Apelo à ignorância ou argumentum ad ignorantiam | Filosofia na Escola

Apelo à ignorância ou argumentum ad ignorantiam

apelo à ignorância

O apelo à ignorância (o nome latino dessa falácia é argumentum ad ignorantiam) ocorre quando o desconhecimento de um fato é usado para justificar uma afirmação.

Também podemos definir essa falácia dizendo que ocorre quando alguém afirma que uma proposição é falsa porque ninguém até então provou que é verdadeira ou que é verdadeira porque ninguém provou que é falsa.

Embora o apelo à ignorância possa parecer um erro de raciocínio bastante elementar, dependendo da forma como é usada tem um grande poder de persuasão. É comum a encontrarmos em discussões para as quais faltam evidências conclusivas.

Exemplos de apelo à ignorância

Primeiro exemplo

Considere o seguinte argumento:

Durante muito tempo várias pessoas tentaram provar que existe vida fora da Terra. Como muita investigação foi feita e nada foi descoberto, devemos concluir que não existe vida extraterrestre.

No argumento acima, a única justificativa para a conclusão (“não existe vida extraterrestre”) é o desconhecimento se existe ou não vida em outros planetas. Ou seja, a ignorância é usada para justificar a conclusão do argumento, por isso é um apelo à ignorância.

Segundo exemplo

Publicidade

Nosso segundo exemplo aborda o tema do surgimento do universo.

A ciência afirma que o universo surgiu de uma grande explosão, o chamado Big Bang. Porém os cientistas não sabem muito bem como isso aconteceu. Além disso, podemos nos perguntar: mas se o universo surgiu de uma grande explosão, alguma coisa já existia para explodir e gerar o universo. E aí podemos colocar legitimamente a questão: como surgiu essa coisa que explodiu? Do nada? Como poderia ser possível que algo surgisse do nada? Diante dessas questões sem respostas, só podemos concluir que deve ter sido Deus o responsável por criar o universo.

Esse é o argumento padrão daqueles que usam a incapacidade da ciência de oferecer respostas para todas as questões como justificativa para acreditar que a proposição “Deus existe” é verdadeira. Nesse caso, o fato de ignorarmos a resposta para uma pergunta é considerada razão suficiente para afirmar que é verdade que “Deus existe”.

Note que no argumento acima não é oferecida qualquer evidência de que Deus existe que pudesse apoiar essa alegação. Apenas a afirmação de que a teoria científica padrão para a existência do universo é falha.

Terceiro exemplo

Aqui temos outro exemplo, para mostrar que cientistas também não estão livres de cometerem apelo à ignorância.

Nosso universo começou com uma explosão primordial, já que não podemos obter informações sobre eventos que ocorreram antes dela. A idade do universo, portanto, é o intervalo do Big Bang até o presente.

A conclusão desse argumento é a afirmação de que o universo começou com o Big Bang e sua idade é o intervalo entre esse evento inicial e o presente.  A única razão oferecida nesse argumento para justificar tal conclusão é o fato de os cientistas ignorarem qualquer informação sobre eventos anteriores ao Big Bang. Esse é um raciocínio falacioso, já que essas evidências ainda poderão ser encontradas ou talvez não, porque não restaram evidências desse período. De qualquer forma, é incorreto tirar uma conclusão a partir de nosso desconhecimento.

Referências e leitura adicional

Para conhecer mais, veja nossa lista de falácias com dezenas de textos didáticos abordando esse tema. Para uma análise mais aprofunda, sugerimos a leitura de Lógica Informal, um livro de Douglas Walton. Esse é o livro mais abrangente em português sobre o assunto.

Douglas Walton. Lógica Informal: manual de argumentação crítica. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Tudo que publicamos sobre:

Relacionado

John Locke

John Locke é um filósofo inglês, pai do liberalismo político, um dos principais representantes do empirismo e criador de conceitos como tábula rasa e direitos humanos.

Descartes

Descartes é considerado o pai da filosofia moderna e as suas concepções sobre o conhecimento, método, ciência e a mente humana foram e ainda são muito influentes.

Filosofia da ciência

A filosofia da ciência estuda o que é a ciência, o que diferencia esta de outras formas de saber, como a religião, e o método que usa para produzir conhecimento.