Socialismo utópico

Por
William é formado em filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), tem especialização em docência e trabalha como professor de filosofia no ensino médio.
dezembro 2019 - 5 min de leitura

O socialismo é um movimento político e de ideias que surgiu no final do século XVIII e início do século XIX. O que o define é uma preocupação com as condições de vida dos trabalhadores e a crença de que esse problema seria resolvido se eles se tornassem donos das fábricas.

Historicamente, o socialismo é mais conhecido pelos trabalhos de Karl Marx (1818 – 1883) e Friedrich Engels (1820 – 1885). Apesar disso, já existiam socialistas com um pensamento diferente do de Marx.

Em um livro de 1880, chamado Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico, Engels chama os socialistas anteriores ao Marx de utópicos, ao passo que o de Marx ele descreve como científico. O que eles pensavam? Por que são utópicos?

Socialismo utópico

Utopia significa lugar que não existe. Sendo assim, uma sociedade ou forma de pensar utópica significa algo ideal e imaginário, que não pode ser encontrado em lugar algum, que existe apenas no pensamento das pessoas.

O que Engels chama de socialismo utópico foi criado por pensadores como os franceses Saint-Simon (1760 – 1825) e Charles Fourier (1772 – 1837) e o galês Robert Owen (1771 – 1858).

Todos eles acreditavam que a razão humana poderia encontrar a solução para os problemas sociais. Pensavam que o progresso científico traria não apenas novas máquinas, mas sociedades melhores, mais bem organizadas e administradas, nas quais a felicidade seria para todos.

Seu trabalho como pensadores consistia em planejar uma sociedade ideal em detalhes, fazer testes em pequena escala para ver se dava certo e, com isso, convencer políticos e a sociedade toda a adotá-la.

Robert Owen

Um exemplo notável desse modo de pensamento é o trabalho de Robert Owen. Ele seguia uma linha de pensamento materialista e acreditava que o caráter do homem é o resultado de sua constituição inata e das circunstâncias que o acompanham ao longo da vida.

Desse ponto de partida, conclui que problemas sociais encontrados entre os trabalhadores de fábricas como embriaguez, brigas, conflitos com a polícia, pobreza e mendicância são o resultado das condições sociais nas quais essas pessoas vivem. Conclui também que, para resolver esses problemas, teria que mudar seu ambiente de trabalho.

Com o objetivo de testar sua teoria, Owen se torna sócio e gerente da New Lamark entre 1800 e 1829. Essa era uma fábrica que produzia algodão e empregava 2500 pessoas. Sua experiência teve o resultado esperado e seu sucesso lhe rendeu fama na Europa. Na fábrica, nenhum dos problemas costumeiros existiam.

Owen implementou uma série de mudanças para conseguir esse resultado positivo. O dia de trabalho era de dez horas e meia, enquanto entre os concorrentes era catorze. Quando ocorreu uma crise algodoeira e a fábrica teve que fechar durante quatro meses, os trabalhadores continuaram recebendo seus salários normalmente.

Ver também  Luta de classes

Para educação das crianças, a fábrica contava com um jardim de infância, na qual todas podiam ficar a partir dos dois anos. E o ambiente era tão bom que elas nem mesmo queriam ir embora. Nisso ele também foi pioneiro, já que jardins de infância não existiam na época.

O trabalhadores tinham essas vantagens ao mesmo tempo que a empresa aumentava de valor e os proprietários recebiam seu lucro.

Apesar disso, Owen não estava satisfeito com os resultados, pois pensava que aqueles homens que chefiava não eram mais que seus escravos. Ele sabia que, apesar de toda a riqueza que produziam, uma parte expressiva era apropriada pelos donos da empresa, mesmo sem dar grande contribuição ao trabalho.

Ele passou, por isso, a pensar que a sociedade poderia ser muito mais próspera se as fábricas se tornassem propriedade dos próprios trabalhadores, num regime de cooperativas. Em 1823 ele apresentou um plano de uma sociedade comunista para combater a miséria que existia na Irlanda. No centro desse plano está o ataque à propriedade privada dos meios de produção.

Apesar de todo o empenho de convencer a sociedade da viabilidade e eficácia de seus planos, ninguém lhe deu ouvidos. Passou a ser ignorado por aqueles que o aplaudiam enquanto cuidava para melhorar a vida dos trabalhadores sem questionar a propriedade privada. Seu projeto utópico de sociedade foi ignorado, ainda que sua atuação política tenha contribuído para mudanças em leis que beneficiaram os trabalhadores.

Por que o socialismo de Owen é utópico?

Por que o socialismo utópico é chamado assim por Engels?

Robert Owen e os demais pensadores chamados por Engels de socialistas utópicos eram idealistas por ignorar condições como interesse de classe e pensar que bastam boas ideias para mudar o mundo.

Owen sentiu na pele isso ao propor sua sociedade comunistas. Foi ingênuo de sua parte acreditar que os donos das empresas abririam mão das enormes vantagens que dispunham e apoiariam seu projeto de mudança social.

Os pensadores utópicos eram considerados assim por ignorarem que a política é movida por interesses. Ela é diferente da ciência. Nesse último caso, se você convence, através de experimentos, que dispõe de uma teoria superior, há grandes chances da sociedade científica adotá-la. Porém, quando as ideias em questão envolvem mudanças sociais, essas mudanças podem mexer nos privilégios de grupos poderosos, e aí dificilmente serão aceitas.

Por contraste, Engels chamava o socialismo de Marx de científico. Esse se diferenciava do utópico por não ficar planejando uma sociedade futura, e sim estudar as condições que levariam os trabalhadores a dar um fim no capitalismo.

Referências

Engels, Friedrich. Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico. São Paulo: Edipro, 2017.

Newsletter

Receba periodicamente novas publicações em seu e-mail.