Recursos para ensinar filosofia
Forma e matéria, essência e acidente, ato e potência em Aristóteles
Uma criança cresce e se torna adulta. Uma lagarta se fecha num casulo e emerge como borboleta. Um bolo, feito de ovos, farinha e leite, assa no forno e se transforma em algo completamente diferente. Será que uma pessoa continua sendo a mesma ao longo da vida, mesmo que seu corpo e seu modo de pensar mudem? O que faz um bolo ser um bolo, e não apenas uma mistura de ingredientes? A borboleta ainda é a mesma coisa que a lagarta que a antecedeu?
Essas perguntas, que parecem tão simples, foram levadas muito a sério por filósofos como Aristóteles. Ele percebeu que, para entender o mundo natural — e inclusive a nós mesmos — era preciso entender como as coisas mudam e o que permanece nelas durante essas mudanças.
Foi por isso que ele desenvolveu conceitos como forma e matéria, ato e potência, essência e acidente — conceitos que ajudam a descrever e pensar melhor essas transformações que vemos todos os dias, mas raramente paramos para examinar.
Forma e matéria
Pense no bolo que assa no forno. Antes de entrar lá, ele era uma mistura de farinha, ovos, leite e açúcar. Esses ingredientes são a matéria do bolo — ou seja, aquilo de que ele é feito. Mas ele só será bolo mesmo, com forma, cheiro e sabor característicos, quando essa matéria for organizada de um certo jeito. É isso que Aristóteles chama de forma.
A forma é o que dá identidade a algo. É ela que faz com que a mistura de ingredientes seja um bolo, e não apenas um conjunto aleatório de coisas. Já a matéria é o que torna possível que aquela coisa exista de fato — afinal, não dá pra ter um bolo sem algo que o componha.
O mesmo vale para a lagarta que se transforma em borboleta. A matéria — o corpo do animal — continua lá, mas vai se reorganizando, até que assume outra forma. E mesmo quando uma criança cresce, seu corpo muda, mas continua sendo um corpo humano, com uma forma própria que a identifica como pessoa.
Quando olhamos para as coisas do mundo, o filósofo diria que sempre podemos nos perguntar: do que isso é feito? (essa é a matéria) e o que faz isso ser o que é? (essa é a forma). Essas duas dimensões estão sempre juntas — nunca encontramos matéria sem forma, nem forma sem matéria.
Essência e acidente
Pense no seguinte. Uma criança cresce, muda de aparência, aprende novas coisas, passa a ter comportamentos completamente diferentes. Mesmo assim, continuamos dizendo que é a mesma pessoa. Por quê?
Aristóteles diria que isso acontece porque existe algo nela que permanece, mesmo com todas as mudanças. Esse “algo” ele chamou de essência — aquilo que define o que uma coisa é. Já as características que podem mudar sem que a coisa deixe de ser o que é, ele chamou de acidentes.
Pense no caso dos seres humanos. Segundo o filósofo, o que nos torna humanos não é nossa aparência, nem nosso tamanho ou idade, mas nossa capacidade de pensar — nossa racionalidade. Isso seria a essência do ser humano. Já ser mais alto ou mais baixo, ter cabelos lisos ou cacheados, gostar de matemática ou de literatura — tudo isso são acidentes, coisas que podem mudar sem que a pessoa deixe de ser humana.
E o bolo? Ele pode ter cobertura de chocolate ou de morango, pode ser redondo ou quadrado. Essas mudanças não afetam sua essência de bolo. Mas se for queimado até virar carvão, talvez a gente diga que deixou de ser um bolo. Perdeu sua forma, perdeu aquilo que fazia ele ser o que era.
Essência e acidente nos ajudam a pensar sobre o que em algo pode mudar, e o que não pode desaparecer. Em que momento uma mudança é só superficial — e em que momento ela atinge o coração do que a coisa é.
Ato e potência
Vamos voltar ao exemplo do ser humano. Dissemos que a essência do ser humano é ser um ser racional — ou seja, alguém capaz de pensar. Mas e um bebê recém-nascido? Ele ainda não fala, não argumenta, não entende conceitos abstratos. Ele certamente não é racional. Então ele não é um ser humano?
Para Aristóteles, sim — mas em potência.
A criança ainda não exerce plenamente sua racionalidade, mas ela tem a potência, a possibilidade de desenvolvê-la. Já um adulto que pensa, escolhe, aprende — esse é um ser racional em ato, ou seja, realizando de fato sua essência.
Ato e potência são conceitos que o filósofo usa para explicar como as coisas mudam e se desenvolvem. A potência é aquilo que uma coisa pode vir a ser, e o ato é aquilo que ela já é de fato. Um grão de trigo é, em potência, uma planta. Quando cresce e se torna uma espiga, realiza aquilo que era em potência — passa ao ato.
Isso vale para o bolo também. A mistura de ingredientes é um bolo em potência. Quando ele assa e adquire forma, vira um bolo em ato. E o mesmo com a criança: ela é um ser racional em potência, e se torna racional em ato à medida que cresce e desenvolve essa capacidade.
Essa distinção ajuda Aristóteles a explicar que a mudança não significa que algo deixou de ser o que era. Pelo contrário, às vezes mudar é justamente realizar aquilo que se é de verdade.
Como Aristóteles explica a permanência na mudança
Para responder à pergunta sobre como as coisas mudam sem deixar de ser o que são, Aristóteles propôs um conjunto articulado de conceitos.
Com matéria e forma, ele mostrou que tudo o que existe é composto de algo (a matéria) e de uma organização que dá identidade àquilo (a forma). A mudança pode ocorrer na forma, na matéria ou nas duas, mas é essa relação que permite entender o que algo é.
A distinção entre essência e acidente ajuda a separar o que pode mudar sem que a coisa deixe de ser o que é (os acidentes), daquilo que não pode ser perdido sem que a identidade se perca (a essência).
Por fim, ato e potência explica como é possível que uma coisa se transforme: ela é algo em potência antes de ser em ato. A mudança é o processo em que a potência se realiza. Um bebê é um ser racional em potência e, ao desenvolver-se, realiza essa essência em ato.