No texto anterior, vimos que na ciência suspender o juízo é a postura correta. As hipóteses científicas geralmente apresentam opções evitáveis e triviais: há tempo para esperar, e os erros podem ser corrigidos. Mas James identifica duas situações em que essa lógica não se aplica.
Quando a crença depende da vontade
A ciência descreve o que existe. Ela pode nos dizer quantos genes tem um ser humano, como funciona o sistema nervoso, o que acontece com o corpo numa transfusão de sangue. Mas não pode nos dizer o que é bom ou mau. Essa é uma questão de outra natureza.
Pense na crença nos direitos humanos. Que evidência existe de que toda pessoa tem dignidade inalienável? Não há experimento que prove isso. Não há dado científico que demonstre que uma concepção de humanidade é mais correta do que outra. Ao longo da história, houve quem acreditasse genuinamente que certas pessoas valiam menos. A diferença entre acreditar nos direitos humanos e não acreditar neles não é uma diferença de evidência. É uma diferença de vontade, do que cada um escolhe valorizar. Nas palavras de James,
“Se o coração de vocês não deseja um mundo de realismo moral, a cabeça seguramente nunca os levará a acreditarem em um.” 1
Questões morais são hipóteses vivas para quem as considera. E ao contrário das hipóteses científicas, a evidência que as resolveria definitivamente não existe. Clifford diria: espere pela evidência. Mas James pergunta: que evidência poderia chegar que provasse, de uma vez por todas, que toda pessoa tem dignidade? Essa pergunta não tem resposta científica. Quem espera por ela está, na prática, escolhendo não agir, o que já é uma posição moral. Para visualizar isso, imagine um caso de injustiça em curso, como um ato de agressão ou discriminação diante de você. Se você decide "esperar por mais evidências" ou se recusa a intervir porque a prova moral não é "científica", sua omissão não é neutra; ela favorece o status quo da injustiça. Nesse tipo de opção, a passividade é uma decisão ativa que endossa tacitamente o que está acontecendo.

Quando a crença cria o fato
Há uma segunda situação em que a lógica de Clifford não se aplica. Existem casos em que a evidência que confirmaria uma crença só pode existir depois que a crença já existe. A comprovação depende da crença prévia, não o contrário.
Pense num romance. Você conhece alguém e sente que pode haver algo ali. Não tem como saber — não existe ainda nenhum sentimento do outro lado. O amor não estava esperando escondido, pronto para ser descoberto. Ele simplesmente não existe ainda.
Mas você acredita que pode existir. E age com base nisso. Busca a pessoa, conversa, se aproxima, demonstra interesse. Essas ações criam uma situação que antes não existia — a outra pessoa começa a te ver de forma diferente, a pensar em você, a sentir algo que não sentia antes. Com o tempo, o sentimento surge. O amor existe agora.
Que evidência você tinha no início de que isso ia acontecer? Nenhuma. O amor que hoje existe como fato só existe porque você acreditou antes que poderia existir. A crença não seguiu a evidência. Ela criou a evidência.

James diz que existem "casos em que um fato não pode ocorrer de modo algum a menos que exista uma crença preliminar em sua ocorrência." 2 E o romance é apenas um deles. Na amizade, a proximidade que cria o vínculo só acontece se alguém acreditar primeiro que o vínculo é possível. Nas oportunidades profissionais, quem age como se o sucesso fosse possível — investindo, arriscando, se posicionando antes de ter garantia — é quem cria as condições para que ele aconteça. E em escala coletiva, qualquer organismo social, um governo, uma equipe, uma instituição, existe porque cada membro age com a confiança de que os outros farão o mesmo. Essa confiança não pode ser provada antes de existir. Ela precisa vir primeiro.
Clifford está errado por não perceber que está pedindo algo impossível. A evidência que ele exige, nessas situações, só pode existir depois da crença que ele proíbe.
Referência
JAMES, William. A vontade de crer. São Paulo: Penguin-Companhia, 2026.