Falácias | Filosofia na Escola

Falácias

Falácias são argumentos inválidos, mas que aparentam ser válidos.


O que é uma falácia?

Um argumento, do ponto de vista lógico, é uma sequência de afirmações das quais uma é a conclusão (aquilo que se deseja provar) e as demais são as premissas (afirmações que são usadas para provar a conclusão). Falácias são argumentos inválidos, que apresentam algum tipo de erro de raciocínio.

Por exemplo, um argumento que parta da premissa “tive alguns professores de ciências humanas que eram socialistas” e conclua disso que “a maioria dos professores de ciências humanas é socialista” pode ser considerado uma falácia. Esse argumento é uma falácia, porque ele é um argumento fraco, já que a conclusão não se segue logicamente das premissas. Não é possível chegar à conclusão de que a maioria dos professores de ciências humanas são socialistas a partir de uma informação vaga como “tive alguns professores de ciências humanas que eram socialistas”. Trata-se de uma quantidade de informação muito limitada para uma conclusão geral como essa.

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Porém, nem todos os argumentos inválidos são considerados falácias. Cabe entender, então, o que diferencia um argumento inválido falacioso de um argumento inválido que não seja falacioso.

Os primeiros estudos sistemáticos das falácias foram feitos por Aristóteles. O filósofo define falácia como um argumento que parece válido, parece forte, mas não é. Portanto, não é qualquer argumento que pode ser chamado de falácia, mas apenas aqueles que parecem ser válidos sem o ser realmente. A palavra chave dessa definição é “parece”. Nesse caso, uma falácia é definida pela sua capacidade de iludir a pessoa que está ouvindo ou lendo o argumento.

Ao longo da história da filosofia, a partir de Aristóteles, uma série de falácias foram sendo identificadas, analisadas e ganharam um nome. O exemplo apresentado no início desse texto é conhecido pelo nome de generalização apressada. Conhecer o nome e os padrões de argumentos falaciosos é útil para evitar cometer erros de raciocínio e ser enganado por esses erros.

Abaixo você encontra uma lista de tipos falácias mais comuns. Ao final do texto, deixamos algumas sugestões de livros caso queira conhecer mais a fundo esse tema.

Falácias de relevância

Falácias de relevância são aquelas cujas premissas são irrelevantes para provar a conclusão, pois não contribuem em nada para mostrar que a conclusão é verdadeira.

Um exemplo dessa falácia é o argumento de que “deus existe porque a maioria das pessoas acredita em um deus.” Embora seja verdade que a maioria das pessoas possui essa crença, esse fato não é uma razão para pensar que deus existe. Esse é um argumento falacioso porque o fato de a maioria das pessoas acreditar em algo não é uma razão para isso ser verdadeiro. Basta lembrarmos que crenças que já foram muito disseminadas, como a ideia de que a terra era plana e de que o sol orbitava ao redor da terra, se mostraram falsas.

A falácia acima é conhecida como apelo ao povo. Na lista abaixo há mais alguns exemplos de falácias de relevância.

  • Apelo à força

    O apelo à força é uma falácia que ocorre quando algum tipo de ameaça é feita ao leitor ou ouvinte para que aceite determinada conclusão como verdadeira. Essa ameaça pode ser tanto psicológica quanto envolver uma agressão física.

    Um apelo à força é uma falácia porque não oferece razões que levem alguém a concluir que uma afirmação é verdadeira. Uma ameaça é justamente usada naquelas situações em que as possibilidades de convencer alguém através de razões se esgotaram ou não se tem razão alguma.

    Exemplo

    Você deve acreditar que Deus existe porque, se você não o fizer, quando morrer, será julgado e Deus o enviará para o inferno por toda a eternidade. Você não quer ser torturado no inferno, não é? Então, é mais seguro acreditar em Deus do que não acreditar.

    Não se torna mais verdadeira a afirmação de que deus existe simplesmente porque alguém lembra o inferno. Da mesma forma, a crença em um deus não se torna mais racional simplesmente porque temos medo de ir para o inferno. Apelando ao nosso medo da dor e ao nosso desejo de evitar o sofrimento, o argumento acima está cometendo uma falácia de relevância. A justificativa oferecida, o medo do inferno, não contribui em nada para mostrar que a conclusão é verdadeira.

  • Apelo à piedade

    Um apelo à piedade, compaixão ou misericórdia ocorre quando se procura despertar compaixão ou pena na pessoa que procuramos convencer, sem qualquer justificativa adicional.

