Críticas ao argumento da primeira causa
O argumento da primeira causa de Tomás de Aquino tem uma força intuitiva considerável. Olhamos ao redor, vemos que tudo parece depender de outra coisa para existir, e parece natural concluir que essa cadeia precisa começar em algum lugar. Mas, como acontece com todo argumento filosófico, vale a pena examinar com cuidado cada passo do raciocínio. E é justamente nas primeiras linhas do argumento que se esconde um pressuposto invisível, do qual toda a conclusão depende.
Releia com atenção como ele abre o argumento:
Encontramos, entre as coisas sensíveis, uma ordenação de causas eficientes, mas não encontramos — nem é possível encontrar — qualquer coisa que seja a causa eficiente de si mesma.((AQUINO apud BRUCE; BARBONE, 2013, p. 30.))
À primeira vista, essa frase parece apenas constatar algo óbvio. Nenhuma coisa pode produzir a si mesma, porque teria que existir antes de si mesma para se produzir. É uma contradição. Quem discordaria?
Mas observe o que Aquino está fazendo. Ao afirmar que nada pode ser causa de si mesmo, ele está reduzindo as possibilidades a apenas duas: ou uma coisa é causada por outra, ou ela é causa de si mesma. Como a segunda opção é absurda, sobra apenas a primeira. Toda coisa precisa, portanto, ter sido causada por outra. E daí surge naturalmente a busca por uma primeira causa.
O pressuposto fundamental do argumento da primeira causa é, então, a ideia de que só existem duas possibilidades: ou algo tem uma causa ou é a causa de si mesmo. Como é absurdo dizer que algo é a causa de si mesmo, tudo tem uma causa.
Crítica de Hume
No século XVIII, o filósofo escocês David Hume (1711-1776) examinou esse pressuposto com rigor no livro Tratado sobre a natureza humana. Sua conclusão foi direta: não há base nem na razão nem na experiência para afirmar que tudo precisa ter uma causa.
Hume começa enfrentando a defesa que Aquino usa para descartar a possibilidade de algo existir sem causa. Aquino havia argumentado que uma coisa não pode existir sem causa, porque então ela seria causa de si mesma. Hume mostra que esse raciocínio confunde duas afirmações completamente diferentes:
Ele supõe que, ao negarmos uma causa, estamos ainda admitindo aquilo que negamos expressamente, a saber, que deve haver uma causa — a qual, portanto, é tida como o próprio objeto. Isso, sem dúvida, é uma evidente contradição. Mas dizer que alguma coisa é produzida, ou, para me exprimir de maneira mais apropriada, dizer que uma coisa passa a existir sem uma causa, não é afirmar que ela é sua própria causa. Ao contrário, ao excluirmos todas as causas externas, excluímos também a fortiori a própria coisa criada. Um objeto que existe absolutamente sem nenhuma causa, com certeza não é sua própria causa. ((HUME, 2009, p. 109))
Dizer que uma coisa existe sem causa não é o mesmo que dizer que ela é causa de si mesma. Quando excluímos uma causa externa, não estamos colocando o objeto como causa de si próprio. Estamos simplesmente excluindo toda causa. São situações distintas, e tratá-las como equivalentes é um erro lógico.

Hume vai mais longe e pergunta de onde vem nossa certeza de que tudo precisa ter uma causa. Há duas respostas possíveis: ou sabemos isso pela razão, da mesma forma como sabemos que dois mais dois são quatro, ou aprendemos isso pela experiência, observando o mundo.
Ele mostra que nenhuma das duas alternativas funciona.
Pela razão pura, não conseguimos provar o princípio. Para isso seria preciso mostrar que é logicamente contraditório imaginar uma coisa existindo sem causa. Mas não é. Podemos conceber, sem nenhuma contradição, um objeto que simplesmente existe, sem que nada o tenha produzido. Pode ser estranho. Pode ser improvável. Mas não é uma contradição lógica, como seria imaginar um quadrado redondo. E se não há contradição, então o princípio não pode ser estabelecido apenas pela razão.
