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Críticas de Hume ao argumento do design

O argumento do design de Paley parte de uma analogia intuitiva entre um relógio e o mundo natural, e dela infere que toda organização funcional aponta para um projetista. Mas a analogia se sustenta quando examinada de perto? Essa é uma boa analogia?

Essas perguntas foram examinadas pelo filósofo escocês David Hume (1711-1776) em seu livro Diálogos sobre a religião natural, publicado em 1779, mais de vinte anos antes da Teologia natural de Paley. Embora Paley seja o nome mais associado ao argumento do design, ele não inventou esse tipo de raciocínio. A ideia de que a ordem do mundo natural aponta para um projetista divino já tinha ampla circulação no período moderno, defendida por diversos filósofos e teólogos. Paley dará ao argumento sua formulação mais célebre, mas Hume já estava de olho nesse tipo de discussão décadas antes e dedicou um livro inteiro a examiná-la.

Os Diálogos têm uma estrutura literária peculiar. Em vez de apresentar suas ideias diretamente, Hume constrói uma conversa entre três personagens que defendem posições distintas sobre a possibilidade de conhecer Deus pela razão: Cleantes, Dêmeas e Filão.

Cleantes representa o defensor do argumento do design, o teísta que acredita ser possível provar a existência de Deus a partir da observação da natureza. É ele quem, dentro do diálogo, antecipa boa parte do que Paley iria escrever décadas depois. Dêmeas é o teólogo ortodoxo, que considera a natureza divina incompreensível para a razão humana. E Filão é o cético, voz que apresenta as objeções mais agudas a ambos os interlocutores. Os estudiosos consideram Filão o porta-voz mais próximo das próprias ideias de Hume, e é ele quem conduzirá a crítica que vamos examinar a seguir.

A analogia leva a conclusões absurdas

Filão tenta mostrar que a lógica de Paley está mal construída. Para isso, em vez de atacar a analogia entre o mundo e o relógio, ele aceita o método e o aplica a outras analogias igualmente plausíveis, mostrando que esse mesmo método leva a conclusões que ninguém aceitaria.

Ele começa observando que o mundo, examinado com atenção, exibe características que se aproximam mais de um ser vivo do que de uma máquina:

Se examinarmos o universo, ele tem, até onde o conheçamos, uma grande semelhança com um corpo animal organizado, e parece movido por um princípio semelhante a vida e movimento. Uma circulação contínua de matéria nele não produz desordem alguma, um desgaste contínuo em cada parte é incessantemente reparado, percebe-se a concórdia mais minuciosa através do sistema inteiro, e cada parte ou membro, ao desenvolver seu ofício próprio, opera tanto pela sua própria preservação quanto pela do todo. O mundo portanto, infiro eu, é um animal, e a Deidade é a alma do mundo, movendo-o e sendo movida por ele.((HUME, 2016, p. 72))

Vale observar cada uma dessas características, que aproximam o mundo de um organismo. As duas primeiras dizem respeito à maneira como ele se mantém. No corpo de um animal, a matéria circula constantemente: o sangue percorre as veias, o ar entra e sai dos pulmões. No mundo natural, algo parecido acontece: a água evapora dos oceanos, forma nuvens, cai como chuva e volta para o mar. Além disso, organismos se reparam sozinhos. Cortes cicatrizam, células mortas são substituídas, ossos quebrados voltam a se unir. No mundo, florestas queimadas voltam a crescer, solos exaustos se renovam. Um relógio, ao contrário, se desgasta e depende de alguém de fora para consertá-lo.

As duas características seguintes dizem respeito à organização interna. Filão destaca o que chama de concórdia minuciosa: as partes de um animal funcionam de modo coordenado, em sincronia, sem que nenhum órgão precise dar ordens aos outros. No mundo natural acontece o mesmo. Os predadores controlam as populações de presas, as abelhas polinizam as flores que as alimentam, as bactérias decompõem o que morre e devolvem nutrientes ao solo. Filão acrescenta ainda que cada parte de um organismo opera tanto pela sua própria preservação quanto pela do todo. Em um relógio, uma engrenagem só existe para o relógio funcionar. Mas em um organismo, cada célula tem seu próprio metabolismo, sua própria reprodução, e ao mesmo tempo cumpre uma função no todo de que faz parte. No mundo natural, é exatamente isso que vemos: cada espécie luta por sua própria sobrevivência, e ao fazê-lo, contribui para o equilíbrio do ecossistema.

Filão estabelece a analogia entre o mundo e um ser vivo, mas não para por aí. O próximo passo é o decisivo. Se o mundo se parece com um organismo, qual é a causa de um organismo?

Organismos não são fabricados por uma mente externa. Uma árvore não foi projetada por um engenheiro. Um animal não foi montado por um artesão. Eles surgem por geração: uma árvore vem de outra árvore, um animal vem de outros animais. O processo é natural, contínuo, sem necessidade de planejamento ou execução por uma inteligência.

Filão conclui:

O mundo claramente se assemelha mais a um animal ou a um vegetal do que a um relógio ou a um tear. Sua causa, portanto, é mais provável que se assemelhe à causa dos primeiros. A causa dos primeiros é geração ou vegetação. A causa do mundo, portanto, podemos inferir ser alguma coisa similar ou análoga a geração ou vegetação.((HUME, 2016, p. 80))

Baseado nessa analogia, Filão nos convida a imaginar toda uma cosmologia. Se o mundo é como um vegetal, então ele se reproduz como um vegetal. Uma árvore espalha sementes pelos campos vizinhos, e essas sementes germinam e se tornam novas árvores. Por analogia, o universo poderia produzir sementes cósmicas que se dispersariam pelo espaço dando origem a novos universos. Um cometa, sugere ele, poderia ser a semente de um mundo, viajando de sistema solar em sistema solar até encontrar as condições para germinar. Ou então, se preferirmos a analogia com o animal, um cometa seria um ovo cósmico, deixado para chocar no espaço como uma avestruz deixa seus ovos na areia.

