Em 1967, a astrônoma britânica Jocelyn Bell detectou algo estranho nos dados do radiotelescópio que ela mesma havia ajudado a construir em Cambridge. Um sinal repetitivo, preciso demais para ser ruído, chegando do espaço com uma regularidade quase mecânica, um pulso a cada 1,3 segundos, sem variação.
O que era aquilo?
A equipe de Bell considerou várias hipóteses. Uma delas, meio a sério meio em brincadeira, era que o sinal pudesse ser de origem extraterrestre, alguma civilização tentando se comunicar. Eles chegaram a batizar o sinal de LGM-1: Little Green Men. Mas não publicaram nada. Continuaram observando, coletando dados, procurando uma explicação mais sólida. Meses depois, quando detectaram sinais semelhantes vindo de outras direções do céu, ficou claro que a explicação extraterrestre não se sustentava. O que Bell havia descoberto eram pulsares: estrelas de nêutrons em rotação, emitindo feixes de radiação com precisão extraordinária.

A hipótese extraterrestre era viva o suficiente para ser considerada. Mas a equipe esperou. E funcionou.
James diria que esse é exatamente o tipo de situação em que suspender o juízo é a postura correta. Não porque a hipótese fosse absurda, mas porque a opção não era forçosa nem momentosa, já que havia tempo para esperar por mais dados e o erro seria corrigível se chegassem a uma conclusão precipitada. Na ciência, quando podemos esperar, devemos esperar. O risco de ser enganado por uma teoria prematura raramente justifica decidir antes da evidência chegar.
Nesse ponto, James concorda com Clifford. Na ciência, o ceticismo metódico é a postura sábia. Mas é importante entender por quê. James não está dizendo que a ciência é especial ou que cientistas são mais rigorosos. Está dizendo que as hipóteses científicas, na maior parte das vezes, apresentam um tipo específico de opção: evitáveis e triviais. Há tempo para esperar e, caso uma decisão seja tomada, os erros podem ser corrigidos. Quando uma opção tem essas características, suspender o juízo é a escolha mais segura.
Mas e quando a opção não tem essas características? E quando não há tempo para esperar, o erro não pode ser corrigido, e a própria espera já é uma forma de decidir?
Referência
JAMES, William. A vontade de crer. São Paulo: Penguin-Companhia, 2026.