um ser perfeito.

Kant questiona exatamente isso. Será que a existência funciona mesmo como uma característica que um ser pode ter ou não ter?

Pense em como descrevemos as coisas. Quando alguém pede para você descrever um leão, você lista suas características: grande, peludo, com juba, com garras, carnívoro. Essas características compõem o conceito de leão. Agora pense num leão imaginário e num leão real. Quais são as diferenças entre eles em termos de características?

Nenhuma. Os dois têm juba, garras, quatro patas. O leão real não possui uma característica extra chamada "existência" que o leão imaginário não possui. O que muda é que o leão real está no mundo. Dizer que um leão existe não é acrescentar uma característica nova ao conceito de leão. É dizer que há, no mundo real, algo que corresponde a esse conceito.

Esse é o ponto central de Kant. A existência não é uma característica como tamanho ou cor. Ela não enriquece o conceito de uma coisa. Ela apenas indica se o conceito tem ou não uma instância no mundo real.

Se a existência não é uma característica, ela não pode fazer parte da definição de Deus. E se não pode fazer parte da definição, não faz sentido concluir que Deus existe a partir dessa definição. Uma definição descreve conceitos e não tem o poder de trazer coisas à existência no mundo real.

Se Kant está certo, o argumento ontológico comete um erro fundamental: confunde o plano dos conceitos com o plano da realidade.

A crítica de Russell

Já no século XX, o filósofo britânico Bertrand Russell (1872-1970) chegou à mesma conclusão que Kant, mas por um caminho diferente. Em vez de perguntar se a existência é uma característica, Russell examinou como a palavra "existe" funciona na linguagem e o que encontrou é surpreendente.

"Existe" parece uma característica como qualquer outra. Na frase "o leão é grande", "grande" atribui uma característica ao leão. Na frase "o leão existe", "existe" ocupa o mesmo lugar gramatical. Mas Russell mostra que a semelhança é só aparente.

Quando dizemos "vacas existem", o que estamos dizendo de fato? Não estamos atribuindo uma característica às vacas. Estamos dizendo que há objetos no mundo aos quais a descrição "vaca" se aplica. E quando dizemos "unicórnios não existem", não estamos falando dos unicórnios. Estamos dizendo que não há nada no mundo ao qual a descrição "unicórnio" se aplique.

Dois desenhos de leão separados por uma seta horizontal. À esquerda, um leão sem fundo com etiquetas apontando para suas características: juba, garras, quatro patas, carnívoro. Nenhuma etiqueta indica existência. Ao longo da seta, a frase: "'Leão existe' não descreve o leão. Diz que há um leão no mundo." À direita, o mesmo leão inserido numa floresta simples, representando sua presença no mundo real.

Isso resolve um problema que parecia intratável. Se unicórnios não existem, do que estamos falando quando dizemos isso? Parece estranho falar de algo que não existe. A análise de Russell esclarece: não estamos falando de unicórnios. Estamos falando do conceito de unicórnio e afirmando que ele não tem nenhuma instância no mundo real.

A consequência para o argumento ontológico é direta. Se existência não é uma característica, ela não pode ser incluída na definição de Deus. E se não pode ser incluída na definição, a pergunta sobre se Deus realmente existe permanece em aberto. Uma definição descreve um conceito e não tem o poder de garantir que algo correspondente a esse conceito existe no mundo.

Kant e Russell chegam ao mesmo ponto por caminhos diferentes: o argumento ontológico confunde o plano dos conceitos com o plano da realidade. Mas será que isso encerra a questão?

Referências

HICK, John. Philosophy of religion. Englewood Cliffs: Prentice-Hall, 1990. 

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