Falácia: significado e exemplos

falácias
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William é formado em filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), tem especialização em docência e trabalha como professor de filosofia no ensino médio.
Última atualização agosto 2019

Falácia é um conceito usado na análise de argumentos para se referir a raciocínios que parecem válidos, parecem válidos, mas não são.

Ao analisarmos um argumento, podemos atribuir a ele diferentes graus de força. Em primeiro lugar, aqueles fortes, que provam sem deixar dúvidas que a conclusão é verdadeira. Em segundo lugar, há argumentos mais fracos, que não provam totalmente sua conclusão, mas mostram que ela é provável. Por fim, há argumentos que cometem algum erro de raciocínio grave, de modo que não contribuem em nada para mostrar que a conclusão é verdadeira. É esse último tipo de argumento que, quando possui a aparência de válido, é considerado uma falácia.

falácia e ilusão de ótica

Essa é uma imagem estática que cria uma ilusão de movimento. Assim como uma falácia, que ilude ao aparentar ser válida.

“Falácia” é um conceito usado, portanto, para se referir a argumentos que parecem válidos mas não são. Assim como uma ilusão de ótica, uma falácia pode enganar uma pessoa que não está treinada para reconhecê-la.

Dizer que uma falácia é um argumento inválido que parece válido está de acordo com uma tradição que iniciou com Aristóteles (384 – 322 a.C.), o primeiro a identificar e catalogar esse tipo de erro de raciocínio. Foi o filósofo que criou esse conceito, que ainda é útil, mais dois milênios depois.

Então, em resumo, para um texto ou fala ser considerado uma falácia são necessárias três condições:

  1. Deve ser um argumento;
  2. Deve aparentar ser válido;
  3. Mas deve ser inválido.

A única forma de compreender adequadamente conceitos como esse é aplicando na análise de casos reais. Então vamos a um. Considere o argumento abaixo.

Estudantes deveriam poder consultar suas anotações durante uma prova, pois engenheiros, médicos e advogados podem consultar as suas quando estão fazendo seu trabalho.

O texto acima é uma falácia porque cumpre as três condições que apresentamos. Em primeiro lugar, ele é um argumento, já que uma conclusão é justificada através da comparação entre estudantes e uma série de profissionais. Em segundo lugar, ele aparenta ser válido, já que à primeira vista a comparação é aceitável, afinal os profissionais têm mais condições de fazer um trabalho sem consultar anotações que os estudantes, pois já estão formados. Por fim, esse argumento não é válido, pois a comparação entre profissionais e estudantes ignora uma diferença importante. Não é permitido que estudantes usem anotações porque devem demonstrar seus conhecimentos na prova. Profissionais formados em situação de trabalho não precisam provar que aprenderam para receber um diploma. Essa diferença invalida a comparação usada no argumento. Sendo assim, podemos considerá-lo uma falácia.

Erro comum

Muitos estudantes, quando são apresentados a esse conceito e a alguns de seus exemplos, passam e ver falácia em todo lugar. Qualquer frase, qualquer argumento do qual se discorde passa a ser considerado uma falácia. Então tome cuidado ao usá-lo, para não banalizar e distorcer seu significado. Evite cometer o erro abaixo.

“Falácia” não significa “mentira”. É natural que ocorra associação entre a ideia de falácia e a ideia, mais comum, de mentira, porque ambas são usadas para enganar. Então, qual a diferença? Uma mentira pressupõe a invenção de informação falsa, como ocorre quando afirmo que no Brasil não existiu escravidão. Uma mentira pode ser uma simples afirmação como essa.

Falácia, por outro lado, é uma palavra usada para qualificar um argumento. Um argumento é sempre composto de pelo menos duas afirmações, a conclusão – que é a ideia que desejamos justificar –  e a premissa – uma segunda ideia usada para justificar a primeira. Uma mentira como o exemplo acima não é uma falácia porque não é um argumento.

Exemplos de falácias

Existem muitos tipos de falácias. Na lista abaixo apresentamos alguns exemplos mais comuns. Ao analisá-los, observe como atendem cada um dos critérios que apresentamos para reconhecer uma falácia.

Post hoc. Esse é o nome de uma falácia que ocorre quando concluímos existir uma relação causal entre dois eventos pelo fato de geralmente ou sempre ocorrem em sequência. Exemplo: Observei vários dias que sempre que o galo canta, o sol nasce. Portanto, o sol nasce por causa do canto do galo.

  1. Apelo à natureza. O apelo à natureza é um tipo de falácia que ocorre quando argumentamos que algo é bom porque é natural ou ruim porque não é natural. Exemplo: veneno de cobra é algo natural, portanto deve fazer bem para a saúde.
  2. Apelo à ignorância. O apelo à ignorância ocorre quando o desconhecimento de um fato é usado para justificar uma afirmação. Exemplo: ninguém provou até hoje que Deus existe, portanto ele não existe.
  3. Apelo à piedade. Apelo à piedade ou ad misericordiam ocorre quando apelamos à compaixão de uma pessoa para convencê-la de um ponto de vista. Exemplo: eu deveria receber uma ótima nota na prova, porque do contrário foi ser colocado de castigo.
  4. Apelo às consequências. Descrição Apelo às consequências é uma falácia cometida quando se afirma que uma proposição é verdadeira porque isso gera consequências benéficas ou que é falsa porque gera consequências prejudiciais. Exemplo: se Deus não existe a vida não há razão para agir corretamente, portanto ele deve existir.
  5. Apelo à força. O apelo à força é uma falácia que ocorre quando algum tipo de ameaça é feita ao interlocutor para que aceite determinada conclusão como verdadeira. Exemplo: limpe a casa, do contrário vai ficar sem almoço!
  6. Falsa Analogia. Falsa analogia ocorre quando é feita uma analogia entre dois objetos, porém esses objetos possuem diferenças relevantes. Lembra do argumento comparando estudantes e profissionais que usamos como exemplo no início do texto? Aquela falácia é conhecida como falsa analogia.

Referências

Tindale, Christopher W.  Fallacies and Argument Appraisal. Cambridge: Cambridge University Press, 2007.

 

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