Pela experiência, também não conseguimos provar o princípio. Toda nossa experiência de causalidade vem de eventos dentro do mundo: vemos uma coisa produzir outra, repetidamente, e aprendemos a esperar que esse padrão se mantenha. Mas isso só nos autoriza a afirmar que as coisas que observamos têm causas, não que toda coisa que existe precisa ter uma causa. Nunca observamos o surgimento do universo. Nunca vimos um mundo sendo causado. Aplicar o princípio de causalidade ao universo inteiro é estender a experiência muito além do que ela nos permite afirmar.
A consequência para o argumento da primeira causa é direta. Se nada nos obriga a aceitar que toda coisa precisa ter uma causa, então a cadeia de raciocínio de Aquino se apoia em um alicerce que não foi justificado. O universo poderia simplesmente existir, sem causa. Ou poderia ter existido desde sempre. Nenhuma dessas hipóteses é refutada pelo argumento.
Isso não significa que Deus não exista. Significa apenas que o argumento cosmológico, como formulado por Aquino, não consegue provar o que ele se propõe a provar.
Crítica de Russell
Quase dois séculos depois de Hume, o filósofo britânico Bertrand Russell (1872-1970) retomou a crítica ao argumento da primeira causa. Em seu ensaio Por que não sou cristão, Russell conta que, quando jovem, aceitou o argumento durante muito tempo, até que uma única frase mudou sua perspectiva. A frase vinha da autobiografia de John Stuart Mill, que citava o pai:
Meu pai me ensinou que a pergunta “Quem me fez?” não pode ser respondida, já que imediatamente sugere a pergunta seguinte “Quem fez Deus?” ((RUSSELL, 2011, p. 27))
A observação é simples, mas aponta para um problema relevante. O argumento da primeira causa parte do princípio de que tudo precisa ter uma causa. Mas se tudo precisa ter uma causa, então Deus também precisa. E se Deus pode ser uma exceção — algo que existe sem causa — então não há razão para que o universo não possa ser igualmente uma exceção.
Russell formula a conclusão assim:
Se tudo precisa ter uma causa, então também Deus deve ter uma causa. Se é possível que exista qualquer coisa sem causa, isso tanto pode ser o mundo quanto Deus, de modo que não pode haver validação nesse argumento. ((RUSSELL, 2011, p. 27))
Ou aceitamos que tudo tem causa, e então a primeira causa também precisa de uma causa, gerando uma cadeia que nunca termina. Ou aceitamos que algo pode existir sem causa, e então não há razão para que esse algo seja Deus e não o próprio universo. Em qualquer dos casos, a conclusão do argumento da primeira causa não se sustenta.
Russell ilustra a falácia com uma comparação memorável. Segundo uma visão hinduísta tradicional, o mundo repousava sobre um elefante, que repousava sobre uma tartaruga. Quando alguém perguntava sobre o que sustentava a tartaruga, a resposta era: "que tal mudarmos de assunto?". O argumento da primeira causa, sugere Russell, não é muito diferente. Ele empurra a pergunta para Deus e então decreta que a pergunta acabou. Mas se a pergunta pode parar em Deus, ela poderia ter parado antes, no próprio universo. Não há nada que obrigue a cadeia a continuar até Deus, exceto a decisão de continuar.
Russell encerra com uma observação que vale a pena conhecer:
Não há razão por que o mundo não possa ter passado a existir sem causa nenhuma; tampouco, por outro lado, existe qualquer razão que o impeça de ter sempre existido. Não há razão para supor que o mundo teve alguma espécie de início. A ideia de que as coisas precisam obrigatoriamente ter um início na verdade se deve à pobreza da nossa imaginação.((RUSSELL, 2011, p. 28))
A primeira causa, ao final, não é uma exigência da lógica nem da experiência. É uma exigência da nossa dificuldade em imaginar coisas que não tenham começo. E essa dificuldade, por si só, não prova nada sobre como o mundo realmente é.
Referências
BRUCE, Michael; BARBONE, Steven (org.). Os 100 argumentos mais importantes da filosofia ocidental: uma introdução concisa sobre lógica, ética, metafísica, filosofia da religião, ciência, linguagem, epistemologia e muito mais. São Paulo: Cultrix, 2013.
HUME, David. Tratado da natureza humana: uma tentativa de introduzir o método experimental de raciocínio nos assuntos morais. São Paulo: Editora UNESP, 2009.
RUSSELL, Bertrand. Por que não sou cristão. Porto Alegre: L&PM, 2011.
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