Não se nasce mulher, torna-se mulher

26 de julho de 2020 - 5 min leitura

O que é ser mulher?

Filósofa francesa, existencialista e feminista, Simone de Beauvoir escreveu O segundo Sexo em 1949 a fim de investigar respostas populares para essa questão.

Ela concluiu que definições comuns, como a de que mulheres são frágeis ou de que nasceram para cuidar de tarefas domésticas, estavam sendo usadas para subjugá-las ao longo dos tempos. Para Beauvoir, as visões dos indivíduos são socialmente e culturalmente produzidas. Não se nasce com elas, mas se aprende através da socialização. E nesse caso, o que acontece é que as mulheres estavam sendo ensinadas sobre seus papéis para que os homens pudessem se manter dominantes.

Mas Beauvoir discordava dessas definições populares. Ela escreveu “Não se nasce mulher, torna-se mulher”.

Seu ponto de partida para essa teoria é uma ideia clássica do existencialismo de Sartre, a afirmação de que “a existência precede a essência”. Com isso ele queria dizer que o ser humano não tem uma essência ou identidade definida ao nascer. Ao contrário, primeiro existimos e a partir das escolhas que fazemos vamos definindo nossa essência, aquilo que somos. Se vamos se dedicar à filosofia ou entrar para o exército, se vamos ser pacíficos ou agressivos, se vamos ser homossexuais ou heterossexuais – tudo isso é, para o existencialismo, o resultado de uma escolha. 

Partindo disso, Beauvoir escreve que  “a fim de explicar suas limitações, é a situação das mulheres que deve ser invocada, não uma essência misteriosa; assim, o futuro permanece largamente aberto”. Quando ele fala em limitações, está se referindo ao fato de as mulheres não votarem ou não trabalharem em certas profissões que eram reservadas para homens na época, entre outras. 

Nesse ponto ela contraria a visão comum na época, que acreditava que as limitações das mulheres eram o resultado de sua natureza. De acordo com essa visão, se as mulheres cuidavam da casa e dos filhos ao invés de trabalhar fora era por causa de sua natureza. Se não participavam da política, era porque naturalmente eram incapazes de desempenhar essas funções.

Beauvoir argumenta, ao contrário, que a mulher não nasce com uma essência definida, ela se torna o que é a partir de sua educação e de suas escolhas. Ela não é por natureza incapaz de cuidar de assuntos políticos ou se dedicar a atividades fora de casa. Ao contrário pode fazer isso desde que não seja tolhida pela educação.

A filósofa argumenta que a mulher foi educada historicamente como inferior e secundária ao homem de três formas. 

Ela explica que a sociedade ensina a mulher, em primeiro lugar, a satisfazer as necessidades do homem e, então, existir para o homem.

Em segundo lugar, a não ter valor em si e buscar validação externa para seu valor.

Seu terceiro ponto é de que as mulheres historicamente tiveram poucos direitos e, portanto, menor influência pública.

Beauvoir usa uma comparação, dizendo que a menina é “tratada como uma boneca”. O que ela quer dizer? Uma boneca é um meio poderoso de identificação. Através dela, a menina aprende se identificar com a condição de ser despida, arrumada e envaidecida enquanto não age por si mesma, mas permanece passiva.

Ela aprende a objetificar a si mesma, assim como o homem objetifica a mulher. A boneca é submissa: seu papel é ser despida, ouvir os segredos de sua dona, confortar ela quando está sozinha e permanecer em casa quando ela está na escola.

Beauvoir argumenta que, quando a menina cresce, ela se encontra na mesma situação da sua boneca. Como uma mulher, seu papel será atrair um marido com sua beleza, ouvir atentamente seus problemas e esperar em casa por ele enquanto está no trabalho.

Seja de plástico ou de carne e osso, a mulher é apenas um acessório. Beauvoir afirma que mesmo se uma mulher não casar, ela ainda vai se adequar a padrões masculinos, por causa da pressão externa, como a produzida pelas indústrias da beleza, dieta e moda, as quais são todas cúmplices em perpetuar a objetificação da mulher.