Desenho em preto e branco de um ovo grande no centro da imagem, com a casca rachada na parte superior. Pelas rachaduras escapa uma nuvem esférica preenchida com pequenas estrelas, espirais de galáxias e pontos dispersos, representando um universo recém-nascido. Ao redor do ovo, espalhadas pelo fundo branco, várias espirais de galáxias maiores em diferentes tamanhos sugerem o espaço cósmico onde o ovo está suspenso.
O universo poderia ter nascido como um filhote. Para Filão, essa hipótese é tão válida quanto imaginar o mundo como produto de um projetista.

As hipóteses soam estranhas, e Filão não as propõe seriamente. Seu objetivo é mostrar que a lógica de Paley, aplicada com consistência, leva a conclusões que ninguém aceitaria. Se uma analogia entre o mundo e um relógio nos permite inferir um projetista, então uma analogia com um vegetal deveria nos permitir inferir uma semente cósmica. As duas analogias são igualmente válidas, ou igualmente frágeis. O que essas analogias mostram é que escolher o relógio como ponto de comparação não é uma escolha neutra. É uma escolha que já contém a conclusão que se quer estabelecer.

Uma alternativa naturalista

Filão não se contenta em mostrar que a lógica de Paley leva a conclusões absurdas. Ele dá um passo adiante e propõe uma alternativa que dispensa completamente a ideia de um projetista. Sua estratégia agora é mostrar que a ordem do mundo pode ser explicada sem precisar recorrer a uma mente inteligente.

A hipótese parte de uma suposição simples. Imagine que a matéria do universo esteja em movimento contínuo, sem nenhuma direção planejada. Partículas se chocam, se combinam, se separam, formam arranjos que duram um instante e logo se desfazem. Esse movimento prossegue por um tempo imenso, sem propósito, sem objetivo, sem ninguém comandando.

O que aconteceria em um cenário assim? Filão observa que, em uma quantidade finita de matéria, ao longo de um tempo suficientemente longo, todas as combinações possíveis acabam ocorrendo. A grande maioria delas seria caótica e instável. Arranjos surgiriam e se desfariam imediatamente, sem deixar rastro. Mas eventualmente, por puro acaso, uma combinação estável apareceria. E essa combinação estável poderia se manter por muito tempo.

Filão coloca o argumento nestes termos:

Supõe (pois devemos tentar variar a expressão) que a matéria seja lançada em qualquer posição por uma força cega, sem guia: é evidente que esta primeira posição deve ser, com toda probabilidade, a mais confusa e desordeira que se possa imaginar (...) Mas supõe que a força atuante, qualquer que seja, ainda continue na matéria: essa primeira posição imediatamente dará lugar a uma segunda, que com toda probabilidade será tão desordeira quanto a primeira, e assim por diante, através de muitas sucessões de mudanças e revoluções. ((HUME, 2016, p. 90))

E aqui está o ponto decisivo. As combinações que não se sustentam desaparecem. As que se sustentam permanecem. Não porque tenham sido escolhidas por uma mente, mas simplesmente porque são as únicas que conseguem persistir. Filão observa que isso explica também por que as partes de cada coisa parecem tão bem ajustadas:

Onde quer que a matéria seja equilibrada, arranjada e ajustada assim, de modo a continuar em movimento e ainda preservar constância em suas formas, sua situação tem necessariamente que ter a mesmíssima aparência de arte e engenho que ora observamos.((HUME, 2016, p. 89))

Desenho em preto e branco com quatro quadros dispostos lado a lado, separados por linhas verticais finas. No primeiro quadro, partículas espalhadas em desordem completa, sem nenhum padrão. No segundo, as partículas começam a formar pequenos agrupamentos irregulares. No terceiro, surgem estruturas em torno de pontos centrais, com órbitas tênues e arranjos circulares ainda em formação. No quarto, uma estrutura estável e harmoniosa: um sistema com órbitas circulares ao redor de um ponto central, lembrando um sistema solar simplificado.
Para Filão, a ordem do mundo pode emergir do movimento aleatório da matéria ao longo de um tempo muito grande. As combinações instáveis desaparecem, as estáveis permanecem.

Paley conclui que a ordem do mundo aponta para uma mente projetista. Filão mostra que existe pelo menos uma explicação alternativa, que dispensa completamente essa mente. E se há uma alternativa naturalista plausível, então a inferência de Paley deixa de ser obrigatória. A ordem do mundo, por si só, não nos força a aceitar a existência de um projetista.

Combinando as duas críticas, o argumento do design encontra dificuldades importantes. A primeira mostrou que a comparação entre o mundo e um relógio é arbitrária: outras analogias, igualmente plausíveis, levariam a conclusões muito diferentes. A segunda apresenta uma explicação alternativa para a ordem do mundo, que dispensa qualquer comparação com produtos da inteligência humana. Nenhuma das duas críticas nega a existência de Deus. Ambas dirigem a questão para outro lugar: para a capacidade do argumento do design de provar que Deus existe.

Referência

HUME, David. Diálogos sobre a religião natural. Tradução, notas e posfácio de Bruna Frascolla. Salvador: EDUFBA, 2016. Disponível em: https://books.scielo.org/id/ngkzd/pdf/hume-9788523218676.pdf. Acesso em: 1 jun. 2026. 

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