Marx e a religião: o ópio do povo

opio do povo
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William é formado em filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), tem especialização em docência e trabalha como professor de filosofia no ensino médio.
novembro 2019 - 5 min de leitura

Por que as pessoas seguem uma religião? Por que acreditam em um Deus? Para muitos, a resposta seria porque esse Deus existe e a melhor forma de viver é seguir seus ensinamentos. O que inclui agir moralmente, fazer os rituais, agradecer etc.

Karl Marx (1818 – 1883) faz parte de um grupo de filósofos que partem do pressuposto de que esse Deus não existe. Eles pensam que não existe nada além da realidade material na qual vivemos. Essa é uma concepção de mundo chamada de materialismo.

Então ele coloca o seguinte problema em relação à crença religiosa. Se Deus e todo o mundo sobrenatural da religião não existem, por que as pessoas insistem em acreditar nisso? Afinal, toda sociedade tem uma religião. Por que, para usar uma expressão de Marx, essa falsa consciência é tão difundida?

Religião e sociedade de classes

Para Marx, a religião existe porque ela cumpre uma função social importante: fazer as pessoas suportarem o sofrimento da vida e se conformarem com sua condição social.

De acordo com esse filósofo, a sociedade capitalista é dividida em classes, trabalhadores e empresários. E entre essas classes há uma relação de dominação e exploração. Os empresários vivem uma vida confortável e com riqueza em abundância, ao passo que os trabalhadores têm que suportar o trabalho cansativo e a pobreza.

Marx viveu durante o início da Revolução Industrial e conheceu como era o trabalho nas fábricas inglesas do século XIX. Ele se prolongava por 12, 14 e até 18 horas por dia. Não havia restrição de idade, então crianças também trabalhavam. Além disso, o Estado não oferecia uma rede de assistência para situações como desemprego, velhice, acidentes e outras situações nas quais o trabalhador fica incapacitado.

Apesar de seu trabalho árduo e das condições adversas, uma pequena parte da riqueza produzida ficava com os produtores. Pagando salários baixíssimos, os empresários ficavam com a maior parte da riqueza gerada nas fábricas. Nessa situação, a diferença entre riqueza e miséria era marcante.

Marx chama de exploração esse processo no qual empresários ficam com boa parte da riqueza produzida pelos trabalhadores. E se pergunta, porque eles não se revoltam contra sua condição, tomam as fábricas, gerenciam a produção e se apropriam dos frutos do próprio trabalho? Como podem suportar uma vida tão difícil?

É aqui que entra a religião e outras ideologias. Elas contribuem para fazer o trabalhador aceitar sua condição miserável, ao invés de optar pela revolta.

Religião como ópio do povo

O ópio é uma droga com efeito anestésico. Seu consumo torna mais tolerável doenças dolorosas ou situações de grande sofrimento físico.

Marx afirmava que “a religião é o ópio do povo”. Com isso queria dizer que ela serve como um anestésico para o sofrimento enfrentado pelos trabalhadores.

Ver também  Socialismo utópico

Nas suas palavras

“A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração do mundo sem coração e o espírito das condições sem espírito. Ela é o ópio do povo.”

A religião da qual fala nesse texto Marx é a cristã. De acordo com ela, a vida na terra é marcada pelo sofrimento, culpa do pecado original. Ainda assim, todos aqueles que viverem corretamente podem contar com uma vida perfeita depois da morte.

Marx parece sugerir com essa análise que essas crenças religiosas oferecem algum conforto aos trabalhadores explorados. A esperança de um futuro de felicidade eterna é “o suspiro da criatura oprimida”, um alívio momentâneo do sofrimento diário.

Dessa perspectiva, a religião é adotada porque serve a uma necessidade psicológica das classes mais desfavorecidas da sociedade. Pessoas em condições de vida miseráveis como os trabalhadores ingleses têm uma motivação forte para acreditar que isso tudo que fala a religião é verdade. Pois essa crença tem um efeito anestésico: torna o sofrimento suportável.

Religião como instrumento de dominação

Por que trabalhadores que viviam na miséria não se revoltavam contra o Estado e exigiam uma vida melhor? Aqui entra a outra função da religião: manter todos submissos.

Marx também via a religião como um instrumento usado pelas classes mais favorecidas da sociedade para manter sua posição de dominação. Ele afirma que a religião encoraja

“a covardia, o desprezo próprio, o rebaixamento, a submissão e a humildade.”

Nesse caso, a existência da religião é explicada por atender aos interesses da classe dominante em manter todos pacíficos. A religião é difundida entre os trabalhadores pelos empresários porque encoraja um comportamento humilde. Dessa forma, manipulado as crenças dos trabalhadores, os patrões são capazes de mantê-los submissos.


Ao lado de Freud e Nietzsche, Marx foi considerado um dos “mestres da suspeita”. Sua análise da religião ilustra o razão do título.

Ao buscar as causas sociais da religião, Marx suspeita dos motivos que as pessoas dizem ser a razão de sua crença. A maioria das pessoas dizem que acreditam na religião porque Deus existe. Mas não estariam elas enganadas? Não seria essa uma ilusão de sua consciência?

Suspeitando do que pensamos ser o motivo que nos leva a adotar uma crença, Marx busca uma explicação social para a religião. A encontra, por um lado, na necessidade de conforto da classe trabalhadora num mundo sem coração, cheio de sofrimento. Por outro, no interesse da classe privilegiada de manter as relações de dominação.

Referências

Elster, John. Marx, Hoje. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989.

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