Thomas Hobbes, filósofo do século XVII, e Jean-Jacques Rousseau, filósofo do século XVIII, ofereceram respostas muito diferentes para o problema da bondade ou maldade da natureza humana. Como vimos, Hobbes defendia que, sem um poder comum capaz de conter os indivíduos, os seres humanos tenderiam à guerra. Rousseau, por sua vez, sustentava que o homem nasce bom e que é a sociedade que o corrompe.
Essas duas respostas foram formuladas em um contexto em que a discussão sobre a natureza humana era feita, sobretudo, no terreno da filosofia. Os autores recorriam à reflexão, à argumentação e à especulação para tentar compreender quem somos nós e como agimos quando as regras sociais desaparecem.
A partir do século XIX, porém, novas áreas do conhecimento passaram a se desenvolver e a estudar o ser humano de outras maneiras. A psicologia, a antropologia, a sociologia e, mais tarde, várias outras ciências começaram a produzir pesquisas, estudos de campo e análises empíricas sobre o comportamento humano. Isso tornou possível recolocar a antiga pergunta em novos termos.
É nesse horizonte que se situa o livro Humanidade: uma história otimista do homem, publicado por Rutger Bregman em 2020. Retomando um debate muito mais antigo, o autor procura investigar a questão da natureza humana não apenas por meio da especulação filosófica, mas também com apoio em pesquisas e exemplos históricos. Em vez de perguntar apenas o que pensam os filósofos sobre a natureza humana, Bregman quer saber o que as evidências acumuladas por diferentes áreas do conhecimento têm a nos dizer.
A teoria do verniz
Uma das ideias centrais que Bregman procura combater é aquilo que o biólogo Frans de Waal chamou de teoria do verniz. Segundo essa visão, a civilização seria apenas uma camada fina e frágil cobrindo uma natureza humana egoísta, agressiva e inclinada à violência. Em tempos normais, leis, costumes e instituições conseguiriam conter nossos impulsos mais destrutivos. Mas, em situações extremas, esse verniz se romperia e aquilo que somos “de verdade” apareceria sem disfarces.
Bregman se opõe frontalmente a essa interpretação. Para ele, a visão pessimista da natureza humana se tornou muito influente, tanto no senso comum quanto em várias tradições intelectuais do Ocidente. É fácil perceber como essa ideia se aproxima de uma certa leitura de Hobbes: a de que, quando a ordem social enfraquece, os seres humanos tendem a revelar sua face mais perigosa e a deslizar para o conflito. Bregman, porém, quer justamente colocar essa expectativa em dúvida. Sua tese é que, em muitas circunstâncias, os seres humanos revelam mais cooperação, coragem e altruísmo do que costumamos imaginar. Em vez de enxergar nas crises a prova de que somos naturalmente maus, ele sustenta que elas frequentemente mostram nossa disposição para ajudar uns aos outros.
É por isso que situações de desastre e emergência ocupam um lugar tão importante em sua argumentação. Quando há uma guerra, um acidente ou uma catástrofe natural, as rotinas da vida social são abaladas, o medo cresce e as regras comuns parecem perder força. Se a teoria do verniz estiver certa, seria justamente nesses momentos que os seres humanos tenderiam ao pânico, ao egoísmo e à barbárie, como se a crise arrancasse a camada civilizada e deixasse à mostra uma natureza violenta. Por isso, observar o comportamento humano em tempos de crise se torna, para Bregman, uma maneira concreta de testar o que há de verdadeiro em nossas ideias sobre a natureza humana.
Desastres e cooperação
É justamente nesse ponto que Bregman começa a mobilizar exemplos e pesquisas. Um dos primeiros casos lembrados por ele é o naufrágio do Titanic. A imagem mais difundida, reforçada por filmes e reconstruções dramáticas, é a de uma multidão tomada pelo pânico. No entanto, segundo os relatos de testemunhas, a evacuação foi em grande parte ordenada. Uma delas recordou que não houve sinais de histeria, nem gritos generalizados, nem correria descontrolada. Em lugar do caos esperado, o que aparece é uma cena bem mais disciplinada 1.
