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Diferenças entre Platão e Aristóteles
Quando vemos várias árvores, por mais diferentes que sejam entre si, sabemos que todas são árvores. O mesmo vale para cães, cadeiras ou triângulos. Mas como é possível reconhecer algo como sendo “o mesmo tipo de coisa” mesmo quando há tantas diferenças nos detalhes? Existe algo comum entre todas as árvores, todos os cães, todas as cadeiras?
Essa pergunta foi central para a filosofia de Platão e Aristóteles. Ambos queriam entender o que define a identidade das coisas, o que elas são em sua essência. Mas suas respostas foram bem diferentes. Para Platão, a verdadeira definição das coisas está em um outro plano de realidade: o mundo das ideias. Já Aristóteles acreditava que a explicação está nas próprias coisas concretas, feitas de matéria e forma.
Platão e o mundo das ideias
Para Platão, o que vemos ao nosso redor — pessoas, objetos, plantas, animais — está em constante mudança. As coisas nascem, crescem, se transformam, desaparecem. Por isso, ele acreditava que o mundo sensível, esse que percebemos pelos sentidos, não pode ser a verdadeira realidade. Afinal, como algo que muda o tempo todo pode servir de base para um conhecimento seguro?
A resposta de Platão foi propor a existência de outro nível de realidade: o mundo das ideias (ou mundo das formas). Nesse mundo estariam as ideias perfeitas e imutáveis de todas as coisas. A ideia de “árvore”, por exemplo, não cresce nem perde folhas. É uma árvore perfeita, eterna, que não muda. As árvores que vemos no nosso mundo seriam apenas cópias imperfeitas dessa ideia original.
É por isso que, mesmo vendo árvores muito diferentes umas das outras, conseguimos reconhecer todas como árvores: na medida em que são cópias, preservam algumas características da ideia original.
A mesma explicação vale para qualquer coisa: triângulos, gatos, mesas, até virtudes como justiça ou coragem. No mundo das ideias, existe a forma perfeita de cada uma dessas coisas — e o que vemos no mundo sensível são apenas imitações passageiras.
Para Platão, então, o que uma coisa realmente é — sua essência — não está neste mundo, mas sim naquele mundo invisível das ideias.
Aristóteles e a forma e a matéria
Para Aristóteles, não é preciso sair deste mundo para entender o que as coisas são. Ele acreditava que a essência de algo está na própria coisa concreta, e não em outro lugar. É por isso que ele propôs uma explicação baseada em dois elementos: matéria e forma.
A matéria é aquilo de que algo é feito. Por exemplo, uma estátua pode ser feita de mármore, bronze ou madeira — esse é o seu material. Já a forma é a organização, a estrutura que faz com que aquela matéria seja uma estátua e não apenas um monte de pedra.
Esses dois aspectos estão sempre juntos. Uma substância — como uma planta, um animal ou uma pessoa — é sempre uma união de matéria e forma. A forma é o que define o que a coisa é, enquanto a matéria é o que permite que ela exista concretamente.
Com essa explicação, Aristóteles acredita que é possível entender o que as coisas são a partir da observação do mundo real. Não é preciso imaginar ideias perfeitas fora do mundo. Basta olhar para as coisas e analisar como são feitas, como funcionam e o que as define.
Duas formas de pensar a realidade
As diferenças entre Platão e Aristóteles vão além da explicação sobre o que as coisas são. Ela revela duas maneiras distintas de pensar a realidade.
Platão é considerado um idealista, porque, como vimos, acreditava que a verdadeira realidade está em um mundo invisível, feito de ideias perfeitas. Em razão disso, ele pensava que não podemos conhecer o que as coisas são observando elas, já que estamos vendo apenas as cópias, não os originais. Para ele, o conhecimento verdadeiro não vem dos sentidos, mas do uso da razão — por isso, sua filosofia é também racionalista.
Aristóteles, por outro lado, recusava a existência de um mundo separado das coisas. Ele é chamado de realista, porque acreditava que a realidade é composta pelas próprias coisas que existem aqui, com forma e matéria. E também é visto como um empirista, já que seu ponto de partida para entender o que as coisas são está na observação do mundo concreto, e não em um raciocínio puramente abstrato.
Tema | Platão | Aristóteles |
---|---|---|
Onde está a essência das coisas? | No mundo das ideias, separado do mundo sensível | Na própria coisa concreta, pela união de forma e matéria |
Concepção de realidade | Idealista – a verdadeira realidade é invisível e imutável | Realista – a realidade está nas coisas que existem no mundo físico |
Fonte principal do conhecimento | Racionalismo – conhecimento vem da razão, não dos sentidos | Empirismo – conhecimento começa com a experiência sensível |
Visão sobre o mundo sensível | Mundo imperfeito, cópia do mundo ideal | Mundo real, onde as coisas existem de fato e podem ser conhecidas |
Enquanto Platão nos convida a olhar para além do que vemos, Aristóteles nos convida a olhar melhor para o que vemos — e a entender a estrutura da realidade a partir da experiência do mundo.