    Imagine um estudante fazendo o seguinte pedido ao professor

    Professor, preciso que reveja minha frequência, porque tenho estágio e corro o risco de perder ele por causa das minhas faltas na escola. Não posso perder esse estágio porque dependo dele para ajudar minha família a se sustentar.

    Essa é uma clássica falácia de relevância porque a justificativa oferecida pelo estudante não é pertinente. Ele deveria ter oferecido alguma razão relevante para o professor revisar sua frequência, como um atestado, porém não fez isso. Se limitou a apelar à compaixão do professor.

  • Apelo às consequências

    Apelo às consequências é uma falácia cometida quando se afirma que uma conclusão é verdadeira porque isso gera consequências benéficas ou que é falsa porque gera consequências prejudiciais. Seu nome latino é argumentum ad consequentiam.

    Exemplo

    Deus existe, porque se não existisse nada faria sentido.

    No exemplo acima, a conclusão (Deus existe) é baseada na consequência negativa de sua não existência (a vida não teria sentido). O raciocínio é uma falácia porque não podemos avaliar a verdade ou falsidade de uma conclusão com base em suas consequências, desejadas ou indesejadas. O mundo é indiferente diante de nossas vontades.

  • Homem de Palha

    A falácia homem de pala ou espantalho ocorre quando argumentador distorce o argumento de seu oponente para ficar mais fácil criticar, critica esse argumento e pensa ter mostrado que a opinião original de seu adversário é falsa.

    Imagine o exemplo abaixo

    Político A – Por que o governo se preocupe apenas com o crime quando problemas como pobreza infantil e a destruição ambiental estão aumentando continuamente?

    Político B – Estou surpreso que meu adversário pense que p crime é tão sem importância. Com o aumento alarmante da violência de gangues em nossas cidades enfrentamos uma quebra de lei e ordem em grande escala. Os membros da oposição desejam uma sociedade em que as pessoas nunca poderiam se sentir seguras mesmo em suas próprias casas.

    O político A não afirmou que a violência não tem importância. No entanto, foi isso que o político B atribuiu a sua fala. Ao criticar essa versão distorcida, cometeu a falácia do espantalho.

  • Perder o ponto

    Perder o ponto ou ignorar a questão é uma falácia que ocorre quando o argumentador usa premissas para justificar uma conclusão, porém as premissas não são capazes de justificar a conclusão que pretende, mas outra. O argumentador ignora as implicações lógicas de suas premissas.

    Imagine o seguinte exemplo

    Muitas pessoas que são beneficiadas com o Bolsa Família não têm qualquer necessidade de receber essa assistência do governo. Portanto, esse programa deveria ser extinto.

    Mesmo que a premissa do argumento seja verdadeira, ela não é capaz de justiçar a conclusão apresentada no argumento (“esse programa deveria ser extinto”). Seria razoável defender, usando a premissa do argumento, coisas como criação de um sistema mais efetivo no monitoramento de tentativas de burlar os critérios do programa, mas não o extinguir. Para defender essa conclusão, é necessário premissas diferentes.

  • Falácia do acidente

    A falácia do acidente ocorre quando uma regra geral é aplicada a um caso específico no qual não se aplica. Imagine o seguinte exemplo. Uma pessoa faz uma série de discursos racistas, ofendendo inúmeras pessoas. Quando essas acionam a justiça para que ela seja punida, responde o seguinte

    Racista – Tenho direito de defender minha opinião, afinal vivo em um país no qual está escrito na constituição que todas as pessoas têm liberdade de expressão.

    É verdade que o Brasil tem como uma de suas garantias fundamentais a liberdade de expressão. Porém, manifestações racistas são consideradas crimes. Por isso, o Racista do exemplo cometeu a falácia do acidente ao aplicar uma regra geral (liberdade de expressão) a um caso no qual não se aplica.

  • Exercícios
    Exercícios sobre falácias de relevância

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Falácias ad hominem

Um argumento que possui um apelo muito forte, sobretudo na política, é o ad hominem. Eles ocorrem quando informações desfavoráveis sobre a pessoa são apresentadas para tirar a credibilidade daquilo que tem a dizer. O ad hominem é cometido quando ao invés de críticas a opinião de uma pessoa são apresentadas críticas à própria pessoa, sobre seu caráter ou intenções.

Imagine o seguinte diálogo entre pai e filho

Pai – Você não deveria estar fumando, você sabe muito bem o mal que o cigarro faz para a saúde.

Filho – Olha quem falando, você fuma dois maços de cigarro por dia.

