Argumento por analogia: o que é e como avaliar

argumento por analogia ou comparação
As pesquisas que usam ratos para testar medicamentos se valem da analogia existente entre humanos e esses animais para justificarem suas conclusões.
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William é formado em filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), tem especialização em docência e trabalha como professor de filosofia no ensino médio.
Última atualização setembro 2019

O que é um argumento por analogia

Um argumento por analogia é um instrumento importante para entendermos o mundo em que vivemos e como devemos agir em relação às pessoas com as quais nos relacionamos. Esse tipo de raciocínio é muito comum em áreas tão diversas como a ciência, filosofia, o direito, a propaganda e discussões polêmicas sobre questões morais, políticas etc. Praticamente em qualquer debate será usado um ou outro argumento por analogia.

Para entender o que é e como avaliar esse tipo de argumento, o primeiro passo é compreender o que significa fazer uma analogia. Fazer uma analogia é estabelecer relações de semelhanças entre objetos ou fatos diferentes. Na argumentação, ela é usada quando tiramos uma conclusão com base nisso.

Um exemplo desse argumento que foi muito usado por filósofos na Idade Média e início da Idade Moderna é o seguinte:

Um relógio é um objeto complexo que para existir necessita ser criado por um ser inteligente.

O mundo é tão ou mais complexo que um relógio.

Portanto, o mundo também precisa de um criador inteligente, ou seja, um deus que o tenha feito.

Observe no argumento acima que, nas premissas,  é estabelecida uma relação de semelhança entre um relógio e o mundo ao se afirmar que ambos são complexos. Com base nisso, se estabelece uma segunda semelhança, a conclusão de que ambos possuem um criador.

Se analisarmos um argumento por analogia, vamos observar geralmente a seguinte estrutura:

A é semelhante a B no aspecto X.

A tem Y.

Portanto, B também tem Y.

O argumento anterior que procura provar a existência de deus tem exatamente essa estrutura. É importante lembrar que simplesmente estabelecer uma analogia entre dois objetos ou acontecimentos não basta para termos um argumento por analogia. É necessário que uma inferência seja feita a partir dessa analogia, ou seja, que uma conclusão seja extraída dela.

Como avaliar um argumento por analogia

Vamos entender como avaliar um argumento por analogia através da análise de alguns exemplos de diferentes áreas. Em resumo, ao identificarmos que estamos diante de um argumento desse tipo, é necessário fazer uma pergunta para saber se o argumento é bom ou não:

  • Não existe alguma diferença relevante entre os objetos ou eventos comparados que invalidem a conclusão?

Argumentos por analogia só se sustentam quando a analogia é aceitável. Por isso é importante fazer essa pergunta ao ser confrontado com um argumento desse tipo.

Primeiro exemplo: analogia na publicidade

Vamos analisar um exemplo de argumento por analogia usado em uma propaganda do Burger King na véspera da eleição presidencial de 2018. O vídeo aborda o tema do voto em branco e nulo, através de uma comparação com pedidos de hambúrgueres. Veja o vídeo abaixo para avaliarmos seu argumento.

Qual foi sua primeira impressão ou ver o vídeo? Ele é convincente ou não? Acredita que seja um argumento válido?

Por experiência pessoal, a maioria das pessoas que o observam consideram um bom argumento e concordam com a opinião apresentada nele. Mas essa primeira impressão tende a dar lugar para uma avaliação mais ponderada quando se analisa o argumento de forma mais fria. É o que vamos fazer agora.

Podemos organizar o argumento apresentado no vídeo da seguinte forma

Votar em branco é como deixar que outra pessoa escolha por você um hambúrguer.

Se deixa de escolher qual hambúrguer deseja comer, não tem o direito de reclamar do que oferecerem.

Portanto, se votar em branco ou nulo também não terá o direito de reclamar do resultado da eleição e das políticas que forem adotadas pelo representante eleito.

Esse é um bom argumento? As premissas conseguem justificar a conclusão? Não vamos discutir aqui se temos o direito de reclamar ou não do resultado de uma eleição no qual votamos em branco, iremos apenas avaliar o mérito desse argumento. O primeiro passo, como vimos, é avaliar se a analogia feita nas premissas se justifica.

Há boas razões para aceitá-la? Votar em branco é como deixar que outra pessoa escolha por você um hambúrguer? Numa análise superficial, isso é verdade, pois em ambos os casos alguém deixar de fazer uma escolha que está ao alcance. No entanto, as semelhanças param por aí. Se avaliarmos o significado de cada uma dessas ações, notaremos diferenças gritantes.

Por que alguém deixaria de escolher seu hambúrguer? Ninguém faria isso a não que fosse transferir a responsabilidade para alguém de confiança, seja outra pessoa ou mesmo a hamburgueria. Imagine que foi convidado pelo parceiro(a) ou amigo(a) para conhecer uma hamburgueria nova, que ele(a) já conhece. Depois de olhar o cardápio e ficar em dúvida sobre qual a melhor opção, você pede que seu companheiro(a) escolha por você. Também poderíamos imaginar uma situação na qual vai a um lugar familiar, do qual gosta de todo no cardápio, e pede para o garçom trazer qualquer um, pois todos são saborosos.

