Falsa Analogia | Filosofia na Escola

Falsa Analogia

A falsa analogia é uma falácia que ocorre quando a conclusão de um argumento depende de uma semelhança entre dois objetos que possuem diferenças relevantes.

Exemplo:

Foi descoberta a cura do câncer de pulmão em seres humanos. Um novo medicamento foi testado em ratos e mostrou uma eficácia extraordinária. Como seres humanos são mamíferos assim como ratos e compartilham uma série de semelhanças com esses, é certo que também curará o câncer em seres humanos.

No argumento acima, a conclusão de que a cura do câncer de pulmão em seres humanos foi descoberta está baseada na semelhança existente entre seres humanos e ratos. Porém essa semelhança não é tão grande a ponto de podermos concluir que se funcionou em ratos irá funcionar em seres humanos. Por isso o argumento pode ser considerado uma falsa analogia.

Análise

Falsa analogia, como o nome sugere, é um argumento que faz uma analogia entre duas coisas diferentes. Talvez a maior dificuldade em compreender essa falácia seja compreender o que significa analogia.

Considere a seguinte afirmação: “a morte está para a vida, assim como a cegueira para a visão”. Nessa frase, estão sendo comparados dois pares de fenômenos a “vida-morte” e “cegueira-visão”. Essa comparação, além disso, diz que são coisas semelhantes – observe o “assim como”. Qual a semelhança que entre coisas tão diferentes? Ora, se a pessoa está viva, não está morta. Da mesma forma, se está cega, não vê. Ambos os fenômenos são contrários que se excluem mutuamente e nisso se assemelham.

Fazer uma analogia significa comparar coisas semelhantes em algum aspecto, destacando suas semelhanças ao invés das diferenças.

A falsa analogia, por outro lado, ocorre quando em um argumento a semelhança entre dois objetos é usada como ponto de partida para uma conclusão, mas se ignora diferenças significativas entre esses objetos, que tornam o argumento muito fraco ou totalmente sem valor.

Falsa analogia ocorre quando é feita uma analogia entre dois objetos, porém esses objetos possuem diferenças relevantes.

Esse tipo de argumento ocorre sobretudo em discussões morais sobre o que é certo ou errado, justo ou injusto, embora também esteja presente em argumentos sobre outros temas.

É importante lembrar que há argumentos por analogia que não falaciosos. Por isso é fundamental saber não apenas a identificar quando uma analogia é usada em um argumento, mas sobretudo se esta é uma analogia válida ou falaciosa.

Exemplo 1: estudantes e trabalhadores

O exemplo abaixo foi criado por Max Shulman, autor de O amor é uma falácia. Ele parece bastante convincente. Sugiro inclusive que use com seu professor. Analise e procure encontrar o que há de errado:

Deviam permitir aos estudantes consultar seus livros durante as provas. Afinal, os cirurgiões levam radiografias para se guiarem durante uma operação, os advogados consultam seus papéis durante um julgamento, os construtores têm plantas e projetos que os orientam na construção de uma casa. Por que, então, não deixar que os alunos recorram a seus livros durante uma prova?

Por que não? Porque essa não é uma boa analogia. Nesse argumento, dois grupos de pessoas estão sendo comparados: os estudantes e os profissionais formados. Os profissionais podem usar uma série de recursos além dos conhecimentos que tem armazenados em sua memória quando estão fazendo o seu trabalho. Se um profissional pode, nada mais justo que os estudantes também não precisem depender apenas de suas memórias quando estão fazendo provas.

O problema com esse raciocínio é que estudantes estão em situação de teste, no qual precisam demostrar seu conhecimento. Já os profissionais, não. Ou seja, são situações diferentes e não podem ser comparadas.

Exemplo 2: armas e carros

No Brasil há uma discussão atualmente sobre a flexibilização da posse de armas, na qual muitas falácias são usadas tanto pelos defensores quanto pelos críticos da política.