O exemplo acima é um exemplo clássico de ad hominem. O filho, ao invés de mostrar que a afirmação do pai é falsa, de que cigarro não faz mal a saúde, partiu para o ataque pessoal questionando a coerência das ações de seu pai. Um ataque contra a pessoa e não contra o argumento da pessoa.

Porém, é importante notar que nem todo ataque ad hominem é falacioso. Em alguns casos, essa é uma forma legítima de argumentar.

  • Ad hominem abusivo

    O argumento ad hominem abusivo ocorre quando envolve uma acusação direta contra o caráter do indivíduo colocando em dúvida sua credibilidade através desse ataque. Ataque pode ser direcionado a ações passadas desse indivíduo, suas relações pessoais, sua etnia, crença religiosa, afiliações políticas, orientação sexual ou qualquer outra característica que possa ser vista como negativa. Além disso, o ataque pessoal pode por em questão a capacidade cognitiva da pessoa, questionando sua formação escolar ou até mesmo sugerindo que esta é louca e, portanto, não merece atenção.

    Imagine um julgamento de um caso de assassinato. A principal evidência usada pela acusação é o testemunho de um homem que viu o crime ser cometido. Para tentar lançar dúvida sobre a credibilidade das afirmações da testemunha, a defesa apresenta o seguinte argumento:

    A testemunha diz ter visto meu cliente cometer o assassinato, porém devemos ter muita cautela com o que afirma. A testemunha é conhecida por ser alcoólatra e seus vizinhos dizem que é um homem capaz de todo tipo de mentiras. Inclusive tem uma série de dívidas com esses.

    O argumento apresentado pelo advogado de defesa é um exemplo clássico de ad hominem abusivo já que se limita a atacar a testemunha apresentando uma série de características desfavoráveis.

    Nesse exemplo é cometida uma falácia porque os fatos apresentados contra a pessoa não têm relação com a opinião que está sendo discutida. O fato de a testemunha ter uma conduta social reprovável não invalida tudo o que tem a dizer.

  • Ad Hominem Circunstancial

    Envenenar o poço ou ad hominem circunstancial consiste em atacar a imparcialidade do argumentador, acusando-o de tendencioso, em virtude de alguma circunstância pessoal. Essa circunstância pode ser o cargo ocupado, a profissão, a crença religiosa ou outras características pessoais.

    Imagine o diálogo abaixo sobre meios de transporte

    Milene – Penso que o melhor meio de transporte é a bicicleta, pois além não poluir o meio ambiente ainda nos torna mais saudáveis.

    Bárbara – Isso não é verdade. Nada como a comodidade de um carro. Além disso, com ele temos liberdade de fazer muitas coisas.

    Milene – Você é dona de um posto de gasolina, é impossível levar a sério o que diz.

    No diálogo acima, Milene usa, como razão para desconsiderar os argumentos de Bárbara, o fato de esta ser dona de um posto de gasolina. Se Bárbara vende combustível, é do interesse dela que muitas pessoas andem de carro. Esse é apontado como o motivo para ela defender que este é o melhor meio de transporte.

    É verdade que Bárbara tem um incentivo para pensar que o carro é melhor que a bicicleta. Porém, isso também não impede que tenha bons argumentos. Para não incorrer na falácia de envenenar o poço é necessário analisar esses argumentos ao invés de simplesmente descartá-los com base em uma circunstância pessoal. Quando a discussão é encerrada simplesmente porque há um conflito de interesses, sem que os argumentos sejam analisados, cometemos uma falácia.

  • Culpa por associação

    A falácia culpa por associação ocorre quando o argumentador é desacreditado por suas ideias ou pessoa possuírem alguma associação com ideias ou pessoas sem qualquer credibilidade.

    Essa falácia ocorre com frequência em debates políticos. No Brasil, por exemplo, houve uma tentativa de afirmar que o nazismo foi um movimento político de esquerda. O objetivo era desacreditar a esquerda, associando-a ao nazismo, uma falácia de culpa por associação.

  • Tu quoque

    A expressão latina “tu quoque” significa “você também”. Essa é uma falácia ad hominem que ocorre quando o argumentador é acusado de fazer o contrário daquilo que defende em seu argumento.

    Imagine um político acusando o outro de corrupção. Como resposta, o outro afirma, “você também roubou como eu.” Nesse caso, ao invés de responder a acusação, que era sua obrigação no debate, o político parte para o ataque pessoal, acusando seu interlocutor da mesma prática. O ataque é falacioso nesse caso porque serve apenas para desviar a atenção das explicações que deveriam ser oferecidas sobre os casos de corrupção.

