Compatibilismo de Walter T. Stace | Filosofia na Escola

Compatibilismo de Walter T. Stace

No texto abaixo, Walter Terence Stace (1886 – 1967) defende uma versão do compatibilismo, ou seja, a tese de que as ações humanas são determinadas por causas, mas ainda assim são livres.

No texto, Stace:

  1. apresenta uma lista de situações em que comumente dizemos que uma ação foi livre ou não-livre;
  2. conclui, a partir da análise dessas situações, uma ação livre não é aquela que não possui causa;
  3. defende que ações livres são aquelas cujas causas imediatas são internas à pessoa;
  4. conclui que existe livre-arbítrio e esse é compatível com o determinismo causal.

Texto de referência

Ações livres Ações não-livres
Gandhi passa fome porque quer libertar a Índia. Um homem passa fome num deserto porque não há comida.
Uma pessoa rouba pão porque está com fome. Uma pessoa rouba porque o seu patrão a obrigou.
Uma pessoa assina uma confissão porque quer dizer a verdade. Uma pessoa assina uma confissão porque foi submetida a tortura.
Uma pessoa deixa o escritório porque quer lanchar. Uma pessoa deixa o escritório forçado pela polícia.

É óbvio que para encontrar a definição correta de ações livres devemos descobrir que característica é comum a todas as ações da coluna da esquerda, mas que, ao mesmo tempo, está ausente de todas as ações da coluna da direita. Esta característica que todas as ações livres terão, e as não-livres não terão, será a característica definidora do livre-arbítrio.

Será que a característica que procuramos será de não ter causa ou de não ser determinada por causas? Não, porque ainda que seja verdadeiro que todos os atos da coluna da direita tenham causas, como a tortura ou a falta de comida no deserto, também é verdadeiro que todos os atos da coluna da esquerda são causados.

A greve de fome de Gandhi foi causada pelo desejo de libertar a Índia; o ato de deixar o escritório foi causado pela fome; e assim sucessivamente. Além de que não há razão para duvidar que as causas dos atos livres sejam por sua vez causadas por causas prévias, e assim por diante, numa regressão contínua em direção ao passado. Qualquer fisiólogo pode explicar as causas da fome. O que causou o desejo de Gandhi de libertar a Índia é sem dúvida mais difícil de descobrir.

Mas deve ter causas. Algumas podem estar nas peculiaridades das glândulas do seu cérebro, outras nas suas experiências do passado, outras na hereditariedade, outras na educação. Os defensores do livre-arbítrio tendem a negar estes fatos. Mas fazê-lo é um tipo especial de afirmação, que não é suportada por qualquer tipo de provas. A única perspectiva razoável é que todas as ações humanas, tanto as que são livres como as que não são, ou são totalmente determinadas por causas ou pelo menos são tão determinadas como todos os outros acontecimentos da natureza.

Se é assim, o que distingue as ações que resultam de escolhas livres das que não resultam de escolhas livres não pode ser o fato de estas últimas serem determinadas por causas enquanto aquelas não o são.

Qual será então a diferença entre atos livres e não-livres? Qual será a característica que está presente em todas as ações da coluna da esquerda e que está ausente de todas as ações da coluna da direita?

Não é óbvio que, embora ambos os conjuntos de ações tenham causas, as causas da coluna da esquerda são um tipo diferente de causas? Os atos livres são todos causados por desejos, ou motivos ou algum tipo de estado psicológico ou mental interno ao agente. Os atos não-livres são todos causados por forças ou condições físicas externas ao agente. A força policial significa força física exercida do exterior; a ausência de comida no deserto é uma condição física do mundo exterior.

Podemos assim apresentar as seguintes definições:

  • as ações livres são todas aquelas cujas causas imediatas são estados psicológicos do agente;
  • as não-livres são todas aquelas cujas causas imediatas são estados ou condições externas ao agente.

É claro que se definirmos livre-arbítrio desta forma, seguramente que existirá livre-arbítrio e a negação da sua existência pelos filósofos deve ser vista como o que realmente é: algo sem sentido. É óbvio que todas as ações dos homens que atribuímos habitualmente ao exercício do livre-arbítrio, ou que dizemos resultarem de escolhas livres, são de fato ações que foram causadas pelos seus próprios desejos, pensamentos, emoções, impulsos ou outro tipo de estados psicológicos.

Questões para discussão

  1. Como Stace faz para conciliar livre-arbítrio e determinismo?
  2. Qual é a definição de livre-arbítrio proposta por Stace?
  3. Seria capaz de pensar em um exemplo de ação cuja causa é interna ao agente e, no entanto, não poderíamos considerar livre?
  4. Um animal poderia ser considerado livre de acordo com a definição de Stace?
  5. Você considera correta a definição de livre-arbítrio de Stace e sua solução para o problema? Argumente.

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