Fisicalismo: a mente é o cérebro | Filosofia na Escola

Fisicalismo: a mente é o cérebro

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O que é o fisicalismo?

Temos uma vida mental e uma vida corpórea. Pensamos, sentimos, desejamos, lembramos, decidimos e assim por adiante. Esses são exemplos de atividades mentais. Ao mesmo tempo, respiramos, digerimos, caminhamos, entre outras atividades corporais. Esses dois aspectos de nosso comportamento se relacionam entre si de maneiras variadas. Para executar algo simples, como reconhecer uma pessoa que já conhecemos, por exemplo, precisamos olhar, processar informações, lembrar pessoas que conhecemos e associar a imagem observada a essas lembranças e a um nome em nossa memória.

Mas qual a natureza disso que chamamos de corpo e mente? Quando pensamos no corpo, a resposta parece ser simples: ele é feito de átomos, moléculas, células como qualquer outro ser vivo. E como qualquer ser vivo, pode ser estudados a partir da física, química e biologia.

E quanto à mente? Do que são feitos os pensamentos, sentimentos, desejos? Nesse ponto, a resposta não parece ser simples. De acordo com o fisicalismo, isso que chamamos de mente é o resultado do funcionamento do cérebro. Ela é constituída pela mesma substância da qual é feita o corpo, é o produto de átomos, moléculas e células.

O fisicalismo, portanto, se opõe ao dualismo de mente-corpo, a concepção de que a mente e o corpo são constituídos por substâncias diferentes: o corpo é físico, mas a mente não. Em muitos casos, a mente é vista como sendo a alma de uma pessoa.

O fisicalismo é uma concepção sobre a mente que ganhou força na Idade Moderna, com o desenvolvimento da ciência. Ele combina com uma visão científica e unificada do mundo, segundo a qual tudo que existe é material e pode ser estudado pela ciência. Um dos defensores mais conhecidos do fisicalismo desse período foi Julien de La Mattrie, filósofo e médico francês do século XVIII. Em 1747, publicou um livro intitulado O homem máquina, no qual argumenta que o pensamento e a percepção humana poderiam ser, um dia, explicados pela física. Ao mesmo tempo, acreditava que os diferentes temperamentos observados nas pessoas, o fato de algumas serem alegres e outras mal-humoradas, poderiam ser compreendidos a partir da constituição bioquímica do corpo e do cérebro.

o homem como um palácio industria

Nessa pintura de Fritz Kahn (1926), cujo título pode ser traduzido por O homem como um palácio industrial, o ser humano é representado como uma indústria, constituída por vários subsistemas. O cérebro, em particular, é composto por monitores, sistemas de comando e processamento de dados. A analogia com o cérebro real é um pouco crua, mas o ponto chave da obra é a ideia de que a mente humana é como qualquer coisa na natureza: um sistema complexo constituído por partes físicas. Não existe alma ou mente imaterial.

A princípio, parece difícil entender como um órgão físico, como o cérebro, constituído por uma série de átomos, poderia produzir consciência e pensamento. Matéria e pensamento tem propriedades completamente diferentes. Considere o cérebro, por exemplo, faz sentido dizer que ele possui um determinado peso, cor, textura e outras propriedades tipicamente encontradas em objetos físicos. Porém, qual o sentido de dizer que meu pensamento é verde, gosmento e pesa três quilos? O mental é completamente diferente do físico.

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Argumentos a favor do fisicalismo

Com base nessa constatação, filósofos como Descartes e pessoas comuns chegaram à conclusão de que a mente e corpo tem uma natureza própria. Nesse caso, a mente não é simplesmente o resultado do trabalho do cérebro.

Para responder inicialmente essa crítica e tornar o fisicalismo um pouco plausível, podemos pensar numa analogia. Considere, por exemplo, um pen drive com uma série de músicas armazenadas. Se analisarmos o pen drive, analisarmos a matéria da qual é constituído e a forma como é organizado, iremos notar que tem propriedades completamente diferentes daquelas apresentadas pelas músicas: não tem melodia alguma, não pode ser ouvido etc. No entanto, as músicas são geradas a partir de uma série de registros presentes no pen drive. Não existe nada como uma alma no pen drive que é a verdadeira causa da música.

O fisicalismo passou a ganhar aceitação aceitação a partir do apoio de dois tipos de razões. O primeiro são os problemas que enfrenta qualquer teoria dualista, que defenda que mente e corpo têm naturezas diferentes. O segundo são as mais recentes pesquisas científicas, que parecem dar apoio a ideia de que é o cérebro que produz os pensamentos.

Problemas do dualismo

Toda concepção dualista sobre o ser humano está sujeita à críticas difíceis de responder. A primeira dessas críticas é onde a interação ocorre?

Os defensores do dualismo, como Descartes, acreditam que corpo e mente, embora possuam naturezas completamente diferentes, interagem. Esse é um fato evidente sobre o ser humano, basta nos observarmos um instante. Muitas pessoas, depois de tomar café, se sentem mais despertas. Esse é um caso simples de interação mente-corpo. Algo físico (o café) foi ingerido pelo corpo e isso afetou a mente. Interações entre mente e corpo no sentido inverso também acontecem. Quando queremos levantar o braço (algo mental), nosso braço levanta (algo físico). Então está claro que mente e corpo interagem.