  • Exercícios
    Exercícios sobre falácias ad hominem

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    Exercícios sobre falácias ad hominem

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Falácias indutivas

Falácias de indução fracas são aquelas em que as premissas são relevantes para justificar a conclusão, porém não são suficientes. As informações oferecidas pelas premissas são muito poucas para justificar a conclusão. Geralmente essas falácias envolvem generalizações exageradas a partir de um ou poucos fatos.

Um exemplo clássico desse tipo de falácia é a generalização apressada.

Considere o seguinte exemplo

Mariana está andando de bicicleta em sua cidade natal, Porto Alegre. Um caro chega por trás dela e o motorista começa a buzinar e tenta empurrá-la para fora da estrada. Quando passa por ela, o motorista grita “fica na calçada onde você pertence!” Mariana vê que o carro tem placas de Santa Maria e conclui que todos os motoristas dessa cidade são uns idiotas.

Talvez os motoristas de Santa Maria sejam de fato todos uns idiotas, o que é improvável. De qualquer forma, Mariana não pode chegar a uma conclusão sobre “todos” a partir de um caso apenas. Ao fazer isso, estará cometendo uma generalização apressada.

  • Apelo à autoridade irrelevante

    Apelo à autoridade irrelevante ocorre quando alguém cita uma autoridade não qualificada para defender uma conclusão.

    Imagine a seguinte referência a opinião de uma autoridade

    Einstein afirmou que cigarro faz mal para a saúde, portanto devemos evitar fumar para evitar complicações.

    É verdade que Einstein é um grande físico e uma autoridade muitas vezes citada. Porém, seu campo de atuação era a física, não a medicina. Por isso o apelo à autoridade nesse caso é falacioso. O mesmo não aconteceria se o assunto em discussão fosse sobre física.

  • Apelo à ignorância

    O apelo à ignorância ocorre quando o desconhecimento de um fato é usado para justificar uma afirmação.

    Exemplo:

    Durante muito tempo várias pessoas tentaram provar que existe vida fora da Terra. Como muita investigação foi feita e nada foi descoberto, devemos concluir que não existe vida extraterrestre.

    No argumento acima, a única justificativa para a conclusão (“não existe vida extraterrestre”) é o desconhecimento do fato se existe ou não vida em outros planetas. Ou seja, a ignorância é usada para justificar a conclusão do argumento, por isso é um apelo à ignorância.

  • Generalização apressada

    Uma generalização apressada ocorre quando uma conclusão sobre todo um grupo de indivíduos é tirada com base em um pequeno número de indivíduos desse grupo ou com base em indivíduos que não são representativos.

    Exemplo:

    Tenho certeza que o candidato a presidente da república do PF, Partido das Falácias, vai ter a maioria dos votos. Fiz uma pesquisa com as pessoas que conheço e praticamente todas disseram que irão votar nele.

    No exemplo, uma conclusão geral (“vai ter a maioria dos votos”) é tirada a partir de alguns poucos exemplos (“pessoas que conheço”). É precipitado chegar a essa conclusão a partir de poucos exemplos. Embora o grupo de pessoas entrevistado apoie o PF, essa não é necessariamente a opinião da maioria das pessoas do país. Portanto, ocorreu no argumento acima uma generalização apressada.

  • Falsa analogia

    A falsa analogia ocorre quando a conclusão de um argumento depende de uma semelhança entre dois objetos que é fraca ou não existe.

    Exemplo:

    Foi descoberta a cura do câncer de pulmão em seres humanos. Um novo medicamento foi testado em ratos e mostrou uma eficácia extraordinária. Como seres humanos são mamíferos assim como ratos e compartilham uma série de semelhanças com esses, é certo que também curará o câncer em seres humanos.

    No argumento acima, a conclusão de que a cura do câncer de pulmão em seres humanos foi descoberta está baseada na semelhança existente entre seres humanos e ratos. Porém essa semelhança não é tão grande a ponto de podermos concluir que se funcionou em ratos irá funcionar em seres humanos. Por isso o argumento pode ser considerado uma falsa analogia.

  • Evidência suprimida

    A falácia da evidência suprimida ocorre quando alguém ignora evidências importante que mostram o contrário do que está defendendo.

    Exemplo

    Os cachorros animais amigáveis que não oferecem qualquer risco para as pessoas. Por isso não é necessário tomar cuidado quando os filhos querem brincar com cachorros desconhecidos na pracinha.