Bregman menciona também os ataques de 11 de setembro de 2001. Enquanto as Torres Gêmeas queimavam, milhares de pessoas desciam calmamente as escadas, abriam passagem para bombeiros e feridos e, segundo o relato de um sobrevivente, diziam umas às outras: “Não, não, você primeiro” 2. Mais uma vez, o que aparece não é a explosão imediata do egoísmo, mas uma reação marcada por autocontrole e ajuda mútua.
O caso do furacão Katrina
Um dos exemplos mais fortes usados por Bregman é o furacão Katrina, que atingiu Nova Orleans em 2005. Depois da enchente, espalhou-se rapidamente a ideia de que a cidade havia mergulhado no caos. Circularam notícias de estupros, assassinatos, gangues armadas e tiros contra helicópteros de resgate. Autoridades e comentaristas passaram a tratar o episódio como prova de que, quando a ordem social desaba, os seres humanos retornam quase imediatamente ao egoísmo e à violência.
O caso parecia confirmar perfeitamente a teoria do verniz. A cidade estava devastada, milhares de pessoas haviam perdido suas casas, e cerca de 25 mil se amontoavam no Superdome em condições precárias. À primeira vista, a interpretação parecia inevitável. No entanto, quando os fatos foram investigados com mais cuidado, esse quadro começou a se desfazer. Muitos dos relatos mais chocantes não se confirmaram, e parte do que havia sido interpretado como explosão de violência era, na verdade, boato, exagero ou leitura precipitada dos acontecimentos.
Ao mesmo tempo, começaram a aparecer dados e relatos de outra natureza. Pesquisas posteriores mostraram que, em vez de uma cidade dominada pela lógica do cada um por si, houve um grande número de ações de resgate, distribuição de mantimentos, organização improvisada de ajuda e apoio entre desconhecidos. O Katrina ganha força, assim, não apenas como tragédia, mas como um caso emblemático do contraste entre a expectativa de barbárie e a presença efetiva de cooperação em meio ao desastre 3.
Além desses casos famosos, Bregman lembra um dado ainda mais forte. Pesquisadores do Centro de Pesquisas de Desastres da Universidade de Delaware reuniram centenas de estudos de campo sobre catástrofes e não encontraram casos de caos total em que prevalecesse, de forma generalizada, uma lógica de guerra de todos contra todos. Ao contrário, os estudos costumam mostrar queda em certos tipos de criminalidade, manutenção da calma e surgimento de redes improvisadas de ajuda 4.
Recapitulando
- Depois de Hobbes e Rousseau, Bregman retoma o problema da natureza humana em um contexto histórico diferente, marcado pelo avanço de ciências como a psicologia, a antropologia e a sociologia.
- Seu diferencial está no método: em vez de trabalhar apenas com especulação filosófica, ele examina a questão com apoio em pesquisas, estudos de campo e exemplos históricos.
- Bregman combate a teoria do verniz, segundo a qual a civilização seria apenas uma camada frágil cobrindo uma natureza humana egoísta e violenta.
- Para testar essa ideia, ele dá grande importância a desastres e emergências, momentos em que as regras do cotidiano se enfraquecem.
- Em casos como o Titanic, os ataques de 11 de setembro e o furacão Katrina, Bregman mostra que o comportamento humano real nem sempre confirma a expectativa de pânico e barbárie.
- Além desses episódios, ele recorre a pesquisas mais amplas sobre desastres, que indicam que o caos total e a lógica do “cada um por si” são bem menos frequentes do que o senso comum imagina.
- A conclusão de Bregman é que a visão pessimista da natureza humana precisa ser revista, pois muitas evidências apontam para cooperação, coragem e ajuda mútua mesmo em situações extremas.
Referências
Bregman, Rutger. Humanidade: uma história de esperança. São Paulo: Planeta, 2021.