Para alcançar a libertação, Beauvoir acreditava, as mulheres precisam reconhecer muitas dessas “normas sociais” como construções. Apenas então elas terão a liberdade de escapar de sua condição e determinar seu próprio destino. 

Escrito num contexto de conservadorismo intenso, O segundo Sexo foi publicado apenas cinco anos depois de as mulheres francesas terem garantido o direito ao voto, num tempo em que poucas mulheres podiam trabalhar. 

Agora podemos voltar à nossa questão inicial, o que ser uma mulher? Para Beauvoir, “não se nasce mulher, torna-se mulher”. Sendo assim, essa é uma questão em aberto, que cada mulher pode responder de modo diferente através de suas escolhas.

Referências

Esse texto é em parte tradução e em parte uma paráfrase do livro e vídeo produzido pela Macat sobre O Segundo Sexo, escrito por Beauvoir.

This post has 7 Comments

  1. Giovana Assunção disse:

    Este conteúdo é digno de aplausos. Perfeita explicação!

  2. Escola Feminista disse:

    Cada vez mais as mulheres conquistam seu espaço, mesmo em meio a uma sociedade machista. A luta feminista há séculos segue seu curso e prepara o caminho da sua revolução.

  3. Vanessa disse:

    Desde então, só há desgraça desse mundo por causa desse feminismo que perverte princípios de Deus e a mente tão manipulável das mulheres. Simone: uma dependente emocional de macho, aliciadora de menores que chegaram se mutilar e suicidar, amiga de comunista e nazista,uma mulher pervertida que desde a infância se masturbava no tronco de uma árvores, esse ser é o ícone do feminismo. E como pelos frutos se conhece a árvore, fica claro o porquê desse movimento ser intragável.

  4. Fabrício disse:

    A mulher conseguiu muito espaço, diga-se de passagem merecido. Todavia, a igualdade só é aclamada quando é benefício para elas, mas quando a igualdade clama por trabalhos pesados, obrigatórios e degradantes (hoje realizado por homens) elas já não mais clamam pela tão sonhada igualdade. Não vou longe, quando a conta chega, logo a mulher que brigava por igualdade faz “corpo mole” para pagar a conta. Querem igualdade, mas brigam por vagões só de mulheres. Querem igualdade, mas brigam por leis que protejam só as mulheres. Querem igualdade, mas nas catástrofes querem ser as primeira a sair e se livrar. IGUALDADE SOMENTE QUANDO LHES BENEFICIAM, CASO CONTRÁRIO, QUEREM SUPERIORIDADE NO TRATAMENTO.

  5. Emanuelle disse:

    Fabrício, não é certo que homens tenham que sujeitar a isso também, e sua fala não é verdade, já que muitas mulheres (principalmente em uma situação financeira mais baixa) trabalham/trabalhavam em cargos considerados de homens, também existiam equipes no exército de mulheres.
    Esses “privilégios” que você citou só existem por causa do machismo e precisar disso também é um problema. Precisamos de vagões separados por causa dos abusadores, precisamos de leis de proteção pois somos as principais vítimas de violência doméstica ou passional. Necessitar de leis de proteção não é privilégio e muito menos superioridade.

  6. Mds disse:

    Concordo com boa parte do texto,mas que a pessoa pode escolher se vai ser homossexual ou heterossexual acho que não é bem assim,a pessoa tem poder de escolha,ela pode escolher se vai se assumir homossexual ou não,mas se ela é não é uma escolha dela e sim o jeito que ela nasceu,se pudesse escolher,todos seriam heterossexuais,assim não sofreriam preconceito,alguns casos agressão e até a morte…

  7. vanda disse:

    interessante esse assunto, o machismo ainda se estende por causa da biblia sagrada, que ensina que a mulher ser submissa.

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