É esse o sentido do voto em branco ou nulo? Em alguns casos pode até ser, mas na maioria o sentido é um voto de protesto. Essa é a forma encontrada por muitos eleitores para demonstrar sua insatisfação com as opções disponíveis.

Portanto, há uma diferença grande entre votar em branco e deixar que uma pessoa escolha em seu lugar um hambúrguer. O primeiro caso é uma forma de dizer “não gostei de nenhuma das opções”, enquanto o segundo significa o contrário, “qualquer opção é boa”.

Ao avaliar um argumento por analogia, o ponto principal é saber se a comparação estabelecida entre os objetos comparados se sustenta. Acabamos de ver que há uma diferença expressiva entre votar em branco e deixar alguém escolher um hambúrguer por você. Sendo assim, essa é uma falsa analogia e o argumento do vídeo não é bom.

Segundo exemplo: analogia em debates morais

Um dos temas espinhosos do debate atual sobre temas morais é a questão do aborto. Geralmente a questão leva a discussões apaixonadas nas quais a frieza de uma análise lógica e argumentos bem elaborados dão lugar a discursos apaixonados e carregados de emoção.

Ainda assim há lugar para bons argumentos nesse tipo de debate. Um exemplo disso é o argumento por analogia elaborado por Judith Jarvis Thomson, apresentado num artigo de 1971 chamado Em defesa do aborto. Se uma mulher sofre um estupro, ela tem direito de abortar? Independente de sua opinião, deixa-a um pouco de lado e avalie a analogia elaborada por Thomson sobre a questão.

Imagine, diz ela, que em uma manhã você acorda e se encontra na cama de um hospital, ligado ao corpo de uma pessoa que descobre ser um violinista famoso. Ao perguntar como veio parar ali, ouve a seguinte explicação do médico: você foi raptado por um grupo de fãs desse músico, que desejam salvar sua vida a qualquer custo. Ele está com um problema de saúde grave e a única chance de sobreviver é tendo seu sistema circulatório ligado ao de outra pessoa do mesmo tipo sanguíneo, durante nove meses.

O médico esclarece que você pode permanecer ligado ao violinista ou não, porém lembra que, caso opte por não ajudar, estará causando a morte de uma pessoa inocente, um grande artista, com grande potencial pela frente. Nessa situação, é seu dever moral permanecer ligado ao violinista?

Thomson acredita que ninguém tem a obrigação moral de salvar a vida de outra pessoa numa situação como essa. Pode ser honrado da sua parte fazer algo para ajudar, mas nunca um dever. Por fim, argumenta que ser raptado e ligado a outro corpo dessa maneira é semelhante ao que ocorre no caso de estupro. Em ambos os casos você não teve escolha, você é ligado a outro corpo durante um longo período e disso depende a vida de uma pessoa inocente. Como as duas situações são semelhantes, a autora acredita que devem receber um tratamento semelhante. Portanto, se não é errado se desligar do violinista, também não é errado abortar um feto resultante de estupro.

De forma resumida, esse é o argumento de  Thomson:

Ser ligado ao violinista é como engravidar através de um estupro.

Ninguém tem obrigação moral de salvar a vida do violinista.

Portanto, as mulheres não têm obrigação de manter uma gestação que foi o resultado de um estupro.

Assim como no argumento sobre voto em branco e nulo, para avaliar esse argumento por analogia o principal ponto a ser considerado é a premissa que estabelece a analogia. Há boas razões para aceita a primeira premissa? As duas situações comparadas são suficientemente semelhantes? Há diferenças que invalidam a comparação?

Sempre é possível encontrar diferenças, afinal são situações diferentes. Mas não é qualquer diferença que é relevante. Poderíamos argumentar, por exemplo, que a analogia não é válida porque casos de estupro são muito comuns em nossa sociedade, mas casos de pessoas ligadas a violinistas não existem, não passam de experimentos mentais de filósofos. De fato isso é verdade, mas essa não é uma diferença importante, que invalide a analogia.

Não havendo diferença relevante, o próximo passo seria avaliar a segunda premissa. Será verdade que ninguém tem obrigação moral de salvar a vida do violinista? Caso aceitamos também essa, parece natural aceitar a conclusão. A princípio, portanto, essa é um bom argumento por analogia.

Referências e leitura adicional

Para conhecer outros  tipos de argumentos, veja os artigos Argumento dedutivoArgumento indutivo e  Argumento de autoridade. Para uma abordagem mais aprofundada desse tema, veja a bibliografia abaixo.

Douglas Walton. Lógica Informal: manual de argumentação crítica. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.

Weston, Anthony. A arte de argumentar. Lisboa: Gradiva, 1996.