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Introdução à lógica aristotélica

2 de setembro de 2019 - 4 min leitura

Aristóteles (384-322 a.C.) é considerado o pai da lógica formal e durante milhares de anos acreditou-se que tudo o que havia para ser descoberto nessa disciplina já havia sido dito pelo filósofo. Embora hoje se saiba que existem outras lógicas além da aristotélica, seus estudos foram a base para todos os desenvolvimentos posteriores.

O filósofo atribuiu grande importância à lógica como uma ferramenta para o pensamento e o conhecimento. Ele defendia que o conhecimento verdadeiro e a compreensão das coisas deveriam ser alcançados por meio da observação, análise e raciocínio lógico sobre o mundo natural e as experiências humanas.

Para ele, essa não era apenas uma parte específica da filosofia, mas sim um instrumento essencial para o pensamento em geral. A lógica permitiria aos seres humanos pensar de forma clara e sistemática, evitar erros e contradições e chegar a conclusões verdadeiras e justificadas. 

Aristóteles teorizou sobre como devemos proceder em nossos raciocínios em uma série de tratados conhecidos coletivamente como Organon, palavra grega que significa “instrumento” ou “ferramenta”. A palavra expressa bem a finalidade da lógica, pois essa pretende ser um instrumento para qualquer tipo de investigação. O filósofo, o matemático, o cientista, o detetive, enfim, qualquer atividade que use o raciocínio para chegar a conclusões deve fazer uso dessa ferramenta para ser bem sucedida. O filósofo ou cientista trabalhando sem o auxílio da lógica é como um caçador sem uma arma, ou um pescador sem um anzol.

Organon

O Organon é composto por seis tratados, cada um focado em um aspecto específico da lógica aristotélica. Abaixo, apresentamos uma breve descrição de cada um desses tratados:

Categorias

Este tratado é dedicado à classificação das coisas e à análise dos termos que são usados para descrevê-las. Aristóteles propõe dez categorias fundamentais do ser, que incluem substância, quantidade, qualidade, relação, lugar, tempo, posição, estado, ação e paixão. As categorias fornecem um esquema básico para compreender e analisar a estrutura da realidade e as relações entre os diferentes tipos de seres.

Da Interpretação

Este tratado aborda a linguagem e a lógica das proposições. Aristóteles examina a estrutura das proposições simples, que consistem em um sujeito e um predicado, e as relações lógicas entre proposições, como contradição, implicação e exclusão mútua. Ele também discute questões relacionadas à verdade, à falsidade e à ambiguidade das proposições, bem como à modalidade (necessidade, possibilidade e contingência).

Primeiros Analíticos

Neste tratado, Aristóteles apresenta sua teoria do silogismo, que é a base de seu sistema lógico. Um silogismo é um tipo de argumento dedutivo que consiste em duas premissas e uma conclusão. Aristóteles identifica várias formas válidas de silogismos e estabelece as regras e princípios para a dedução lógica. Ele também explora a estrutura e a validade dos silogismos em diferentes modos e figuras. Esse tipo de argumento está no centro da lógica aristotélica. Por 

Segundos Analíticos

Este tratado se concentra na teoria do conhecimento científico e na metodologia da ciência. Aristóteles argumenta que o conhecimento científico é baseado em demonstrações, que são cadeias de silogismos que partem de premissas indemonstráveis (princípios primeiros ou axiomas) e conduzem a conclusões necessárias e universais. Ele também aborda a questão da indução e do método para descobrir os princípios primeiros.

Tópicos

Neste tratado, Aristóteles desenvolve uma teoria da argumentação e do discurso dialético. Esse é um tipo de raciocínio não tão rigoroso quanto o silogismo e por isso não pode produzir verdades necessárias, mas ainda assim é válido em determinados domínios. Nesse tratado o filósofo propõe uma série de estratégias argumentativas que podem ser usadas para gerar e avaliar argumentos em diferentes domínios do conhecimento. O discurso dialético é especialmente relevante em áreas onde há incerteza ou ambiguidade, como a ética, a política, a religião, a arte, onde o objetivo não é alcançar verdades absolutas, mas sim investigar e compreender melhor as questões em jogo e as posições defendidas pelos interlocutores. 

Refutações Sofísticas

Este tratado é uma espécie de manual para identificar e desmontar argumentos falaciosos e sofismas. Aristóteles examina uma série de falácias lógicas e retóricas que podem ser usadas para enganar ou confundir os interlocutores e distorcer o processo de busca pela verdade. Ele oferece uma classificação das falácias e fornece exemplos para ajudar a distinguir entre argumentos válidos e inválidos.

Em conjunto, os seis tratados do Organon fornecem uma visão abrangente e sistemática da lógica aristotélica, que se tornou um dos pilares da tradição filosófica e científica ocidental. A lógica de Aristóteles, embora tenha sido complementada e refinada ao longo dos séculos, continua a ser uma referência importante para o estudo da lógica, da argumentação e do raciocínio em geral. A ênfase do filósofo na clareza, na precisão e na rigorosidade do pensamento continua sendo um legado duradouro que ainda hoje é valorizado e cultivado nas disciplinas acadêmicas e na busca pelo conhecimento e pela verdade.