Falsa Analogia

Descrição

Falsa analogia, como o nome sugere, é um argumento que faz uma analogia entre duas coisas diferentes. Talvez a maior dificuldade em compreender essa falácia seja compreender o que significa analogia.

Considere a seguinte afirmação: “a morte está para a vida, assim como a cegueira para a visão”. Nessa frase, estão sendo comparados dois pares de fenômenos a “vida-morte” e “cegueira-visão”. Essa comparação, além disso, diz que são coisas semelhantes – observe o “assim como”, uma expressão geralmente utilizada para indicar comparação. Qual a semelhança que entre coisas tão diferentes? Ora, se a pessoa está viva, não está morta. Da mesma forma, se está cega, não vê. Ambos os fenômenos são contrários que se excluem mutuamente. Então, sob pelo menos um aspecto esses fenômenos se assemelham.

Fazer uma analogia significa comparar coisas semelhantes, mas diferentes, apontando para suas semelhanças.

A falsa analogia, por outro lado, ocorre quando dois objetos são comparados e se afirma existir uma semelhança entre eles, porém essa semelhança não existe ou há diferenças expressivas que devem ser consideradas.

Exemplo 1

O exemplo abaixo foi criado por Max Shulman, autor de O amor é uma falácia. Ele bastante convincente. Sugiro inclusive que use com seu professor. Analise ele e procure mostrar o que há de errado

Deviam permitir aos estudantes consultar seus livros durante as provas. Afinal, os cirurgiões levam radiografias para se guiarem durante uma operação, os advogados consultam seus papéis durante um julgamento, os construtores têm plantas e projetos que os orientam na construção de uma casa. Por que, então, não deixar que os alunos recorram a seus livros durante uma prova?

Por que não?  Nesse argumento, dois grupos de pessoas estão sendo comparados: os estudantes e os profissionais formados. Os profissionais podem usar uma série de recursos além dos conhecimentos que tem armazenados em sua memória quando estão fazendo o seu trabalho. Se um profissional pode, nada mais justo que os estudantes também não precisem depender apenas de suas memórias quando estão fazendo provas.

Se essa fosse uma boa analogia, deveríamos concordar com a conclusão e concluir que os estudantes devem ter a possibilidade de consultar suas anotações. Porém, essa é uma boa analogia?

Ao avaliar uma analogia para saber se ela é boa ou não, é importante se perguntar se não existem diferenças importantes entre as duas situações que justificariam um tratamento desigual. Nesse caso, essa há uma diferença clara. Os estudantes estão em situação de teste, no qual precisam demostrar seus conhecimentos. Já os profissionais, não. Ou seja, são situações diferentes e não podem ser comparadas.

Exemplo 2

Analise o argumento abaixo

Não acreditar que Jesus ressuscitou porque a Bíblia tem erros e contradições, é como negar que o Titanic afundou porque testemunhas oculares não concordaram se o navio quebrou pela metade antes ou depois afundou.

Nesse argumento, é feita uma analogia entre as contradições sobre a ressurreição de Jesus e as contradições sobre o naufrágio do navio Titanic. São esses dois eventos que estão sendo comparados.

E qual a conclusão que o argumento pretende tirar dessa comparação?

Que deveríamos acreditar na ressurreição de Cristo assim como acreditamos no naufrágio do Titanic.

Para avaliar se essa é uma falsa analogia, temos que nos perguntar se de fato esses são dois acontecimentos semelhantes. E se a resposta for não, apontar quais são suas diferenças. Não é preciso muito esforço para isso. Por exemplo:

  1. Ninguém viu Jesus ressuscitando, porém várias pessoas viram o Titanic afundando.
  2. Não há qualquer evidência de que Jesus tenha ressuscitado. Ao contrário, podemos ver o Titanic no fundo do mar, o que é uma prova bastante conclusiva.

Essas são duas diferenças importantes que existem entre as contradições sobre o naufrágio do Titanic e a ressurreição de cristo que mostram que essa não é uma boa analogia.

Referências sobre falácias

Almossawi, Ali. O livro ilustrado dos maus argumentos. Rio de Janeiro: Sextante, 2017.

Schopenhauer, Arthur. 38 estratégias para vencer qualquer debate. São Paulo: Faro Editorial, 2014.

Velasco, Patrícia Del Nero. Educando para a argumentação: contribuições do ensino da lógica. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2016.

Walton, Douglas N. Lógica Informal: manual de argumentação crítica. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.