Parmênides: ser e não-ser, verdade e opinião

6 de agosto de 2019 - 5 min leitura

Parmênides foi um filósofo pré-socrático que nasceu na cidade de Eléia em 515 a. C. e morreu em 450 a. C. É o fundador da escola eleática, que valorizava extremamente o uso da razão e da lógica como meio para obter conhecimento ao mesmo tempo que não aceita as experiências sensoriais como válidas.

Principais ideias de Parmênides

O ser e o não-ser

Parmênides foi além da filosofia da natureza dos filósofos que o precederam, como Tales, Anaxímenes, Pitágoras, e é considerado o criador da ontologia, uma área da filosofia que discute o ser enquanto tal.

Parmênides escreveu um poema apresentando sua filosofia. Esse poema parte de algumas premissas fundamentais e a partir delas chega a uma série de conclusões lógicas. Além disso, também possui uma aura um tanto mística, já que Parmênides escreve como se a verdade lhe fosse revelada por uma deusa, que o conduz pelo caminho do conhecimento.

O poema, intitulado Sobre a Natureza, foi originalmente dividido em três partes, O Prólogo, a Verdade e a Opinião.

O ponto de partida do argumento de Parmênides em seu poema é a afirmação de que o ser é e não pode não ser e o não-ser não é e não pode ser. Ser e não-ser aqui tem o sentido de algo que existe (o ser)  e algo que não existe (o não ser). Parmênides está afirmando que algo que existente não pode se tornar nada, da mesma forma que o nada não pode vir a se tornar algo.   

A primeira consequência lógica dessa afirmação é de que o ser é eterno, sempre existiu e sempre irá existir, é imutável. A razão para isso é a seguinte: para o ser ter sido criado, deveria ter sido criado do nada. Ora, o ser não pode surgir do não-ser. Da mesma forma, o ser não pode deixar de existir, pois desse modo teria que se transformar em não-ser. Mas foi justamente isso que Parmênides disse ser impossível no início de seu poema: o ser não pode se tornar não-ser. Portanto, só resta uma possibilidade: o ser sempre existiu e sempre irá existir, não tem início nem fim.

A segunda consequência é de que a única coisa sobre a qual podemos pensar e falar é o ser. O não-ser não pode ser dito nem pensado. Pensar o nada significa pensar em nada, ou não pensar, e dizer o nada é não afirmar coisa alguma. Portanto, o pensamento e o ser andam juntos. O ser é uma condição para que seja possível pensar.

A verdade e o erro

Na segunda parte do poema, a deusa que conduz Parmênides lhe apresenta os caminhos que pode trilhar para conhecer a verdade. O primeiro é o caminho da verdade, o segundo, da falsidade e do erro e o último, o caminho da opinião.

O caminho da verdade é o caminho da razão. Isso quer dizer que através do raciocínio lógico é possível chegar a um conhecimento verdadeiro sobre as coisas.

Os sentidos, ou seja, tudo aquilo que podemos conhecer através da observação, da escuta etc, representa o caminho do erro. Eles são vistos como enganosos, ao fazerem os homens acreditar em coisas que são falsas. E o maior erro que a confiança nos sentidos como fonte de conhecimento leva é a crença de que o ser é e não é. Vamos ver o que isso quer dizer.

Se pararmos para observar (ao invés de raciocinar) sobre a realidade, notaremos, como fez Heráclito, que “tudo flui”. Ou seja, a natureza está em constante transformação. Os dinossauros um dia foram animais que habitaram o planeta terra, hoje não existem mais; da mesma forma, um dia fomos crianças, agora não somos mais.

Hora, o que os sentidos parecem mostrar é justamente que o ser é e não é, que algo que não existe (uma criança que ainda não foi concebida) passa a existir (o nascimento da criança) e deixa de existir novamente (a criança se tornou adulto). O que ocorreu foi justamente aquilo que a lógica de Parmênides dizia ser impossível, ou seja, a passagem do não-ser ao ser e deste novamente ao não-ser.

Como seria absurdo acreditar que o ser pode surgir do nada ou se transformar em nada, devemos, segundo Parmênides, desconfiar da observação. A deusa que o conduz diz para que evite cometer esse erro.

O filósofo, assim, faz uma crítica aos pré-socráticos que o precederam, por não reconhecerem uma verdade tão elementar e terem chegado a conclusões duvidosas, como a alegação de Heráclito de que tudo flui.

Por outro lado, as consequências de suas conclusões parecem extremamente radicais. A mudança na natureza, as transformações que observamos não existem realmente, não passam de uma ilusão dos nossos sentidos.

O desafio de Parmênides

As conclusões extremas de Parmênides geraram uma série de respostas ao longo da história da filosofia e são uma influência permanente. Começando com Zenão de Eléia, Platão, Aristóteles, todos foram influenciados ou procuraram dar uma resposta ao filósofo de Eléia.

Referências consultadas

Giovanni Reale. História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média. São Paulo: Paulus Editora, 1990, pp. 49-56.

This post has 3 Comments

  1. Laisa disse:

    No tópico “A verdade e o erro” diz que a deusa conduzia Pitágoras, mas o correto é Parmênides, não?

  2. Filosofia na Escola disse:

    Exato, Luisa. Muito bem observado. Já corrigi o erro. Muito obrigado pelo comentário!

  3. ANTONIO DALLA RU disse:

    Como antero afirmado, Platão, Aristóteles entre outros procuraram responder ao “desafio” de Permênides. Tentaram e não conseguiram porque raciocinaram usando o sentido literal da fala do filósofo, não atendendo para a transcendentalidade do raciocínio deste graças a evolução mental alcançada pelo mesmo já nos idos de 515 A.C.
    Quando os filósofos citados abrigaram a ideia de Permênides de “o ser é e não pode não ser” entenderam eles em suas limitações evolucional, o “ser” como algo material atual,não tendo quiçá o alcance da estrutura atômica dos seres.
    Com certeza quando Permênides afirmou que o “ser é” referia-se a existência eterna do ser, faltando apenas a concatenação de fatores para sua aglutinação.
    Devido minha insuficiência pedagógica e didática recorro a um exemplo simplista, mas que com certeza me ajudara na explicação do filósofo já nos idos de 515 A.C.
    Tomemos como exemplo você que esta lendo estes alfarrábios agora.
    Você é composto de um conjunto de sistemas; digestivo, nervoso, circulatório etc. etc. Este conjunto de sistema é cada um formado por células que por sua vez são formadas por átomos. Pois bem esses átomos que hoje contribuem para a formação do teu corpo que encera uma personalidade própria, que é você, SEMPRE EXISTIRAM existem a milhares de anos, ou seja os atomos que formam o conjunto do seu “ser” já existiam dispersos pelo, cosmo ou seja lá como querem que chame, mas existiram. Mencionei acima a “concatenação” dos fatos. O casamento de seu pai e a Sra. sua Mãe é o ultimo elo da concatenação de fatos que levaram a uniões sucessivas cujo resultado é você, um ser” que por sua vez também não terá fim, visto que após sua “morte” você continuará a existir, embora com os átomos que constituíram você de forma dispersa pelo cosmo. Mas o que ninguém poderá afirmar a luz da realidade é que você (todos nós) sempre existimos de forma dispersa repito,por bilhões e bilhões de anos e continuaremos a existir por bilhões e bilhões de anos anos. E é isto que o filósofo disse “O SER É (sempre existiu) E NÃO PODE NÃO SER(não deixará nunca de existir).

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