O que é lógica? | Filosofia na Escola

O que é lógica?

A palavra “lógica” é usada em dois sentidos diferentes. Geralmente ouvimos coisas como “eu não concordo com a lógica dele”. Nesse caso, a palavra lógica é usada como sinônima de “raciocínio” ou “pensamento”. Porém, há outro sentido menos comum. A palavra “lógica” também se refere a uma disciplina, ensinada em universidades e escolas, que foi criada na Grécia Antiga por Aristóteles.

Nesse último sentido, a lógica é o estudo de argumentos válidos e inválidos. Em nossa vida cotidiana, usamos e ouvimos argumentos com grande frequência: em jornais, na televisão, na conversa com amigos, na discussão com um(a) namorado(a), com os pais, em silêncio, quando raciocinamos sobre determinado assunto etc. Argumentar é algo que fazemos de forma espontânea e do que não podemos fugir. Diante disso, os lógicos querem entender o que faz com que um argumento seja bom ou ruim. Entender isso nos ajuda a evitar cometer erros em nosso próprio raciocínio e nos permite avaliar o pensamento de outras pessoas. Isso nos torna melhores pensadores.

Os lógicos querem entender o que faz com que um argumento seja bom ou ruim

É claro que ninguém precisa estudar lógica para saber argumentar ou avaliar os argumentos de outra pessoa. Porém, através do estudo da lógica essas habilidades espontâneas podem ser qualificadas. Assim como podemos aprimorar e expandir nossa habilidade de cálculo através do estudo da matemática, podemos melhorar nosso raciocínio através do estudo da lógica.

Como funciona um argumento ou o raciocínio? Se pararmos para analisar isso que chamamos de raciocínio notamos que ele possui uma estrutura básica: sempre partimos de uma determinada informação e chegamos a outra informação, derivada de alguma forma da primeira.

Vamos pensar em um caso concreto. Imagine que você está cozinhando para algumas pessoas. Você sabe que em todos os pratos há algum tipo de carne (informação 1). Pouco antes de servir você descobre que Ângela, uma convidada de seu amigo, é vegetariana (informação 2). O que você conclui a partir dessas duas informações? Certamente concluirá que não há nada que Ângela possa comer no almoço que preparou.

Esse processo que acabamos de analisar é um raciocínio. O que o caracteriza é o processo de “tirar uma conclusão” ou “fazer uma inferência”. E é isso que a lógica estuda. Ela procurar avaliar quando tiramos uma conclusão de forma válida e quando tiramos uma conclusão de forma inválida.

A lógica estuda a forma lógica dos argumentos

Um passo importante para entender como a lógica estuda os argumentos é entender a diferença entre a forma e o conteúdo de um argumento. Considere o exemplo abaixo.

Se uma pessoa é vegetariana, então ela não come carne.

Ângela é vegetariana.

Então Ângela não come carne.

Esse é o raciocínio que fizemos acima ao descobrirmos que Ângela era vegetariana. A forma lógica dele é a seguinte:

Se P, então Q

P

Então Q

As variáveis P e Q são usadas na lógica para substituir o conteúdo de afirmações simples. Quando afirmações simples são substituídas por variáveis como feito acima, identificamos a forma lógica de um argumento.

A lógica se interesse apenas pela forma lógica dos argumentos, e não pelo seu conteúdo. A razão para isso é simples: a lógica procura identificar o que é um argumento válido e inválido, bom ou ruim, e a qualidade do argumento depende de sua forma lógica. O fato de um argumento ser válido ou não depende unicamente de sua forma lógica.

Analise mais um exemplo

Se um animal é um inseto, então ele não é uma vaca.

Uma formiga é um inseto.

Então a formiga não é uma vaca.

Se você fosse substituir as afirmações do argumento acima por variáveis, como ficaria?

Se pensou

Se P, então Q

P

Então Q

então entendeu como identificar a forma de um argumento.

Se compararmos os dois argumentos acima, podemos notar três coisas:

  1. os argumentos possuem um conteúdo diferente, pois enquanto um fala de insetos o outro fala de vegetarianos;
  2. os argumentos possuem a mesma forma lógica. Isso quer dizer que quando substituímos as afirmações que os compõem por variáveis, chegamos à mesma forma lógica.

Ambos os argumentos são bons ou válidos. O que faz que sejam válidos é a forma lógica que possuem em comum. Qualquer argumento com essa mesma forma lógica será válido ou bom, independente de seu conteúdo.

Agora considere um exemplo mais complicado.

Se um time de futebol jogar bem, então ganhará o jogo.

O time Lógica em Campo ganhou o jogo.

Então o time Lógica em Campo jogou bem.

A forma lógica desse argumento é a mesma ou é diferente dos argumentos acima?

Vejamos

Se P então Q

Q

Então P

A forma lógica do argumento não é a mesma. Na segunda e terceira linhas do argumento ocorreu uma troca de posição das variáveis.

E esse argumento é válido?

Também não. Supondo que é verdade que os times ganham o jogo quando jogam bem e que o time Lógica em Campo ganhou, não podemos concluir que tenha jogado bem. Ele pode ter ganho porque o time adversário fez dois gols contra, porque o juiz errou ou por muitos outros motivos. As informações acima não permitem que tiremos a conclusão, de forma válida, de que jogou bem.

O fato desse argumento ser inválido, assim como nos casos anteriores, depende unicamente de sua forma lógica. Todos os argumentos que tiverem a forma se P, então Q, Q, entao P são inválidos, independente de seu conteúdo.

A validade de um argumento depende unicamente de sua forma lógica

E assim chegamos ao ponto mais importante para compreender como a lógica estuda o raciocínio ou argumentos. Podemos observar que o fato de um argumento ser válido ou inválido depende da forma lógica desse argumento. A lógica, assim, se dedica a estudar quais são os argumentos que possuem formas válidas e quais são os argumentos que possuem formas inválidas. Nem sempre é simples de avaliar se a forma de um argumento é válida ou não. Por isso a lógica desenvolve uma série de procedimentos para avaliar a validade de diferentes formas de argumentos.

Lógica não é psicologia

A lógica não é uma disciplina empírica. Ela não estuda como as pessoas pensam na prática. Quem estuda o pensamento humano nesse sentido é a psicologia. Para continuarmos a comparação com a matemática, assim como essa disciplina não estuda como as pessoas de fato calculam, a lógica não estuda como de fato as pessoas raciocinam. Ao contrário, ambas procuram identificar o que é um raciocínio ou um cálculo adequado.

Suponha que se descubra o seguinte princípio: as pessoas raciocinam pior quando estão sob estresse. Essa seria uma regra da lógica?

Certamente não. A lógica não está interessada em como as pessoas pensam, mas nos princípios fundamentais do pensamento. Essas leis não se aplicam simplesmente ao pensamento humano. Um alienígena, para pensar corretamente, deve respeitar as regras da lógica. Até mesmo os deuses devem respeitar as regras da lógica para que seus raciocínios sejam válidos.