    No argumento acima, um fato importante é ignorado, suprimido. Muitos cachorros não são amigáveis. O autor do argumento deixou esse fato de lado por que contraria completamente a conclusão que deseja defender. Ao fazer isso cometeu a falácia da evidência suprimida.

  • Exercícios
    Exercícios sobre falácias indutivas

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Falácias Causais

  • Falsa Causa

    A falácia post hoc (falsa causa) corre quando é observada uma correlação entre dois eventos e, a partir disso, se conclui de maneira precipitada que existe uma relação de causa e efeito entre esses eventos.

    Exemplo:

    Sempre que lavo o carro, começa a chover logo em seguida. Portanto, o fato de eu lavar o carro provoca a chuva.

    Esse tipo de raciocínio, que a partir da observação de que um evento acontece após o outro conclui que existe uma relação de causa e efeito entre eles, é uma falácia porque essa correlação pode ser simplesmente uma coincidência.

  • Ladeira escorregadia

    A falácia da ladeira escorregadia ocorre quando se afirma que uma ação irá gerar uma improvável reação em cadeia que terá um resultado final negativo.

    Exemplo:

    Se aceitarmos que o Estado proíba discursos de ódio, não demorará para que aceitemos também que proíba vídeos pornográficos, e depois que proíba discursos minoritários, e depois que proíba discursos críticos ou contrários ao governo, até que se tenha esvaziado toda liberdade de expressão e já não possamos dizer mais coisa alguma livremente sem sermos punidos.

    No exemplo acima uma ação governamental (proibir discursos de ódio) supostamente irá gerar uma reação em cadeia que terminará com um resultado negativo (o fim da liberdade de expressão). Esse tipo de argumento geralmente é falacioso porque não apresenta qualquer indício de que realmente a ação inicial produzirá uma sequência de ações desastrosas. No Brasil, por exemplo, o fato de ter se tornado crime o racismo não deu origem a uma sequência de novas leis restringindo liberdade de expressão.

Falácias de Ambiguidade

Falácias de ambiguidade são cometidas quando existe um duplo sentido em alguma palavra do argumento, seja nas premissas, seja na conclusão.

  • Anfibologia

    A anfibologia é uma falácia que ocorre quando se usa uma frase gramaticalmente ambígua durante um raciocínio.

    Exemplo:

    Testes mostram que o cão não é parte lobo, como o dono suspeitava.

    O dono suspeitou que o cachorro era parte lobo, ou não era parte lobo? Quem sabe? Tal como está escrita, poderíamos interpretar a frase tanto no sentido de

    “o dono suspeitava que seu cão era em parte lobo, mas os testes mostraram o contrário.”

    como no sentido de

    “o dono suspeitava que seu cão era em parte lobo, o que foi confirmado pelos testes.”

    A frase é ambígua e precisa ser reescrita para remover a falácia. Quando uma frase assim é usada em um argumento, cometemos a falácia da anfibologia.

  • Equívoco

    O equívoco ocorre quando a conclusão depende do fato de uma palavra ou frase ser usada, seja explicitamente, seja implicitamente, em mais de um sentido.

    Exemplo:

    Alguns triângulos são obtusos.

    Todo obtuso é ignorante.

    Alguns triângulos são ignorantes.

    Nesse argumento, a palavra “obtuso” é usada em mais de um sentido. No primeiro caso, se refere a um certo tipo de ângulo. No último, a uma pessoa que não tem conhecimento. Ao se confundir esses dois sentidos nas premissas do argumento, o resultado foi uma conclusão sem o menor sentido.

    Todas as leis são criadas pelo governo.

    A lei da gravidade é uma lei.

    Portanto, a lei da gravidade foi criada pelo governo.

    Nesse argumento, a palavra “lei” foi usada em dois sentidos diferentes. No primeiro caso se trata de uma lei política, criada para a sociedade. Já no segundo, trata-se de uma lei natural.

Falácis de transferência ilícita

Uma falácia de transferência ilícita ocorre quando um atributo é transferido incorretamente das partes para o todo ou do todo para as partes.

  • Composição

    A falácia de composição ocorre quando um atributo é transferido incorretamente das partes para o todo.

    Exemplo

    Cada célula humana é muito leve, então um ser humano composto de células também é muito leve.

    A leveza certamente é um atributo das células humanas. Porém, não faz sentido transferir esse atributo para todo o ser humano. Fazer isso implica cometer a falácia de composição.