O problema para o dualismo é explicar onde mente e corpo se conectam para que ocorra essa interação. Provavelmente isso ocorre no cérebro. Porém, onde? E como algo que não ocupa lugar no espaço, como o pensamento, poderia se conectar com algo físico, que ocupa lugar no espaço? Descartes acreditava que a alma e o corpo se conectavam através da de uma parte do cérebro chamada glândula pineal. Porém hoje se sabe que essa glândula não desempenha qualquer papel na consciência humana. Além disso, não qualquer parte do cérebro que pareça ser um bom candidato a essa função.

Mas o problema maior nem mesmo é esse, a questão mais importante é como algo não-material, a mente, poderia interagir com algo material, o corpo?

No mundo físico, há uma série de modos pelos quais um evento pode causar outro. Se estamos jogando bilhar e a batida de uma bola faz com que a outra se movimente, diremos que o que causou o movimento foi sua força. Se largo um objeto de minha mão e ele cai, diremos que a causa da queda foi a atração gravitacional. Se conecto a TV na tomada e ela liga, diremos que a causa disso foi a eletricidade. Em todos esses casos, temos uma interação entre duas coisas físicas, materiais. A mente ou a alma, por outro lado, não possui eletricidade, nem força, nem exerce algum tipo de atração magnética. O grande mistério do dualismo, assim, é explicar como algo como uma mente não-material poderia causar o movimento de um braço, como a mente poderia afetar o corpo.

Fisicalismo e ciência

A segunda base de apoio do fisicalismo é fornecida pela pesquisa científica sobre o cérebro. Essas pesquisas mostram que existem relações claras entre partes do cérebro e sentimentos, capacidades e estados mentais.

Algumas dessas pesquisas são sobre pessoas que tiveram partes do cérebro danificadas de alguma forma. A partir desses estudos, os cientistas tentam entender o que faz cada parte do cérebro, mapear suas funções.

O caso de Phineas Gage

Um dos casos mais famosos é o de Phineas Gage, que trabalhava na construção de ferrovias e sofreu um acidente em 1848. Gage era responsável por explodir rochas que ficavam no meio do caminho das ferrovias. Por causa de uma explosão acidental, foi atingido por uma barra de ferro que tinha cerca de um metro e pesava em torno de seis quilos. A barra atravessou seu crânio e foi cair a trinta metros de distância.

A parte mais surpreendente da história é que Gege sequer ficou inconsciente por alguns instantes. Apesar do buraco na cabeça, não era possível perceber qualquer mudança em suas habilidades. Continuou sendo uma pessoa normal, capaz de ver, contar, ler, ouvir, etc.

No entanto, Gage nunca mais foi o mesmo depois do acidente. As pessoas que o conheciam não reconheciam a mesma pessoa. Sua personalidade foi completamente alterada. Quanto sofreu o acidente, tinha 25 anos. Até então, era considerado um trabalhador exemplar, responsável, comprometido, dedicado, persistente. Depois de sofrer o acidente, nunca mais conseguiu permanecer num emprego durante muito tempo. Tanto que acabou se tornando atração de circo, exibindo a ferida e o ferro para os curiosos.

As mudanças de personalidade foram inúmeras. Gage passou a se mostrar apegado a objetos e animais, um “comportamento de colecionador” comum em pessoas que sofrem esse mesmo tipo de lesão cerebral. Além disso, passou a ser uma pessoa desagradável, que fica dizendo coisas obscenas e incapaz de aceitar qualquer restrição ou conselho que entrasse em conflito com seus desejos.

Estudos de casos como o de Phineas Gage, com pessoas com lesões no cérebro, mostram que há regiões do cérebro responsáveis pela linguagem, pelo movimento, por certas emoções etc. De modo que lesões nessas áreas levam a perda de capacidades específicas. Pessoas que tem uma lesão na mesma área que foi lesionado o cérebro de Gage sofrem das mesmas alterações de comportamento.

Que conclusão filosófica deveríamos tirar desses estudos? O fisicalismo acredita que esse é um forte indício de que a mente é o resultado do funcionamento do cérebro.

Mapeamento cerebral

Também existem estudos feitos em cérebros normais que, através de instrumentos sofisticados, mapeiam o funcionamento de cérebro de uma pessoa durante a execução de determinada atividade. Através disso, os cientistas são capazes de observar qual área do cérebro é responsável por certa tarefa (pensar, calcular, desejar, sentir raiva, medo etc.).

Essa correlação observada pela ciência entre estados cerebrais e estados mentais sugere, de acordo com o fisicalismo, que não é necessária a existência de uma alma para que possamos ter pensamento, sentimento, consciência. Tudo isso é o resultado do funcionamento de um órgão extremamente complexo que só agora a ciência está começando a entender. Com o progresso do conhecimento do cérebro, seremos capazes de entender cada detalhe de nossa mente a partir da análise desse órgão.

Referências e leitura adicional

António Damásio. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

Eric Matthews. Mente: conceitos chave em filosofia. Porto Alegre: Artmed: 2007.

Jerry A. Fodor. O problema mente-corpo.

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