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Argumento do design

De todos os argumentos clássicos para a existência de Deus, o argumento do design é talvez o que mais aparece em debates contemporâneos, especialmente nas discussões sobre o chamado design inteligente, sobre o ajuste fino do universo e sobre as relações entre ciência e religião. A ideia central é simples: o mundo natural exibe uma ordem, uma complexidade e um funcionamento integrado que parecem indicar um projeto. E todo projeto, sustentam seus defensores, precisa de um projetista.

O argumento aparece já em Platão, mas foi no início do século XIX que recebeu sua formulação mais influente, na obra do teólogo e filósofo inglês William Paley (1743-1805). O livro se chama Teologia natural e foi publicado em 1802. O subtítulo é revelador: evidências da existência e dos atributos da divindade colhidas das aparências da natureza. Paley queria mostrar que a natureza, examinada com atenção, oferece evidências suficientes para concluir que existe um Deus, e até mesmo para identificar alguns de seus atributos.

A obra foi um dos livros mais lidos do século XIX, com diversas edições e adaptações para diferentes públicos. Sua estratégia argumentativa, baseada em uma analogia simples e poderosa, marcou profundamente a maneira como a relação entre natureza e divindade passou a ser pensada e continua sendo discutida até hoje.

A analogia do relógio

O argumento de Paley começa com uma comparação simples. Logo no início de seu livro, ele nos coloca diante da seguinte situação:

Ao atravessar um descampado, suponhamos que eu tropeçasse o pé contra uma pedra e me perguntassem como aquela pedra veio parar ali, eu poderia responder, até onde sei, que ela esteve ali desde sempre; e talvez não fosse muito fácil mostrar o absurdo dessa resposta. Mas suponhamos que eu tivesse encontrado um relógio no chão, e que se indagasse como o relógio veio parar naquele lugar; eu dificilmente pensaria na mesma resposta que dei antes — que, até onde sei, o relógio poderia ter estado ali desde sempre. 1

A diferença entre as duas situações parece óbvia, mas vale a pena se perguntar por quê. Afinal, em ambos os casos encontramos um objeto no chão e ninguém ao redor para explicar como ele chegou ali. O que faz a resposta funcionar para a pedra e não funcionar para o relógio?

Paley responde a essa pergunta logo em seguida:

Quando inspecionamos o relógio, percebemos (o que não pudemos descobrir na pedra) que suas várias partes são moldadas e montadas para um propósito: de modo que elas são formadas e ajustadas para produzir movimento, e esse movimento é regulado para indicar a hora do dia. Se as várias partes tivessem sido moldadas de formas diferentes daquelas em que estão, ou tivessem outros tamanhos, ou estivessem dispostas de outra maneira, ou em outra ordem, ou nenhum movimento seria produzido na máquina, ou nenhum que servisse ao uso a que agora ela serve. 2

A diferença está na organização das partes. A pedra é apenas um aglomerado de matéria, sem que suas partes precisem estar dispostas de alguma maneira específica. O relógio é diferente. Suas engrenagens, molas e ponteiros estão arranjados com precisão para cumprir uma função: marcar as horas. Se qualquer peça estivesse no lugar errado, ou tivesse o tamanho errado, ou a forma errada, o relógio não funcionaria.

Desenho em preto e branco de um descampado com chão e tufos de vegetação esparsos. No chão, dois objetos lado a lado. À esquerda, uma pedra irregular com a legenda "produto do acaso". À direita, um relógio de bolso aberto, mostrando o mostrador com números e as engrenagens internas visíveis, com a legenda "produto de uma mente".

E é justamente essa organização que torna absurdo pensar que o relógio surgiu por acaso. Quando vemos peças dispostas com tal precisão que cumprem uma função específica, percebemos que essa organização não pode ser produto da aleatoriedade. Ela exibe aquilo que Paley chama de design: um arranjo intencional de partes para um fim determinado. E todo design supõe um designer, alguém capaz de conceber esse arranjo e executá-lo. O relógio aponta para um relojoeiro mesmo quando o relojoeiro não está à vista. A organização das partes é, por si só, evidência de uma inteligência que as organizou.

Estabelecido esse ponto, Paley argumenta que tudo o que ele disse sobre o relógio vale com ainda mais força para o mundo natural:

Toda indicação de engenho, toda manifestação de design que existia no relógio existe nas obras da natureza — com a diferença, do lado da natureza, de serem maiores e mais numerosas, e em um grau que excede todo cálculo. (...) Não conheço método melhor de introduzir tema tão amplo do que comparar uma coisa única com uma coisa única: um olho, por exemplo, com um telescópio. 3

O exemplo do olho não é casual. Paley o desenvolve em detalhes ao longo do livro. Um olho humano possui lentes que se ajustam automaticamente à distância dos objetos, uma íris que controla a entrada de luz, uma retina sensível a cores e formas, músculos que movem o globo ocular com precisão, e nervos que transmitem essas informações ao cérebro. Cada parte cumpre uma função específica, e todas funcionam de modo integrado para produzir o resultado final, que é a visão.

Se um telescópio, infinitamente mais simples que um olho, exige um projetista, como negar um projetista ao próprio olho? E o olho é apenas um exemplo. O mesmo raciocínio se aplica à estrutura dos ossos, ao funcionamento do coração, ao comportamento instintivo dos animais, à precisão das estações do ano, ao movimento dos planetas. Em toda parte, segundo Paley, o mundo natural exibe o mesmo tipo de organização ajustada a fins que encontramos no relógio. E em toda parte, portanto, ele aponta para a existência de um projetista. Esse projetista, conclui, é Deus.

Referências

PALEY, William. Natural theology. Oxford: Oxford University Press, 2006.