  • Divisão

    Ocorre quando um atributo é transferido incorretamente do todo para as partes. Simplesmente porque um grupo como um todo tem uma característica, muitas vezes não se segue que os indivíduos do grupo também tenham essa característica.

    Exemplo

    time de futebol Futebol Não Se Discute é o melhor da categoria porque teve uma temporada invicta e ganhou o título da divisão, portanto seu goleiro também deve ser o melhor da temporada.

    Nesse argumento, a característica de ser o melhor foi transferida de forma falaciosa do todo (o time) para uma de suas partes (o goleiro). Se trata de uma falácia porque não existe uma necessidade lógica na conclusão. É possível ser o melhor time em uma temporada mesmo sem ter o melhor goleiro.

  • Exercícios
    Exercícios sobre falácias de transferência ilícita

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Falácias Formais

Falácias formais são aquelas que podem ser identificadas através da análise da forma lógica de um argumento. As falácias formais são encontradas apenas em argumentos dedutivos com formas identificáveis. Uma das coisas que fazem esses argumentos parecer razoáveis é o fato de que eles se parecem com argumentos logicamente válidos.

  • Afirmação do consequente

    Afirmar o consequente é uma falácia formal que ocorre quando se conclui de uma declaração condicional verdadeira o seu contrário.

    Exemplo:

    Se Mariana estudar muito, entrará na universidade.

    Mariana entrou na universidade.

    Portanto, Mariana estudou muito.

    Esse argumento é falacioso porque mesmo que as premissas sejam verdadeiras, a conclusão pode ser falsa. Supondo que Mariana tenha entrado na universidade, não podemos concluir disso que tenha estudado muito. Ela pode ter colado na prova, tido sorte, ter poucos candidatos concorrentes etc.

    A forma lógica desse argumento é a seguinte:

    Se P, então Q.

    Q é verdadeiro.

    Então P é verdadeiro.

    O que torna esse argumento convincente muitas vezes é sua semelhança com uma forma dedutivamente válida chamada de modus ponens. A forma lógica desse argumento é a seguinte:

    Se P, então Q.

    P é verdadeiro.

    Então Q é verdadeiro.

    Exemplo:

    Se chover, o chão ficará molhado.

    Choveu.

    O chão ficou molhado.

  • Negação do antecedente

    A falácia negação do antecedente ocorre quando se confunde condição suficiente com necessária.

    Exemplo:

    Se João ganhar na Mega-Sena, se tornará rico.

    João não ganhou na Mega-Sena.

    Portanto João não se tornará rico.

    Esse argumento é falacioso porque ganhar na Mega-Sena é uma condição suficiente, mas não necessária para ficar rico. Uma pessoa pode ficar rica de outras maneiras (inclusive ganhando em outra loteria). Portanto, é uma falácia concluir que, pelo fato de não ter ganho na Mega-Sena, João não ficará rico.

Outras falácias

  • Falácia naturalista

    A falácia naturalista está presente em discussões morais sobre o que é certo ou errado fazer. Ela ocorre quando concluímos que algo é bom por ser natural e errado por ser “antinatural”.

    Exemplo:

    “A homossexualidade ou evitar ter filhos ao longo da vida não é um comportamento natural. Portanto, essas práticas devem ser evitadas”.

    No argumento acima, a conclusão de que a homossexualidade e não ter filhos é algo ruim é inferida a partir do fato de tais práticas são biologicamente atípicas. Sempre que em um argumento essa passagem é feita – o antinatural é errado ou o natural é certo – temos uma falácia naturalista.

    O que torna esse raciocínio falacioso é fato de que, em maioria dos casos, comportamento “antinaturais” são considerados corretos. Na natureza, por exemplo, é raro a fidelidade ao cônjuge, deveríamos concluir então que os casais que passam a vida juntos estão agindo de maneira incorreta? O mesmo pode ser dito da violência, um sentimento natural presente em todo o mundo natural e humano. Se usamos a ideia de que tudo o que é natural é bom, então a violência também deveria ser considerada boa.

Referências

Almossawi, Ali. O livro ilustrado dos maus argumentos. Rio de Janeiro: Sextante, 2017.

Shulman, Max. O amor é uma falácia.

Schopenhauer, Arthur. 38 estratégias para vencer qualquer debate. São Paulo: Faro Editorial, 2014.

Velasco, Patrícia Del Nero. Educando para a argumentação: contribuições do ensino da lógica. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2016.

Walton, Douglas N. Lógica Informal: manual de argumentação crítica. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.