Dilema de Eutífron

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William é formado em filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), tem especialização em docência e trabalha como professor de filosofia no ensino médio.
3 de abril de 2021 - 4 min leitura

De acordo com uma frase atribuída ao escritor russo Dostoiévski, se Deus não existisse, tudo seria permitido. Ou seja, a ética depende da existência de um deus. Na sua ausência, as pessoas poderiam fazer qualquer coisa, porque não haveria um critério para dizer que estão certas ou erradas. A teoria por trás desse pressuposto é chamada de teoria do comando divino.

O dilema de Eutífron é uma crítica apresentada por Platão, em um diálogo com esse nome, a essa ideia muito comum, expressa na frase de Dostoiévski.

De forma resumida, o dilema pode ser formulado nos seguintes termos: uma ação é boa porque deus quis ou deus quis porque é boa?

Muitas pessoas argumentam que na falta de Deus não existe uma razão que explique porque uma ação é correta ou incorreta. Tome, por exemplo, a proibição de assassinato. Caso Deus não exista, quem criou essa regra foram os próprios seres humanos. Mas se fosse assim, poderíamos ter criado uma regra totalmente diferente e ela seria “correta” da mesma forma. “Certo” e “errado”, nesse caso, são apenas rótulos que atribuímos arbitrariamente a uma ação ou outra.

Ao contrário, caso Deus exista, seus mandamentos são leis universais criadas junto com os próprios seres humanos e o restante do universo. Temos uma razão e motivo para segui-los. São leis verdadeiras e não apenas uma criação humana. Além disso, seremos recompensados ou punidos por nosso comportamento.

Apesar disso, tal teoria enfrenta uma série de dificuldades, como aponta o dilema de Eutífron. No dilema, podemos fazer duas escolhas e ambas geram respostas pouco satisfatórias.

Se escolhemos a primeira opção, é certo porque Deus disse, as normas morais se parecem totalmente arbitrárias. Se é certo porque Deus disse, então o assissjnato seria correto caso assim tivesse dito, ou a mentira, o roubo e a traição. Enfim, se as normas morais são uma criação divina elas são tão arbitrárias quanto se fossem criações humanas.

Por outro lado, se dissermos que Deus disse porque é certo, Deus perde seu papel central como fonte da moralidade. Ele apenas tem a função secundária de revelar através dos dez mandamentos, por exemplo, o que é certo. Mas, caso ele não existisse, o certo e o errado continuariam existindo da mesma forma.

Caso optemos por essa segunda resposta ao dilema de Eutífron, a afirmação de Dostoiévski não tem valor: se Deus não existe, o certo e o errado continuam existindo da mesma forma e certas ações continuam proibidas.

Resposta ao dilema de Eutífron

Uma resposta ao dilema de Eutífron foi proposta por William Alston. Pensando em uma terceira alternativa para o dilema, ele afirma que Deus não consulta uma natureza independente para saber se determinadas regras são certas ou erradas. Ele apenas age de acordo com seu caráter necessariamente bom, afinal de contas deus é um ser totalmente bom. As normas morais nada mais são do que uma expressão da sua própria natureza. Ele não cria essas normas arbitrariamente e nem busca elas em algum lugar fora de si mesmo. 

Seja qual for o mérito da resposta, talvez o dilema platônico seja a menor das dificuldades para a teoria do comando divino.

Referências

Austin, Michael W. Divine Command Theory, s.d. Disponível em: <https://iep.utm.edu/divine-c/>. Acesso em: 03 de Abr. de 2021.

Platão. Eutífron. 

Tatim, William Godoy. Dilema de Eutífron. Filosofia na Escola, 2021. Disponível em: < https://filosofianaescola.com/moral/dilema-de-eutifron/>. Acesso em: 17 de Apr. de 2121.

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