Em uma entrevista, Augusto Heleno usou uma comparação entre posse de carros e de armas para justificar uma mudança na legislação que facilite o acesso a armas.[1]

O raciocínio que usou é o seguinte:

No Brasil, qualquer pessoa que demonstre condições mínimas, pode conseguir habilitação para dirigir um carro. Ao contrário da posse de armas, que poucas pessoas podem ter acesso. A justificativa para essa restrição é o número de mortes provocadas por armas, que chega a em torno de 60 mil mortes por ano. No entanto, no trânsito morrem quase 40 mil pessoas por ano. Portanto, se devemos restringir o acesso a armas por causa do número de mortes que elas provocam, deveríamos também restringir o acesso a carros.

O raciocínio por analogia presente nesse argumento é muito usado no direito e parte da ideia de que devemos tratar de forma semelhante coisas semelhantes. Nesse caso, é apontada uma semelhança entre armas e carros quanto à sua capacidade de causar mortes. E, como conclusão, se defende que a liberdade de usar armas não seja restringida porque pode provocar mortes, já que a liberdade de usar carros não é restringida ainda que cause mortes.

Esse argumento é uma boa ou falsa analogia? Como devemos proceder para avaliar?

A pergunta fundamental que devemos fazer para avaliar um argumento por analogia é: os dois casos comparados são semelhantes de fato? Não existem diferenças importantes que justifiquem um tratamento diferenciado?

No exemplo que estamos analisando, armas e carros realmente provocam um número de mortes semelhantes? E, caso isso aconteça, não existem diferenças entre ambos que justifique um tratamento diferente?

Vamos aceitar para fins de argumentação que carros e armas realmente gerem um número de mortes semelhantes. Há diferenças relevantes? Sim. Podemos citar várias.

  • Uma política que restringisse o acesso ao direito de dirigir limitaria o direito de ir e vir e geraria um problema econômico gravíssimo. Tanto que nenhum país adotou até hoje qualquer política que limitasse o direito a dirigir quanto o direito de possuir uma arma. Possuir uma arma não é uma liberdade que possa ser comparada em importância ao direito de se deslocar usando um veículo,
  • Uma segunda diferença relevante é o fato de que o carro atende ao propósito para o qual existe: garantir o deslocamento de pessoas. Já as armas não atendem ao propósito para as quais existem: garantir a segurança. O problema da posse de armas é que tem como finalidade aumentar a segurança da população, mas tem como efeito o contrário: aumenta a violência.

Assim, temos diferenças significativas entre carros e armas que invalidam a analogia proposta por Augusto Heleno.

Exemplo 3: armas e liquidificadores

Um dos argumentos usados por aqueles que são contrários à flexibilização da posse de armas é o risco que elas trazem para crianças. O chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, usou uma analogia (e uma generalização apressada) para criticar esse argumento:

“Criei quatro filhos com arma dentro de casa e meus filhos nunca foram lá porque eu ensinei para eles o que significava. A gente vê criança pequena botar o dedo dentro do liquidificador e ligar o liquidificador e perder o dedinho. Aí vamos proibir o liquidificador? Não.”[2]

Essa é uma boa analogia? Há semelhanças relevantes entre os riscos de ter um liquidificador e um arma em casa? Há diferenças relevantes?

A analogia é claramente falsa nesse caso. Em primeiro lugar porque o risco que cada um desses objetos representa para crianças é muito diferente. Acidentes com armas tem grande probabilidade de resultar em morte, por outro lado, um acidente com liquidificador dificilmente levará a óbito. Além disso, ocorrem muito mais acidentes com armas que com liquidificadores. Nos EUA, lesões com armas de fogo são a segunda maior causa de morte de crianças, embora nem todas sejam acidentais.

A lista de diferenças relevantes poderia ser estendida, mas esses dois casos já bastam para mostrar que a analogia entre acidentes com armas e liquidificador não se sustenta e, portanto, o argumento de Onyx é uma falácia.

[1] https://g1.globo.com/politica/noticia/2018/12/30/futuro-ministro-compara-posse-de-arma-a-posse-de-um-carro.ghtml

[2] https://emais.estadao.com.br/blogs/daniel-martins-de-barros/argumentos-no-liquidificador/